dança contemporânea

21/05/09 - Sobe o pano no Apolo, o espetáculo é 'por um fio em lã', solo de dança com Juan Guimarães. O espetáculo foi concebido para trabalhar com o tema do aborto, agora achei que ele procura abstrair bem a temática da qual trata, há quem discorde, mas para mim foi abstrato.

Há vários jogos interessantes com fios, como metafora a linha da vida, há uma cena no final que remete à crianças, talvez no final o espetáculo entregue mesmo um pouco o jogo. Achei o dançarino bom, verdadeiro, depois,voltando para casa no mesmo ônibus que ele ouvi ele dizendo sobre entradas erradas e alguns improvisos e pensei o seguinte:

Engraçado como é ser público, no teatro já sou menos iludido, já fico mais crítico, mas na dança ainda sou bastante inocente e por várias vezes me ponho aberto para o que vem, seja o que for. Na verdade, fico triste pelas vezes que fico analisando peças, digo para mim mesmo "pára e assiste, Diogo, deixa de ser chato, ninguém merece" é verdade.

Interessante mesmo foi o debate depois, mediado por Sérgio Reis, figura muito interessante da qual falo depois. Foi uma grande rasgação de ceda; o interessante disso é a função social deste debate oferecido pelo Sesc depois do espetáculo.

Não defendo que ele seja exclusivo para a classe, de forma alguma, entretanto penso o seguinte - é um debate, um momento para trocar idéias e conhecer sobre o processo dos artistas, não é a hora dos agradecimentos, rosas e afins. Sei que não curarei esse mal com uma crônica, mas parafraseando os gestores do Sesc "deixo aqui registrado..."

Outro ponto engraçado é o que é dança e o que é dança contemporânea, isso porque 'por um fio em lã' diz ser dança, mas é montado com várias intenções do que seria 'dança contemporânea', mas não me aprofundar no assunto, não vale a pena.

Ah, foi isso, acabou esse relatório.

Crueldade

19/05/09 - Sobe o pano, dia da crueldade. Chegamos todos por volta das cinco horas, mas com o nervosismo, põe lona, prepara as bugigangas - e tivemos de tudo, pedaços de carne, uma verdadeira aquarela de tintas guache, carvão, incenso, máscaras, um pedaço de pau para Dolores, uma bacia, tesoura, merda, lanternas, sonoplastia, carvão... Enfim muitas coisas, fomos começar pelas sete da noite.

Primeiro foram Paulinha, Vila e Beto apresentando "Prostituta Respetitosa", de Sartre . Muito bacana, nos colocaram todos pra dentro pelos braços, Mauro (uma vez contra-regra, sempre contra-regra) fez o trenzinho na luz junto à Tiago na sonoplastia enquanto o trio repetia freneticamente frases soltas; as luzes se apagam e Evilásio aparece completamente sujo grudado na parede, como um desesperado; as luzes se apagam, eles nos tiram enquanto procuram por um ministro, um senador, algo assim; as luzes se apagam, Roberto estupra Paula no escuro; as luzes se apagam, Roberto é tingido de todas as cores (teoricamente, na verdade ele foi pintado de verde, como o incrível Hulk, fazer o quê). Fim.

A discussão proposta pelo grupo era sobre o racismo e as verdadeiras cores do ser humanos, achei muito bacana.

Depois fomos nós, eu, Thaísa e Felipe, nervosíssimos. Fomos fazer Édipo Rei. Deitamos todos, tentamos os importunar com a praga que dizimava Tebas, os sentamos e inquirimos, como Édipo, quem havia matado o rei, Tirésias surge e revela a verdade, todos se levantam e acusam Édipo até que ele se cegue.

Tentamos muita coisa e não deu certo quase nada, mas valeu a experiência. Queríamos levar o público, no primeiro momento, á um nível de desespero que o fizesse querer sair dali sem poder, queríamos assutar, fomos ridículos. Azar. Depois, não percebemos que manipular dezessete pessoas leva tempo demais.

O engraçado foram os feedbacks contrastantes. Alguns viajaram bastante, outros não. Enfim, cada um fez seu próprio espetáculo, dessa perspectiva foi válido.

Logo em seguida Tiago, fazendo "Marat Sade", de Peter Weiss, foi estranho, faltou acreditar no que se está fazendo. Mais importante que processo, nota, aluno, professor, cachorro ,gato, dar cambalhota, agradar, não agradar, é acreditar no que se está fazendo. E encontrar isso é a busca de uma vida.

A partir daí a ordem se perde em minha mente, mas acho que depois foram Biaggio e Camilla, com a "Obscena Senhora D.", de Hilda Hilst, a tal. Muito impressionante, entramos todos com Biaggio cheio de fita adesiva falando coisas estranhas e nos posicionando enquanto Camilla dançava loucamente em cima da mesa. Depois descobri que ela estava derrubando o convencionalismo da mesa posta, antes disso pensei que ela era uma striper mesmo. Muito bacana o texto e a maneira como eles brincaram com ele. Adorei a cena em que eles devoravam a carne. Não tem mais muito o que dizer, essas coisas são o que são e são muito válidas assim.

Depois Ju, Thaty e Guil em Álbum de Família. Aplauso para Ingrid, eu sei que as meninas se descabelaram para fazer a cena delas e foi muito bacana, o destaque de Ingrid foi como ela conseguiu contornar a neurose de Ju com as escapadinhas e enroladinhas de Thaty. A cena ficou muito bacana, com elas fugindo de medo da irmã no meio da noite, com malhas super finas, ui ui. Deram beijinhos na plateia, Noronha e Geraldo, para ser mais preciso.

Elas ficaram agoniadas porque não saiu "Artaud" mas no seu consolo eu argumento que a única pessoa que poderia fazer "Artaud" era Artaud, e nem ele se fez, portanto não sofram.

Depois... depois, quem foi mesmo hien? Acho que foi André Garrel e João Lobo, definitivamente a grande revelação da noite. João atuou de uma forma que surpreendeu a todos além dos limites do explicável, no mesmo Marat Sade, inclusive houve o primeiro nu do curso, com João tirando a roupa e entrando na bacia para ficar muito, muito doido. André estava na mesma onda, muito impressionante e saiu ameaçando a todos com uma tesoura para finalmente picotar o cabelo de João, numa paródia de Zé Celso, em "Para por um fim no juízo de Deus".

A penúltima foi DJ Dolores com Geraldo, novamente não foi Artaud, mas foi incrível. Geraldo colocou bosta para cheirar, mas só funcionou para quem estava em linha reta, quem estava nos lados não sentiu o cheiro, tanto melhor ou tanto pior, acho. Dolores se destacou, voz, energia, tudo, muito, muito bom vê-la em cena. Ah, sim, não sei qual foi o texto, depois descubro e corrijo.

Por fim Marquinhos, Noronha e Bianca em outro texto que não lembro. Muito interessante, foi uma cena tapa, Marquinhos, o pai de Bianca e Jailton saia, Noronha estuprava a irmã, o pai chegava, via a filha morta e estuprada e matava o filho. Muito forte, muito rápido. André criticou a dramaturgia.

Deixa eu falar meus pareceres sobre essa história de dramaturgia. Eu entendo perfeitamente que André nos direcione para textos seguros, isso porque somos principiantes e é melhor não arriscarmos em coisas ruins, já que temos interesse e potencial, porém é preciso ver a verdade de cada texto. O ideal é encontrar uma literatura respaldada que nos fale, mas se encontrarmos a verdade em coisas mas simples, também acho que não a devamos ignorar.

No geral, minha visão sobre o trabalho de Artaud foi - Uma liberdade muito maior e menos noiática sobre o ofício de atuar, não tem a ver com menos esforço, e sim com mais liberdade. A grande busca dum processo que vibre seu corpo todo, desde o dedo mindinho até o último fio de cabelo e a grande concessão poetica no palco, necessária a tornar nossa arte mágica.

Morgou

12/05/09 - Não teve aula, a fiandeiros foi apresentar. Evânia daria aula para apresentarmos a quarta etapa do trabalho com diretores. Mas ela não pode por motivos pessoais e morgou.

A dona da história

20/05/09 - Sobe o pano no Teatro Capiba. Evânia estava fazendo mais uma etapa do estudo dos diretores mas eu não atuei nem dirigi, sequer sei que texto foi que elas fizeram, depois corrijo. Eu fui assistir "A dona da história", texto de João Falcão dirido por Thom Galiano com Raphaela de Paula e Cátia Cardoso no elenco.

Eles se chamam 'Trupo Errante' e 'Pé Nu Palco', é o povo de Petrolina. Bem, antes de rasgar a ceda, algumas explicações.

Morei em Petrolina de janeiro de 2004 a julho 2007, dos quatorze aos dezessete, minha formação como homem começou lá, no sertão de pernambuco, terra de uva, de manga, de são francisco, de carranca, do colégio dom bosco, da igreja da matriz, do monumento da besteira, de juazeiro da bahia, da easycomp informática, da orla, da ponte, das ilhas, do samba de velho, dos matingueiros, do river shopping e também do sesc Petrolina, onde o bicho do teatro me mordeu.

Thom Galiano foi meu professor e é um dos encenadores mais inteligentes que já vi. Tudo isso se confirma no espetáculo, que conta a história dessa mulher que fica voltando para seu eu do passado mudar as coisas e melhorar seu presente; ou o seu eu do presente ouvir o seu eu do futuro e mudar as coisas para melhorar. Enfim é uma confusão, sempre é, João Falcão pega o crédito por isso.

Rapha e Cátia são realmente muito parecidas e estão maravilhosas, no debate após o espetáculo, mediado por Leidson Ferraz foi lembrado que na montagem original era usado um aparato enorme e complicado para fazer os efeitos de trangressão cronológica sugeridos pelo texto e aí entra a genialidade de Thom - com duas atrizes, dois pares de all-star, um violão e um degrau ele faz o trabalho de não sei quantos canhões de luz, esteiras, fundos falsos e afins.

Estamos estudando, ainda que por alto, o teatro pobre de Grotowski e não apenas esse, mas os outros trabalhos que conheço de Thom, como "pararupara", "Fatias de um defunto", "eu chovo, tu choves, eles chovem..." já me mostraram como um teatro pobre é imensamente mais rico que qualquer mecanismo que se traz ao palco.

Outra coisa que pensei ao assistir é como precisamos dissociar a conceito de ator de qualidade de atores globais, duas ilustres desconhecidas do interior de pernambuco, por uma hora e meia fizeram a mim e a platéia ir do riso ao choro e de volta ao riso como uma mágica inexplicável. Assim como o espetáculo de Januzelli, "o porco", ou o espetáculo de conclusão de uma turma da federal de brasília "Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo" ambos trazido ano passado pelo palco, mostra que assim como existe um "cinema de arte" existe o "teatro de arte". É um termo feio, sei, mas ilustra bem a questão.

E com isso um puxão de orelha para a produtora de João Falcão, que limitou o número de apresentações por querer produzir o texto com "atrizes globais" ao invés de investir no que está aí, bem feito e pronto para ganhar a visibilidade que merece, que vergonha.

A Nau Naufragada

18/05/09 - Sobe o pano. O espetáculo "Viva a Nau Catarineta" do GRUDAGE, que estava pautado pelo palco giratório para o dia seguinte passaria essa segunda no Sesc de Piedade para fazer uma visita aos alunos da escola Sesc. Claro, ninguém lembrou que é maio, que semana passada choveu quase todo dia, o espetáculo é teatro de rua e o sesc não tem estrutura coberta para teatro de rua.

Enfim choveu. A turma do GRUDAGE ficou lá embaixo tirando um som e nós tivemos que ter aula. A pegadinha é que prof. Neemias preparou a aula imaginando a hora, hora e meia que perderíamos assistindo o espetáculo e convesando sobre ele. Enfim, foi uma aula mais devagar...

Nós fizemos a avaliação do andamento das aulas responde as seguintes perguntas:

1 - Como estou escrevendo minha história no teatro?

2 - Como estou sendo orientado para isso?

Depois trocamos e fomos lendo uns as dos outros em voz alta. Engraçado como cada um se olha. Ouve muita rasgação de ceda para o lado do professor Neemias, que acho meio sem por quê. Neemias é barbado e ele sabe a qualidade do que faz.

Foi engraçado ver como há os humildes, que admitem com a tristeza dos desiludidos que não escreveram história nenhuma, há os que saem contando os títulos, há os metafísicos, que buscam refletir o que realmente ficou das coisas feitas e há os loucos.

Ver isso me deixou profunda uma marca do perfil da nossa turma, que é uma turma jovem, muito crua de teatro ainda, e extremamente ambiciosa, é curioso ver como todos se punem por não estarem em palcos dando o sangue, como há um clima de frustração por estarem juntos tantos atores a procura de um espetáculo (pirandello); pensei agora que esse povo precisa é gozar mesmo.

Nisso lembro uma coisa importante que Neemias vive dizendo - usem esse espaço para experimentar, para aprender praticando coisas ao invés de ficar louco com milhões de coisas.

Inclusive eu, quando começei a reponder as perguntas quis ser o "esperto que sabia o que era história" e ia mostrar minha história pelos registros que tenho dela, as mensalidades do curso, os programas das peças que já atuei, os certificados dos cursos que fiz e com isso tudo só ia mostrar o metido que sou.

Fiz diferente, e aí é a prova da interferencia de titio Neemias, em vez de sair contando documentos olhei com olhar crítico as coisas que já fiz e vi que estive desesperado, querendo fazer, fazer, fazer para acertar.

De repente agora na escola Sesc estou aprendendo a fazer pela necessidade artística, fazer não por fazer, mas fazer porque é necessário. A necessidade é crucial para qualquer ator.

E com isso também estou aprendendo a me livrar das coisas desnecessárias, mas aos poucos, que sou muito egoísta ainda.

Imagens que não explodiram

14/05/09 - Dia de ir ver Imagens não explodidas no Apolo, não pude, sorry.

O sol e a Janela

13/05/09 - Sobe o pano no Barreto Junior. É a peça de nossa queridíssima professora Evânia Copino, "quando o sol vem a janela", da Trupe Cara e Coragem, direto do Cabo de Sto. Agostinho. Direção e dramaturgia de Luiz de Lima Navarro, direção musical de Zé Caetano e Evânia Copino (oh) e Nice Albano no elenco.

O espetáculo é baseado na história da mãe de Luiz, o diretor, que tem a doença de alzheimer. Na dramaturgia as personagens são Guida, interpretada por Evânia, que tem a doença e Amélia, interpretada por Nice Albano, mulher de Guida, que cuida da enferma e busca desenterrar-lha as lembranças em seus últimos momentos.

Não é porque Evânia é minha professora não, é porque eu achei lindo e me comovi com o espetáculo. É curtinho, uns quarenta minutos de extrema delicadeza em que as duas atrizes, falam, entrecortado a lindas canções de todos os tempos e lugares, o imprescindível.

A cena procura retratar as quatro fases da doença, a saber:

1- perda de memória recente, desvio de atenção, apatia.

2- agnosia e apraxia, perda de memória, empobrecimento do vocabulário, dificuldade de expressão, disfunções motoras.

3- Ilusões, incontinência urinária, ataques nervosos, perda da memória a longo prazo e vocabular.

4- Fase terminal. O paciente fica completamente dependente de cuidados, quase inexpressivo e sem memória.

Nessa última fase ocorre um dos momentos mais poéticos do espetáculo - quando Guida, num momento de lucidez, se recorda da companheira pouco antes de morrer.

Destaque importantíssimo para Nice Albano, que canta como um rouxinol e fez por onde na sua primeira experiência como atriz.

Bem, agora que eu já rasguei ceda deixa eu pensar um pouco. Primeiro notei uma diferença entre Nice e Evânia no palco. Nice não atua mal nem soa falsa, mas existe algo de intangível na experiência que é sensível no palco.

Outra coisa é como cantar na personagem, dificuldade levantada por Nice no debate. Quando foi cantar as primeiras musicas realmente retirou toda a postura e partitura vocal de sua personagem para assumir o tom e posturas corretos para se cantar; mas quando foi cantar as canções de vários lugares do mundo, para relembrar Guida das viagens que elas fizeram ela assumiu uma personagem e cantou na personagem.

Sobre isso faço as seguintes considerações - 1 - É mais fácil e mais bonito atuar quando assumimos que estamos atuando, ao invés de esconder. Digo isso porque quando ela sabia que teria que fingir, assumir sotaques, posições e expressões que remetessem a diversos lugares do mundo ela fez com extrema naturalidade e simplicidade.

Isso é uma dívida psicológica que talvez nós, atores, possamos abandonar. Ser outra pessoa no palco nunca será tão bom quanto fingir ser outra pessoa, na prática e fisicamente isso não muda nada, é uma questão da mentalidade com que o ator vai a cena. Ele deve ir leve, sem nenhuma preocupação em enganar as pessoas, muito pelo contrário, o ator deve saber que vai à cena levar a verdade. Isso é muito bonito.

Nisso talvez eu faça uma ressalva ao espetáculo - por vezes eu vi um esforço das atrizes para fazer a cena, principalmente de Evânia. Entendo que faz parte da natureza do papel, difícil pela questão delicada que ele aborda; entretanto o papel pode ser evoluído ao ponto da completa naturalidade até nas partes mais tensas, até mesmo porque a personagem de Guida não faz força para ter ataques, ou esquecer e lembrar, ela já é escrava da própria loucura, portanto quanto mais natural ela soar, principalmente nos momentos de clímax, melhor.

Outro detalhe que me chamou a atenção depois foi a maquiagem de Evânia, com lápis em cima duma base pálida para marcar o rosto de velhice, é a segunda vez que vejo esse recurso, imagino que não seja nenhuma novidade, mas gosto da plástica dele.

Pronto, já pensei o que precisava. Para fechar registro que chorei, foi muito lindo, saí do teatro com aquela sensação engraçada no peito.

Woyzec

11/05/09 - Sobe o pano. Principalmente para os românticos. Mas antes de chegarmos neles falamos de muitas coisas, entre as quais:

- Fecha dos teatros no período Isabelino. Não sei se ocorreu em outros lugares, mas tenho certeza que ocorreu na Inglaterra, de 1642 a 1660, pelos puritanos, na guerra que instaurou o poder do parlamento maior que o do Rei, na época Henrique VIII, o mais safado dos reis, ou pelo menos um dos mais explícitos na sua safadeza; quase dois séculos antes da revolução Francesa, vai entender a história. Já que o rei pagava o teatro, fecharam o teatro até o rei não pagar mais nada sem aprovação do parlamento.

- O projeto "a escola vai ao teatro" o nome parecido, que acontece às quartas, no Barreto Júnior, para os alunos dos colégios do Pina. É uma tendencia ser preconceituoso com o cidadão do Pina, alguns dos jargões pouco polidos usados para descrevê-los são mundiça, ralé, almas sebosas e por aí vai. Infelizmente quando eles chegam no teatro, nove em dez provam a raíz do preconceito - são barulhentos e pouco polidos - Foi levantada uma questão importante: além de peças, era preciso usar desse espaço no teatro para discutir e comparar a atitude dos alunos com a atitude desejada do público com a importância de se assistir à produção de arte e cultura e tudo mais. Nada disso é discutido e os alunos do Pina continuam levando a má fama.

Depois, com a ajuda do professor Almir, cujo sobrenome desconheço por hora e que nos fez companhia na aula ficamos sabendo o impressionante conhecimento teledramaturgico dos professores. Um barato ver como Neemias concegue explicar pontualmente a história do teatro mundial em comparação com a teledramaturdia brasileira. Brincadeirinha.

Por exemplo, usando como referência novelas, vimos claramente algumas das principais características do romantismo e do realismo, através da construção das novelas em voga nos dias de hoje. O romantismo na construção das personagens e o realismo na estética da montagem.

Tiago levantou as relações entre o melodrama e o melodrama circense, eis o que diz a wikipedia, fonte de pesquisa mais rápida que disponho:

"Circo O melodrama apresentado no circo brasileiro é uma forma constante de manifestação teatral circense que pode ocorrer entre as atrações do circo. De certa forma segue algo do estilo do melodrama teatral do final do século XIX, desenhado em ações, com conflitos polarizados, através de uma dramaturgia simples, baseada em conflitos familiares, atuado de uma forma grandiosa ou exagerada, tendo em vista os padrões de interpretação atuais que sublinham o natural."

Depois fomos ler Woyzec. Tenho uma dúvida que não manifestei em sala de aula: Neemias disse que o texto romântico dialoga com o divino. O que em Woyzec dialoga com o divino? Ele também disse que Woyzec já mostra uma transição, então me pergunto se o autor não teria abandonado esse aspecto nessa transição?

E ainda acho que essa linguagem fragmentada lembra o surrealismo, até mesmo Artaud.

Tivemos uma gaiola das loucas mais que especial com Thaty e Bianca dançando Mamonas e fechando.

Neemias teve a bondade de reservar o final de sua aula para falarmos de Artaud, que vinha rasgando as cabeças de todos nós com questionamentos do tipo "Como faço esse troço?". Para meu grupo, Thaisa e Felipe, nos lembrou da perspectiva do sonho, da exposição ridícula do ser e da visceralidade.

O dia que não fui

07/05/09 - Sobe o pano. Mas eu faltei, então lanço o desafio, quem se dispuder a escrever escreva.

Com shakespeare.

06/05/09 - Sobe o pano. Mas dessa vez de verdade, no teatro Barreto Júnior, onde a turma foi convidada a assistir o espetáculo 100 shakespeare, do grupo Pia Fraus, meus conterrâneos de São Paulo.

Uma coisa me chama muito a atenção no teatro paulista - excelência técnica e falta de identidade. O que é falta de identidade? É resultado de um ecletismo excessivo. Paulistas fazem de tudo, o que eu me pergunto é: porque eles não fazem as raízes deles? E em São Paulo descobrir sua raíz é literalmente, caçar um agulha num palheiro. Não ouço regionalismo paulista. Pela contrário, um grupo competentíssimo de São Paulo - como são todos os que vêm para cá - usou Gilberto Freire, assombrações do Recife Velho. Quero dizer, onde está o regionalismo deles? Não é uma crítica de forma alguma, até porque a qualidade deles não me deixa criticá-los, mas um indagamento que acho pertinente. A cena Recifense, por outro lado, tem muitas pessoas fazendo, e bebendo em raízes e sendo "popular" ou "armorial" ou "pintoso" mesmo mas toda essa riqueza se torna estéril na mão de artistas sem qualidade técnica. Ver os grupos paulistas me leva a essas reflexões.

Bem, 100 shakespeare se vale, na verdade, de apenas 43 bonecos e diversas formas de manipulação, são tantos bonecos que não é necessário cenário, basta deixá-los ali que o palco se preenche de vida. Ingrid levantou que a expressão dos bonecos é sombria, quase grotesca, conferindo à encenação com eles uma espécie de surrealismo. Enquanto assistia não pensei nada disso. Pensando agora creio que se eles fossem mais bem feitos seriam menos humanos.

Os atores, no debate depois do espetáculo - gostaria de saber o nome do mediador, uma figura engraçadíssima - os atores usaram muito o termo 'imagético' para descrever o espetáculo, não creio que a palavra exista, mas gostei muito do neologismo, achei-o bastante 'imagético'. As cenas representadas vieram de nove peças do dramaturgo inglês e para 'sonho de uma noite de verão' os atores escolheram uma cena ambígua, diga-se de passagem, com cavalos e pênis enormes que deveria aparecer na luz negra, para não ficarmos prestando atenção demais nos seus pênis, mas a luz negra falhou e ficamos lá prestando atenção nos pênis e refletindo a profundidade humana de um pênis de cavalo.

Minha principal crítica desse espetáculo, assim como todos os espetáculos de "linguagem" é que são muito bonitinhos mas não dizem muita coisa. Eu, como público, tenho ânsia de algo humano na representação, na absurda e estúpida necessidade de comunicação do ator, que é uma das grandes garras, que é uma força inexplicável que nos põe em contato com nós mesmos. Esse mais íntimo, mais profundo do teatro não havia nessa representação; era bom de se ver, era bem feito, mas nesse aspecto, estéril. Enfim gostei.

Bichos de Sete Cabeças

05/05/09 - Sobe o pano. Começa a aula com a última apresentação de Vila e Thaísa, em um bonde chamado desejo. Vila prometeu que jogaria as bijouterias de Blanche em cima de André Filho. Não foi o que ele fez, mas melhorou muito, agora Vila estava mal, quase tão mal quanto Marlon Brando, quase tão mal que ele era gostoso, dominador. Thaísa manteve a qualidade do trabalho sem grandes mudanças. Vila quase gritou, isso me deixou incomodado um pouco, queria que ele tivesse gritado, pelo menos uma vez.

Depois a cena final de Beto e Guil. André atentou para a importância dos trabalhos no momento de silêncio, onde Beto deveria entrar, olhar, pensar, e não atirar o texto logo de cara. Desafios, são tudo desafios. Ingrid trouxe cores novas para a personagem e isso nos surpreendeu a todos, a fazendo mais ironica, mais ácida e mais falsa, entretanto a achei monocromática desta forma. Uma personagem deve ser uma mistura de cores, um processo monocromático deve ser muito bem pensado e calculado e creio que não caberia no que ela e Beto se propuseram a apresentar.

Depois fomos conversar de Artaud e Grotowski, os bichos de sete cabeças. Eu falei uma porrada colocando todos os grilos do momento para fora. Foi bom para externar. Depois André respondeu a minhas perguntas com perguntas, típico dele.

Então fizemos dois exercícios de "vislumbre", como ele chamou. No primeiro de olhinhos bem fechados, à la Kubric, nós andamos e tateamos a vontade, tateamos peitos, bumbuns, pe... quer dizer, rostos, peles, cabelos, enfim; a fim de explorar nosso sentimentos perdidos... E num segundo momento gritamos a vontade o que vinha na cabeça, num processo Artaudiano, mas só para desopilar mesmo. Veremos no que isso vai dar daqui a duas semanas, já que semana que vem a Fiadeiros viaja para apresentar o 'Outra vez...' em algum lugar aí, boa apresentação para eles.

Ausêncisa I

04/05/09 - sobe o pano. Tentamos ler o avarento até o fim, mas o avarento era avarento mesmo e não deixou. Isso sem mencionar a cena de sete personagens que teríamos que ler com apenas um texto.

Depois fomos ler o experimento de McBeth, a peça amaldiçoada. A quem interessar possa, o texto já provocou o incêndio de um teatro e a morte de produtores e elenco, tudo explicado no artigo da wikipedia sobre o mesmo.

Para isso, tive que buscar Thaty lá embaixo. Lá embaixo Guil estava lendo Grotowski porque chegou atrasada e não queria atrapalhar a aula, fiquei conversando com ela, depois com Ju e perdemos a aula.

Bem, vou me retificar aqui e depois em sala com todas as letras: O que eu fiz não foi correto, foi egoísta e vaidoso. Fiquei sabendo depois que isso contrariou muito o professor e senti remorso, não era intenção contrariar ninguém, eu só comeceu a conversar e fui indo. Aos que tentaram me defender, obrigado. Mas não acho que seja necessário mentir nessas horas, Neemias merece mais que isso, admitamos que ele está sofrendo para nos dar algum senso de estudo de dedicação, coisa que precisamos.

Infelizmente não posso falar mais, não assisiti, se alguém se prontificar a concluir esse diário com os fatos e discussões importantes em aula, eu agradeço.

A serviço do que não existe

30/4/9 - Sobe o pano. Bem maior foi a quinta-feira. Chegamos mais cedo todos para ensaios do texto "Véu e Grinalda" de Miguel falabella adaptado por Evânia Copino para nossa realidade Jaboatonense. Novamente fiquei no vácuo da produção dos outros grupos ensaiando. Então vamos para os resultados.

Os primeiros a se apresentar foram Marquinhos, Bianca e Garrel dirigidos por Evilásio nos papéis de Bebel, Bárbara e Judith, respectivamente. Destaque para a roupa de Marquinhos, curtíssima e a voz da Garrel, cuspidíssima.

A segunda cena foi feita por Camilla, Thaty e Thaysa dirigidas por Beto Brandão nos mesmos papéis respectivos. Destaque para Thaty, na minha opinião, a melhor cena dela no curso; também para Camilla, alesadíssima e Thaysa muito chata.

A terceira fomos Paula, Dolores, e Eu diridos por Mauro Monezi. Destaque para Paula, também alesadíssima.

A quarta cena foi de Guil, Ju e Noronha dirigidos por Geraldo. Destaque para muitas coisas: a caracterização das personagens, tanto nos adereços, quanto no figurino e maquiagem. Destaque destacado para Guil, que em matéria de Alesadisse aguda venceu todas as antecedentes e o balanço sensual de Noronha na pele de D. Judith.

Depois das apresentações prof. Evânia bateu um papo com os diretores e algumas dos pontos importantes da conversa foram:

- A necessidade do diretor preocupar-se com os aspectos técnicos da montagem, como figurino, maquiagem, cenário, marcas. É comum o diretor inexperiente preocupar-se apenas com a marca e desligar-se dos outras aspectos importantes da produção da cena.

- Os diversos tipos de humor. Não é uma questão de certos e errados, mas é possível conseguir amor acreditando numa história ridícula ou expondo o ator ao ridículo. Não acredito que o ator seja um pedestal que não deva ser ridicularizado. Mas acho que esse ridículo não deva ser depreciativo nem de graça. Assim como não concordo com atores que não se enfeiam ou ridicularizam por suas personagens, também não concordo em atores que por não conseguir humor de outra forma, precisam se humilhar de graça e sem necessidade. Coisas para se pensar.

- E junto do tópico anterior veio a questão da exibição x caracterização do ator. Yoshi Oida escreveu um livro chamado "O Ator invisível", onde ele defende que o ator deve ser invisível, ninguém deve vê-lo em cena, apenas a personagem. E eu acredito que parte da mágica que fazemos está nesse conceito. A relevância disso já é outra história, mas como poderemos dar relevância ao que fazemos se não fazemos com poder, com mágica para funcionar? Enfim, Evânia pôs em pauta que nós atores temos atrativos muito chamativos que precisamos aprender a esconder: Os Cabelos da maioria das meninas, que pouco ou nada muda, os óculos de Ingrid, e coisas mais arraigadas, como certos cacuetes físicos ou partituras vocais que são marcas registradas de certos atores.

Um conceito interessante foi o tirado da experiência com Beto, que chegou com o texto já todo marcado e fervilhando de idéias, desse processo vi a possibilidade de um diretor "paleta" do ator, uma pessoa que possa, pela experiência, trazer cores ou formas que inspirem o trabalho dos que estão no palco. Eu me oponho à isso, prefiro ver o diretor como um instigador, uma pessoa que provoca muito mais que uma que oferece. Mas a qualidade do resultado da cena de Beto foi muito boa e acho que há verdade em ambos os caminhos.

- Os fissurados. No caso eu (metido) e Paula (insegura). Tivemos um grande momento terapia, onde verdades foram ditas, e cada dia me impressiono mais com o poder dos verdadeiros mestres e verdadeiros atores de dizer a verdade. Acho lindo e acho gradioso não só a verdade dita, mas a maneira como um bom ator e um bom mestre sabe dizer a verdade. Acho os professores do curso um espetáculo à parte. Então, Evânia me chamou a mim e a Paula de fissurados, e aceitamos numa boa porque não é mentira. Quanto à Dolores, a inquiriu uma verdade que já estava na boca de todos "Não serão nem os professores que passarão a te cobrar, o professor olha o resultado, será a turma, pois com o tempo, a turma irá cada vez mais procurar as pessoas com tempo e qualidade para trabalhar em grupo. Você pode dar o seu tempo e sua qualidade ao grupo?" Dolores não entendeu, viu como um últimato e já ia pulando do barco quando Geraldo, outra grande personalidade disse algo que também estava na garganta de todos e me fez admirá-lo muito "Pare de se desculpar minha filha. Você está fazendo um monstro da escola SESC, que não é um monstro. Não sofra. Faça o que você pode, se der o máximo de si, será bom. Você não precisa pedir desculpas". E é verdade. Que o tempo dela é curto, lá isso é, mas não é só o dela, muitos no curso também tem tempo curto, é a vida, nunca ninguém tem tempo suficiente, e quem tem é um chato. Enfim, lavamos a alma como num verdadeiro drama.

- Trabalho de limpeza. Geraldo mostrou através de sua experiência como usar artíficos simples para limpar as pessoas e dar mais espaço para as personagens. Vozes, roupas, corpos, tudo a serviço do que não existe. Que lindo.

Simples e só

29/4/9 - Sobe o pano. Dia de ensaio da segunda rodada de diretores. Primeiro muitas apresentações de dança pelo evento em comemoração do dia mundial da dança organizados pelo professor Paulo Henrique; que comentarei assim que conseguir com ele a lista com os nomes de todos que se apresentaram e o nome dos respectivos espetáculos. Quanto ao ensaio, foi muito tranquilo e não posso falar de todos porque não vi. Mas Mauro, nosso ilustre diretor nos fez ler o texto, marcou algumas falas, sublinhou outras, disse onde ficavam as músicas e nos deu boa noite. Novamente só. Simples essa né?

Humano demais

28/4/9 - Sobe o pano. Último dia das apresentações de Stanislavski na disciplina de interpretação. Teoricamente. Cheguei atrasado e perdi a primeira apresentação de Mauro e Camilla. Azar, vi a segunda.

Para mim a noite começou com a apresentação de João e Bianca, fazendo ninguém mais, ninguém menos e Romeu e Julieta, do filme novo, diga-se de passagem. Eu gostei muito da interpretação dos dois, mas concordo com André que foi "interiorizado demais", até para Stanislavski. Era preciso expressar o sentimento que eu acreditei que havia nos dois. Como de costume mestre Tortsóv pediu mais momentos de tensão no drama e eles foram trabalhar, parabéns para os dois.

Thaysa e Evilásio pegaram o segundo bonde chamado desejo. Thaysa evoluiu da primeira cena para a segunda e houve um momento lindo onde Evilásio a fuzilou com os olhos. Muito bacana. André pediu que Evilásio trabalhasse com mais afinco outras intenções da personagem, como seu aspecto dominador, sua força, sua exaltação em alguns momentos da cena e Thaysa mergulhasse mais fundo nos sentimentos da personagem. Com certeza eles fecharão na útlima apresentação.

Depois Ingrid e Beto. Ingrid também evoluiu muito em cena e Roberto, como todo bom ator, resolveu problemas antigos para encontrar novos. Eles passaram por um momento 'transformação' muito bacana em que André nos lembrou a todos que a personagem, assim como nós, humanos, tem infinitas cores e é preciso para o ator pintar e rechear a sua personagem como máximo possível. Quando digo máximo não falo de excesso, falo de riqueza, de diversidade.

A ordem em escapa, confesso, mas acredito que depois de Beto e Guil, fomos nós, eu, Ju e Biaggio para nossa última performance em Álbum de Família, que num balanço geral realmente foi pior que a segunda. Mas como disse a respeito de Roberto "erramos novos erros". Nosso principal mal foi a falta de ensaio, que nos desarmonizou, como André colocou bem; quanto a mim, meu principal erra foi a falta de generosidade. Sou um metido mesmo, preciso aprender a ser menos egoísta e mais generoso. E irei, estou trabalhando duro para isso, é que quando não me policio caio em vícios antigos que desejo como todas as forças deixar para trás.

André e Noronha chegaram para apresentar com Thaty e aconteceu uma coisa muito bonita e muito chata - Eles apresentaram de novo e pouco se pôde ver empenho deles em melhorar a qualidade da cena, essa foi a parte chata. A parte muito bonita foi eles terem sido completamente sinceros e nus, como um ator deve ser, de expor a verdade, não muito agrável para a turma e discutirem o que funcionou e não funcionou numa boa. Levantamos um ponto muito importante vou citar nosso professor aqui "Não sofram, se quiserem sofrer, tenham um emprego normal. Façam teatro para ter prazer, façam com tesão".

Biaggio conversando baixinho comigo levantou algo interessante: Se você trabalha num escritório e você não gosta da pessoa do seu lado, você pode simplesmente ignorá-la. Isso parece fácil mas não é, o ser humano, como qualquer coisa viva é atraente e essa indiferença vai te corroer até a cerne de sua alma. Já no teatro não, se você não conseguir se harmonizar com as pessoas com quem trabalha, jamais chegará ao resultado - um espetáculo. Poderá chegar a imitações feias e grotescas, mas jamais ao resultado. Teatro é muito humanos, até me assusta.

Depois, e era a cena que eu mais esperava na noite - a terceira performance de Paulinha e Tiago, dois atores incríveis. Paulinha cresceu bastante em cena e me levou à beira das lágrimas, coisa que nunca faço. É tão triste a história da personagem deles, e escrita com tanta poesia, fico comovido. Essa história de climax parece ter deixado Tiago um pouco nervoso e ele saiu distribuindo gritos 3x4, coisa que também fizemos na nossa cena, por tocar no assunto. Eles passaram por um momento transformação com prof. Tortsóv, e fico feliz por eles, pois ambos queriam muito e Thiago deu uma reviravolta imensa na sua performance, com um final lindo.

Felipe e Marquinhos perdi porque fui no banheiro e quando voltei já haviam começado, fiquei do lado de fora da sala ouvindo eles pela fresta.

Assisti então Mauro e Camilla, já melhorados e na última apresentação deles. Melhoraram muito, mas Mauro, tu fala muito rápido meu filho, calma, pelamor de Deus. O último pedaço de texto, do café, é muito bom, gosto demais dele.

E a aula foi isso, os outros ficaram para próxima terça.

Tradução no dicionário

27/4/9 - Sobe o pano. Estou feliz de escrever esse relatório porque ele provavelmente será o menor que já fiz de história do Teatro e o primeiro que consiguerei colocar (quase) todas as pérolas extraídas da aula.

Fomos ler "O Avarento" de Molière. O texto era enorme e só Jailton pôde imprimir (usando a impressora da firma, suponho, quando trabalhava fazia isso direto para o inferno de meu patrão, não é à toa que fui demitido lindo e loura da empresa de engenharia onde nunca mais vou trabalhar... Nossa, que nostalgia); além de Jailton, Neemias também tinha uma cópia.

O plano era lermos os cinco atos do avarento traduzido por um português que havia olhado o dicionário no dia em que traduziu, lermos mais seis páginas de um experimento sobre Mcbeth e ainda vermos trechinhos de "Shakespeare apaixonado" para olharmos os teatros da época. Empacámos no primeiro. O tradutor, que depois Neemias terá a bondade de informar quem foi que eu esqueci, estava realmente inspirado.

A história em si é típica de Molière: Um casal de namorados, ele servo humildo do pai da moça, o velhaco mais sovina que já vi. O tal do velhaco tem um filho que ama a mesma moça que ele, ainda que por razões adversas e para a moça o pai tem um pretendente rico e prestes a morrer, na sua opinião, o marido perfeito. Destaque para Felipe fazendo o Avarento e Thiago um serviçal, renderam risadas na aula.

Estava pensando cá com meus cachecóis e o que o professor está fazendo, nos dando esses textos de época para ler não é só importante do ponto de vista didático, mas muito útil para nós como atores. Fiquei pensando o seguinte: "Que ator é esse que saí de um curso de teatro de dois anos, de carga horária violenta e não sabe ler um texto de época com clareza e um mínimo de intenção na fala?" Seria nos deixar sermos rídiculos de nós mesmos.

A aula acabou com a Gaiola minha e de Dolores, que Ju filmou e depois postarei no Blog, junto com os vídeos de André filho e outras coisas; falando "algumas verdades, parte2".

Abraço.

Circo

23/4/9 - Sobe o pano. A aula começou com um aquescimento punk que já nem lembro qual foi, lembro que foi punk, no estilo de "mecham ossos imaginários e existentes até que eles parem de funcionar".

Depois fomos para os tatames. Disputamos uma corrida frenética eu, Mauro, Roberto, Vila e Marquinhos para trazer oito tatames para a sala, separá-los em duas fileiras, três azuis e um vermelho em cada e brincarmos de circo.

Superdivertido, demos cambalhotas para trás, para frente, de dupla, estrelilnhas e rimos muito, muito mesmo.

Destaque para Garrel, Dolores e todos os corajosos para se arriscar, muito mais importante que fazer certo ou errado é a coragem de correr o risco.

Depois de todo esse trabalho começaram as apresentações. Primeiro Paulinha e Thaísa falando da plasticidade de movimento proposta por tio Stan. Primeiro elas citaram os tópicos da continuidade e suavidade do movimento. Não significa que um ator não deva fazer movimentos interrompidos ou grotescos/violentos. Muito mais quer dizer que ao representar a interrupção, o grotesco e a violência o ator deve sim fazê-los com continuidade e suavidade, uma coisa é representar um ideal físico, outra coisa e inibir sua capacidade criadora com ele. Fizemos o exercício de andar e nesse exercício buscamos perceber a ligação entre todas as partes de nosso corpo, com a consciência de que nosso corpo é interligado e um movimento puxa o outro. Também fizemos o exercício do mercúrio, que não fiz muito bem porque sou metido e pus os carros na frente dos bois.

O exercício do mercúrio tem por objetivo perceber a energia que corre e torneia o corpo em compasso com o movimento. Essa mesma energia era aproveitada de outra forma no exercício que eu, Camilla e Ju propusemos para a turma - o gesto psicológico de Chekhov. O gesto, como já foi dito, é uma forma de carregar energeticamente o corpo antes da cena, despertando sentimentos, força de vontade e dando presença para o mesmo.

E exercício era uma experimentação em busca do gesto e dele tirei algumas conclusões: 1- é preciso ser mais simples no gesto, o gesto busca o que há de mais intimo, a essência, a força de vontade, o sentimento. Os gestos desenvolvidos pela turma não são falhos, entretanto se classificam, em sua maioria, nos gestos que servem o propósito de uma cena ou de uma fala. São gestos psicológicos específicos. Durante o exercício poucos conseguiram um GP (gesto psicológico) global, que abrange a essência da personagem do início ao fim da peça. Claro que essa essência mudo no decorrer da ação, mas o GP é sempre um ponto de partida, nunca um de chagada. Salvo isso eu gostei muito do desempenho da turma e me senti honrado de aplicar o exercício.

Abraço.

Do jeitinho que eu queria

22/04/09 - Sobe o pano. Dia dos diretores mostrarem seu trabalho na aula de introdução ao teatro.

Primeiro tivemos meia hora extra para afinar os atores. Não o fiz, jurei que eles estavam afinados e mandei eles se concentrarem apenas. Errei feio.

Bem, vamos às apresentações. Primeira cena Geraldo e Evilásio dirigidos por ninguém mais, ninguém menos que André Garrel. A cena foi improvisada e foi boa, destaque para a presença de palco de Geraldo, forte. Evilásio estava fraco, senti falta da presença dele em cena, estava muito apagado. E tu falou muito baixo, da próxima gostaria de ouvir com clareza. Houve um problema de ritmo, mas isso é porque foi improvisação, imagino.

A segunda cena era para ter sido Guil e Brandão dirigidos por Dolores, mas problemas técnicos os impediram, azar.

Depois Ju e Mauro, dirigidos por João, que impressionou a todos com suas habilidades de diretor. Como disse a professora "João é o chato que todo mundo gosta" e é verdade. O curso perderia muito sem ele por perto. Da cena tirei um conselho que gostaria de dar para Mauro "Diga cada palavra do seu texto como se desse um beijo na mulher amada". Faltou carinho com o texto, o resto - corpo, voz, presença de cena, estavam bons. O mesmo para Ju, só que ao contrário, precisa criar corpos e vozes para as personagens. Destaque para a comunhão deles, trocas de olhares poderosas em cena. E Mauro, agarre Ju com força, meu filho, pode pegar que eu não mordo.

A terceira cena apresentada foi estreada por Paulinha e Marquinhos e dirida por Bianca, a revelação de nosso curso. Na minha opinião, a cena mais forte e melhor representada, grande destaque para Paulinha, que me emocionou muito no papel de Joana, com voz, com corpo, com olhar, e Marquinhos não ficou atrás, mantendo uma atmosfera cortante e atraente toda a cena. Parabéns para a diretora. Agora Paulinha, balançou em cena um pouquinho, finque esses pés no chão.

A quarta foi Camilla Noronha, que não balançaram, Camilla estava ótima, usando do gesto psicológico para dar força à Joana e Noronha estava ótimo de Creonte, forte, a mão dele ao mandar e voltar os seguranças chamou muito minha atenção. Destaque para a concentração de Camilla.

Eu, por fim, dirigi Tiago e Thaty, consegui algumas coisas e não consegui outras. Não caracterizei minhas personagens, Tiago era Tiago e Thaty foi Thaty, mas estavam afinados um com o outro, não rolou muita comunhão e a vida física ficou fraca. Consegui embasar o texto e encontrar motivações vivas para meus atores, mas só foi até aí, da próxima trabalharei melhor por meus atores, que diga-se de passagens, são ótimos e foram muito generosos comigo.

Abraço

O preço de uma árvore

21/04/09 - sobe o pano na véspera do feriado. Professor Neemias adiou o avarento para a semana que vem justamente para nos mostrar quão avarento é o avarento e nós vimos e ouvimos falar do Renascimento na espanha. Mas antes André Garrel nos presenteou com um relatório mordaz da aula anterior.

Falando em coisas mordazes, Neemias previu que nós estávamos já a tempo demais na fase das "pernas abertas" como ele chamou, talvez esteja certo, talvez estejámos próximos de fechar nossas pernas, quem sabe?

Enfim, a aula começou no siglo de oro espanhol, mas antes dele Neemias nos lembrou que Racine, dramaturgo francês do Renascimento, é como a F. de Pernambuco, dada sua temática "Todos sabem que tem, mas ninguém gosta muito"

Sim, no século de ouro, primeiro vemos Fernando de Rojas, autor de comédias de costumes que já apresentava traços do realismo, segundo o professor precursor do realismo em algumas características.

Também foi abordado a complicada relação entre o humano e o divino entre os dramaturgos do renascimento. Apesar que quando penso nisso só me lembro de Dante e da granda viagem da Divina comédia, onde o homem conhece o divino, o profano e os compreende dentro de sua consciência; um pouco ousado da parte de Dante presumir que fosse possível exprimir por palavras da consciência humana essa relação, mesmo nas palavras completamente viajadas dele. Mas enfim, o fato é que os mesmos dramaturgos que escreviam falando do homem escreviam falando de Deus e as principais formas de teatro religioso do ciclo espanhol é o auto sacramental e a Égloga Pastoral, que Neemias acha um nome muito bonito, pesquisei o nome no meu aurélio e saiu assim: Égloga = Écloga - Substantivo feminino. Do grego - eklogé, pelo latim - écloga - Poesia pastoril, em geral dialogada; bucólica, pastoral.

No meio dessa explicação, o professor comentou como na época os artistas eram mais ecléticos, tipo Da Vinci mesmo, que era pintor, cientista, patati, patata; contrapondo que hoje o conhecimento é mais segmentado e partimental. Fiquei pensando nisso e faço um contraponto, só porque gosto de ser do contra mesmo.

Essa divisão do conhecimento, assim como a divisão do trabalho, é idéia do clássica do capitalismo, mas hoje ela vem perdendo força com o liberalismo. Quando começaram a se espalhar as idéias de capitalismo, o homem não era mais que uma chave de fenda, uma ferramenta. Hoje os colégios já trabalham muito com o conceito de interdiciplinaridade, as empresas de ponta, principalmente as que lidam em demasia com o público ou tecnológia tem mais que consolidado o conceito de "Funcionário multifuncional" que tem discernimento de todas as funções pertinentes à dele e é capaz de executá-las com certa presteza, se necessário.

As disciplinas de faculdade estão cada vez mais confusas e misturadas, coisas como "Engenharia da produção, ou do som, ou dos alimentos"; "Gestão da informação", "Biomedicina". São conhecimentos híbridos.

O próprio ator, ganha muito, mas muito em qualidade se souber, cantar, dançar, tocar, desenhar, enfim, se for assaz questionador para conhecer outras artes. E isso, para os artistas principalmente, não é um conceito novo. Assim vejo que hoje há sim uma tendência para o diálogo entre todos esses conhecimentos específicos que produzimos no século passado.

O professor ainda comentou que mesmo no teatro profano, havia a preocupação com a moral, com a punição dos que agiam errado, e isso perdura até hoje. Fiquei pensando que teatro é uma coisa antiga mesmo, sempre o comportamento humano antigo, épocas anterior ao dos espectadores, e ele aparece quase sempre permeado por esse senso de certo e errado. Talvez as grandes obras de nossa dramaturgia, as verossímeis, os gênios, sejam aqueles capazes de abandonar a moral e entregar às personagens à uma vida real e caótica como é deveras a nossa, ou mais ousado ainda, atacar a platéia destruindo os heróis, como fez Nelson Rodrigues no Brasil, idéias minhas, apenas.

Neemias destacou Lope de Vega, como nome de destaque do ciclo de ouro espanhol. Como homem humilde, bebeu da comédia del'arte italiana e dos costumes dos menos abastados para caracterizar suas peças.

Ao explicar que Lope escrevia Entremezes - esquetes que eram apresentadas aos nobres entre uma refeição e outra - ele lembrou-se da árvore de Júlia, e agora quem vai falar da árvore sou eu - Uma peça de qualidade questionável, com uma atriz fraca e inesperiente em palco no papel principal, não pagou nenhuma pauta pelo tempo que esteve em cartaz, custou 106mil reais ao contribuinte, mesmo que a produção não tenha gasto mais que 10, se chegou a 10, tudo pelo nome de Lívia Falcão e os carinhos da prefeitura.

Aqui meu apelo, pel'amor de Deus, todos queremos fazer teatro de qualidade, e os maiores problemas são sempre dinheiro e qualidade de elenco, então por favor, não joguem o dinheiro do contribuinte fora em joguinhos politicos e produções toscas. Sim?

Cervantes disse que os atores não eram muito vista na terra de nossos colonos, por isso suas trupes eram diminutas e se chamavam farândolas ou migingangas, nomes também engraçados que não vou persquisar no meu Aurélio.

Daí fomos para largas esplanações dos palcos Renascentistas na espanha. Um dia prometo que vou mostrar os diversos tipos de palco e a época e lugar onde eles foram usados. Hoje estou com preguiça.

O problema de fazer relatória das aulas de história do teatro é que nunca escrevo tudo que quero, porque Neemias fala muita coisa, como por exemplo toda a história sobre João Denys, professor de luz no curso de Cênicas na federal. Tudo bem, está tudo anotado no meu caderno, um dia transcrevo.

E.T dos Ovos de Ouro

16/04/09 - Sobe o pano. Professor Paulo nos enche de jornal e nos pede para forrar a sala. "Ok, mas para quê"; E como se fosse a coisa mais natural do mundo "Faremos máscaras hoje".

Rebobina a fita "Como é Bial? Estou na disciplina certa?" Estávamos todos. Com cartazes sobresalentes do 'Vale dançar', tesoura, grampeador, tinta guache e fé em Deus fizemos cada um sua máscara. Me considero um total sem talento nesse quesito, mas vá lá, eu fiz meu sorriso.

Tivemos toda sorte de máscaras e algumas realmente se destacaram - o rei Persa de André ou o cacique doidão de Geraldo, por exemplo. Houveram também os Power Rangers Mauro, Roberto e Thaisa, que usaram e abusaram do azul e vermelho nas máscaras. A galinha da Ingrid e o E.T de Evilásio também estavam impagáveis - Se esqueci alguma máscara e quiserem me lembrar depois fico grato.

Prontas as máscaras, estava doido para ver a bagaceira que sairia dali quando o Professor disse "Depois, agora vamos bater papo". E fomos. A ementa chegou à nossas mãos, assim como o trabalho que apresentaremos dia 23 e 30/04 sobre certas ferramentas para a criação e partitura corporal da personagem. Eu, no caso, apresento dia 23 o trabalho sobre o gesto psicológico de Michael Chekhov com Julyana Carla e Camilla Rios. Muito boa a viagem do rapaz.

Pingos nos 'i's, fomos separados em três grupos para contar uma história sem rosto e sem voz. Teríamos nossas máscaras e nossos corpos, e tava bom demais.

Fomos eu, que estava de smiley e virei emoticon, Camilla, que fez um gato doente, Biaggio, o Pierrot cibernético dono do gato, Dolores, o cacique superpoderoso, e Vila, o ET de vargínia. O gato ficava doente, o Pierrot mandava um pedido de ajuda (eu) via internet para o cacique, que fazia a dança da chuva e convocava o ET de Vargínia para transportá-lo até o gato, onde ele pode fazer outra dança ritualística e salvá-lo da doença cruel.

Geraldo pegou Maria Joana, sentou num canto e viajou que Thaísa era um robô que precisava de corda, e já que João era muito preguiçoso para dar corda nela, pediu ajuda para Mauro, o gostosão que mandou Paula, a babona; mas ela era muito fraca e não consiguiu, Ju coitada, jurava que conseguiria mas ninguém prestou atenção nela.

André era um rei, Beto seu súdito que trouxe maravilhosas atrações para entretê-lo - Ingrid, a galinha dos ovos de ouro, Bianca fazendo Dalila (A própria - "Vai buscar Dalila, vai buscar Dalila meu bem...") e Marquinhos, o M.J. A galinha botou o ovo de ouro e deixou a concorrência para trás, o rei Andre roubou ela para si e deixou as outras atrações chupando o dedo. Beto agradeceu no final.

Depois dessa viagem toda sentamos para conversar. Ingrid disse coisas muito interessantes sobre a diferença entre máscaras neutras e expressivas. Disse que as primeiras são mais difíceis pois é preciso comunicar-se com elas e ver o que 'elas querem de você ou vice versa'. Nos recomendou a não tocar nas máscaras para não desfazer a mágica, a mantêla sempre com texturas, com sabores escondidos na fantasia. O que ficou por certo ou quase foi sua capacidade de intuitivamente nos focar no trabalho corporal, por paralizar nossas expressões somadas à nossa voz. Assim vi na máscara uma ferramente interessante de 'soltar a franga', por assim dizer.