Humano demais

28/4/9 - Sobe o pano. Último dia das apresentações de Stanislavski na disciplina de interpretação. Teoricamente. Cheguei atrasado e perdi a primeira apresentação de Mauro e Camilla. Azar, vi a segunda.

Para mim a noite começou com a apresentação de João e Bianca, fazendo ninguém mais, ninguém menos e Romeu e Julieta, do filme novo, diga-se de passagem. Eu gostei muito da interpretação dos dois, mas concordo com André que foi "interiorizado demais", até para Stanislavski. Era preciso expressar o sentimento que eu acreditei que havia nos dois. Como de costume mestre Tortsóv pediu mais momentos de tensão no drama e eles foram trabalhar, parabéns para os dois.

Thaysa e Evilásio pegaram o segundo bonde chamado desejo. Thaysa evoluiu da primeira cena para a segunda e houve um momento lindo onde Evilásio a fuzilou com os olhos. Muito bacana. André pediu que Evilásio trabalhasse com mais afinco outras intenções da personagem, como seu aspecto dominador, sua força, sua exaltação em alguns momentos da cena e Thaysa mergulhasse mais fundo nos sentimentos da personagem. Com certeza eles fecharão na útlima apresentação.

Depois Ingrid e Beto. Ingrid também evoluiu muito em cena e Roberto, como todo bom ator, resolveu problemas antigos para encontrar novos. Eles passaram por um momento 'transformação' muito bacana em que André nos lembrou a todos que a personagem, assim como nós, humanos, tem infinitas cores e é preciso para o ator pintar e rechear a sua personagem como máximo possível. Quando digo máximo não falo de excesso, falo de riqueza, de diversidade.

A ordem em escapa, confesso, mas acredito que depois de Beto e Guil, fomos nós, eu, Ju e Biaggio para nossa última performance em Álbum de Família, que num balanço geral realmente foi pior que a segunda. Mas como disse a respeito de Roberto "erramos novos erros". Nosso principal mal foi a falta de ensaio, que nos desarmonizou, como André colocou bem; quanto a mim, meu principal erra foi a falta de generosidade. Sou um metido mesmo, preciso aprender a ser menos egoísta e mais generoso. E irei, estou trabalhando duro para isso, é que quando não me policio caio em vícios antigos que desejo como todas as forças deixar para trás.

André e Noronha chegaram para apresentar com Thaty e aconteceu uma coisa muito bonita e muito chata - Eles apresentaram de novo e pouco se pôde ver empenho deles em melhorar a qualidade da cena, essa foi a parte chata. A parte muito bonita foi eles terem sido completamente sinceros e nus, como um ator deve ser, de expor a verdade, não muito agrável para a turma e discutirem o que funcionou e não funcionou numa boa. Levantamos um ponto muito importante vou citar nosso professor aqui "Não sofram, se quiserem sofrer, tenham um emprego normal. Façam teatro para ter prazer, façam com tesão".

Biaggio conversando baixinho comigo levantou algo interessante: Se você trabalha num escritório e você não gosta da pessoa do seu lado, você pode simplesmente ignorá-la. Isso parece fácil mas não é, o ser humano, como qualquer coisa viva é atraente e essa indiferença vai te corroer até a cerne de sua alma. Já no teatro não, se você não conseguir se harmonizar com as pessoas com quem trabalha, jamais chegará ao resultado - um espetáculo. Poderá chegar a imitações feias e grotescas, mas jamais ao resultado. Teatro é muito humanos, até me assusta.

Depois, e era a cena que eu mais esperava na noite - a terceira performance de Paulinha e Tiago, dois atores incríveis. Paulinha cresceu bastante em cena e me levou à beira das lágrimas, coisa que nunca faço. É tão triste a história da personagem deles, e escrita com tanta poesia, fico comovido. Essa história de climax parece ter deixado Tiago um pouco nervoso e ele saiu distribuindo gritos 3x4, coisa que também fizemos na nossa cena, por tocar no assunto. Eles passaram por um momento transformação com prof. Tortsóv, e fico feliz por eles, pois ambos queriam muito e Thiago deu uma reviravolta imensa na sua performance, com um final lindo.

Felipe e Marquinhos perdi porque fui no banheiro e quando voltei já haviam começado, fiquei do lado de fora da sala ouvindo eles pela fresta.

Assisti então Mauro e Camilla, já melhorados e na última apresentação deles. Melhoraram muito, mas Mauro, tu fala muito rápido meu filho, calma, pelamor de Deus. O último pedaço de texto, do café, é muito bom, gosto demais dele.

E a aula foi isso, os outros ficaram para próxima terça.

Tradução no dicionário

27/4/9 - Sobe o pano. Estou feliz de escrever esse relatório porque ele provavelmente será o menor que já fiz de história do Teatro e o primeiro que consiguerei colocar (quase) todas as pérolas extraídas da aula.

Fomos ler "O Avarento" de Molière. O texto era enorme e só Jailton pôde imprimir (usando a impressora da firma, suponho, quando trabalhava fazia isso direto para o inferno de meu patrão, não é à toa que fui demitido lindo e loura da empresa de engenharia onde nunca mais vou trabalhar... Nossa, que nostalgia); além de Jailton, Neemias também tinha uma cópia.

O plano era lermos os cinco atos do avarento traduzido por um português que havia olhado o dicionário no dia em que traduziu, lermos mais seis páginas de um experimento sobre Mcbeth e ainda vermos trechinhos de "Shakespeare apaixonado" para olharmos os teatros da época. Empacámos no primeiro. O tradutor, que depois Neemias terá a bondade de informar quem foi que eu esqueci, estava realmente inspirado.

A história em si é típica de Molière: Um casal de namorados, ele servo humildo do pai da moça, o velhaco mais sovina que já vi. O tal do velhaco tem um filho que ama a mesma moça que ele, ainda que por razões adversas e para a moça o pai tem um pretendente rico e prestes a morrer, na sua opinião, o marido perfeito. Destaque para Felipe fazendo o Avarento e Thiago um serviçal, renderam risadas na aula.

Estava pensando cá com meus cachecóis e o que o professor está fazendo, nos dando esses textos de época para ler não é só importante do ponto de vista didático, mas muito útil para nós como atores. Fiquei pensando o seguinte: "Que ator é esse que saí de um curso de teatro de dois anos, de carga horária violenta e não sabe ler um texto de época com clareza e um mínimo de intenção na fala?" Seria nos deixar sermos rídiculos de nós mesmos.

A aula acabou com a Gaiola minha e de Dolores, que Ju filmou e depois postarei no Blog, junto com os vídeos de André filho e outras coisas; falando "algumas verdades, parte2".

Abraço.

Circo

23/4/9 - Sobe o pano. A aula começou com um aquescimento punk que já nem lembro qual foi, lembro que foi punk, no estilo de "mecham ossos imaginários e existentes até que eles parem de funcionar".

Depois fomos para os tatames. Disputamos uma corrida frenética eu, Mauro, Roberto, Vila e Marquinhos para trazer oito tatames para a sala, separá-los em duas fileiras, três azuis e um vermelho em cada e brincarmos de circo.

Superdivertido, demos cambalhotas para trás, para frente, de dupla, estrelilnhas e rimos muito, muito mesmo.

Destaque para Garrel, Dolores e todos os corajosos para se arriscar, muito mais importante que fazer certo ou errado é a coragem de correr o risco.

Depois de todo esse trabalho começaram as apresentações. Primeiro Paulinha e Thaísa falando da plasticidade de movimento proposta por tio Stan. Primeiro elas citaram os tópicos da continuidade e suavidade do movimento. Não significa que um ator não deva fazer movimentos interrompidos ou grotescos/violentos. Muito mais quer dizer que ao representar a interrupção, o grotesco e a violência o ator deve sim fazê-los com continuidade e suavidade, uma coisa é representar um ideal físico, outra coisa e inibir sua capacidade criadora com ele. Fizemos o exercício de andar e nesse exercício buscamos perceber a ligação entre todas as partes de nosso corpo, com a consciência de que nosso corpo é interligado e um movimento puxa o outro. Também fizemos o exercício do mercúrio, que não fiz muito bem porque sou metido e pus os carros na frente dos bois.

O exercício do mercúrio tem por objetivo perceber a energia que corre e torneia o corpo em compasso com o movimento. Essa mesma energia era aproveitada de outra forma no exercício que eu, Camilla e Ju propusemos para a turma - o gesto psicológico de Chekhov. O gesto, como já foi dito, é uma forma de carregar energeticamente o corpo antes da cena, despertando sentimentos, força de vontade e dando presença para o mesmo.

E exercício era uma experimentação em busca do gesto e dele tirei algumas conclusões: 1- é preciso ser mais simples no gesto, o gesto busca o que há de mais intimo, a essência, a força de vontade, o sentimento. Os gestos desenvolvidos pela turma não são falhos, entretanto se classificam, em sua maioria, nos gestos que servem o propósito de uma cena ou de uma fala. São gestos psicológicos específicos. Durante o exercício poucos conseguiram um GP (gesto psicológico) global, que abrange a essência da personagem do início ao fim da peça. Claro que essa essência mudo no decorrer da ação, mas o GP é sempre um ponto de partida, nunca um de chagada. Salvo isso eu gostei muito do desempenho da turma e me senti honrado de aplicar o exercício.

Abraço.

Do jeitinho que eu queria

22/04/09 - Sobe o pano. Dia dos diretores mostrarem seu trabalho na aula de introdução ao teatro.

Primeiro tivemos meia hora extra para afinar os atores. Não o fiz, jurei que eles estavam afinados e mandei eles se concentrarem apenas. Errei feio.

Bem, vamos às apresentações. Primeira cena Geraldo e Evilásio dirigidos por ninguém mais, ninguém menos que André Garrel. A cena foi improvisada e foi boa, destaque para a presença de palco de Geraldo, forte. Evilásio estava fraco, senti falta da presença dele em cena, estava muito apagado. E tu falou muito baixo, da próxima gostaria de ouvir com clareza. Houve um problema de ritmo, mas isso é porque foi improvisação, imagino.

A segunda cena era para ter sido Guil e Brandão dirigidos por Dolores, mas problemas técnicos os impediram, azar.

Depois Ju e Mauro, dirigidos por João, que impressionou a todos com suas habilidades de diretor. Como disse a professora "João é o chato que todo mundo gosta" e é verdade. O curso perderia muito sem ele por perto. Da cena tirei um conselho que gostaria de dar para Mauro "Diga cada palavra do seu texto como se desse um beijo na mulher amada". Faltou carinho com o texto, o resto - corpo, voz, presença de cena, estavam bons. O mesmo para Ju, só que ao contrário, precisa criar corpos e vozes para as personagens. Destaque para a comunhão deles, trocas de olhares poderosas em cena. E Mauro, agarre Ju com força, meu filho, pode pegar que eu não mordo.

A terceira cena apresentada foi estreada por Paulinha e Marquinhos e dirida por Bianca, a revelação de nosso curso. Na minha opinião, a cena mais forte e melhor representada, grande destaque para Paulinha, que me emocionou muito no papel de Joana, com voz, com corpo, com olhar, e Marquinhos não ficou atrás, mantendo uma atmosfera cortante e atraente toda a cena. Parabéns para a diretora. Agora Paulinha, balançou em cena um pouquinho, finque esses pés no chão.

A quarta foi Camilla Noronha, que não balançaram, Camilla estava ótima, usando do gesto psicológico para dar força à Joana e Noronha estava ótimo de Creonte, forte, a mão dele ao mandar e voltar os seguranças chamou muito minha atenção. Destaque para a concentração de Camilla.

Eu, por fim, dirigi Tiago e Thaty, consegui algumas coisas e não consegui outras. Não caracterizei minhas personagens, Tiago era Tiago e Thaty foi Thaty, mas estavam afinados um com o outro, não rolou muita comunhão e a vida física ficou fraca. Consegui embasar o texto e encontrar motivações vivas para meus atores, mas só foi até aí, da próxima trabalharei melhor por meus atores, que diga-se de passagens, são ótimos e foram muito generosos comigo.

Abraço

O preço de uma árvore

21/04/09 - sobe o pano na véspera do feriado. Professor Neemias adiou o avarento para a semana que vem justamente para nos mostrar quão avarento é o avarento e nós vimos e ouvimos falar do Renascimento na espanha. Mas antes André Garrel nos presenteou com um relatório mordaz da aula anterior.

Falando em coisas mordazes, Neemias previu que nós estávamos já a tempo demais na fase das "pernas abertas" como ele chamou, talvez esteja certo, talvez estejámos próximos de fechar nossas pernas, quem sabe?

Enfim, a aula começou no siglo de oro espanhol, mas antes dele Neemias nos lembrou que Racine, dramaturgo francês do Renascimento, é como a F. de Pernambuco, dada sua temática "Todos sabem que tem, mas ninguém gosta muito"

Sim, no século de ouro, primeiro vemos Fernando de Rojas, autor de comédias de costumes que já apresentava traços do realismo, segundo o professor precursor do realismo em algumas características.

Também foi abordado a complicada relação entre o humano e o divino entre os dramaturgos do renascimento. Apesar que quando penso nisso só me lembro de Dante e da granda viagem da Divina comédia, onde o homem conhece o divino, o profano e os compreende dentro de sua consciência; um pouco ousado da parte de Dante presumir que fosse possível exprimir por palavras da consciência humana essa relação, mesmo nas palavras completamente viajadas dele. Mas enfim, o fato é que os mesmos dramaturgos que escreviam falando do homem escreviam falando de Deus e as principais formas de teatro religioso do ciclo espanhol é o auto sacramental e a Égloga Pastoral, que Neemias acha um nome muito bonito, pesquisei o nome no meu aurélio e saiu assim: Égloga = Écloga - Substantivo feminino. Do grego - eklogé, pelo latim - écloga - Poesia pastoril, em geral dialogada; bucólica, pastoral.

No meio dessa explicação, o professor comentou como na época os artistas eram mais ecléticos, tipo Da Vinci mesmo, que era pintor, cientista, patati, patata; contrapondo que hoje o conhecimento é mais segmentado e partimental. Fiquei pensando nisso e faço um contraponto, só porque gosto de ser do contra mesmo.

Essa divisão do conhecimento, assim como a divisão do trabalho, é idéia do clássica do capitalismo, mas hoje ela vem perdendo força com o liberalismo. Quando começaram a se espalhar as idéias de capitalismo, o homem não era mais que uma chave de fenda, uma ferramenta. Hoje os colégios já trabalham muito com o conceito de interdiciplinaridade, as empresas de ponta, principalmente as que lidam em demasia com o público ou tecnológia tem mais que consolidado o conceito de "Funcionário multifuncional" que tem discernimento de todas as funções pertinentes à dele e é capaz de executá-las com certa presteza, se necessário.

As disciplinas de faculdade estão cada vez mais confusas e misturadas, coisas como "Engenharia da produção, ou do som, ou dos alimentos"; "Gestão da informação", "Biomedicina". São conhecimentos híbridos.

O próprio ator, ganha muito, mas muito em qualidade se souber, cantar, dançar, tocar, desenhar, enfim, se for assaz questionador para conhecer outras artes. E isso, para os artistas principalmente, não é um conceito novo. Assim vejo que hoje há sim uma tendência para o diálogo entre todos esses conhecimentos específicos que produzimos no século passado.

O professor ainda comentou que mesmo no teatro profano, havia a preocupação com a moral, com a punição dos que agiam errado, e isso perdura até hoje. Fiquei pensando que teatro é uma coisa antiga mesmo, sempre o comportamento humano antigo, épocas anterior ao dos espectadores, e ele aparece quase sempre permeado por esse senso de certo e errado. Talvez as grandes obras de nossa dramaturgia, as verossímeis, os gênios, sejam aqueles capazes de abandonar a moral e entregar às personagens à uma vida real e caótica como é deveras a nossa, ou mais ousado ainda, atacar a platéia destruindo os heróis, como fez Nelson Rodrigues no Brasil, idéias minhas, apenas.

Neemias destacou Lope de Vega, como nome de destaque do ciclo de ouro espanhol. Como homem humilde, bebeu da comédia del'arte italiana e dos costumes dos menos abastados para caracterizar suas peças.

Ao explicar que Lope escrevia Entremezes - esquetes que eram apresentadas aos nobres entre uma refeição e outra - ele lembrou-se da árvore de Júlia, e agora quem vai falar da árvore sou eu - Uma peça de qualidade questionável, com uma atriz fraca e inesperiente em palco no papel principal, não pagou nenhuma pauta pelo tempo que esteve em cartaz, custou 106mil reais ao contribuinte, mesmo que a produção não tenha gasto mais que 10, se chegou a 10, tudo pelo nome de Lívia Falcão e os carinhos da prefeitura.

Aqui meu apelo, pel'amor de Deus, todos queremos fazer teatro de qualidade, e os maiores problemas são sempre dinheiro e qualidade de elenco, então por favor, não joguem o dinheiro do contribuinte fora em joguinhos politicos e produções toscas. Sim?

Cervantes disse que os atores não eram muito vista na terra de nossos colonos, por isso suas trupes eram diminutas e se chamavam farândolas ou migingangas, nomes também engraçados que não vou persquisar no meu Aurélio.

Daí fomos para largas esplanações dos palcos Renascentistas na espanha. Um dia prometo que vou mostrar os diversos tipos de palco e a época e lugar onde eles foram usados. Hoje estou com preguiça.

O problema de fazer relatória das aulas de história do teatro é que nunca escrevo tudo que quero, porque Neemias fala muita coisa, como por exemplo toda a história sobre João Denys, professor de luz no curso de Cênicas na federal. Tudo bem, está tudo anotado no meu caderno, um dia transcrevo.

E.T dos Ovos de Ouro

16/04/09 - Sobe o pano. Professor Paulo nos enche de jornal e nos pede para forrar a sala. "Ok, mas para quê"; E como se fosse a coisa mais natural do mundo "Faremos máscaras hoje".

Rebobina a fita "Como é Bial? Estou na disciplina certa?" Estávamos todos. Com cartazes sobresalentes do 'Vale dançar', tesoura, grampeador, tinta guache e fé em Deus fizemos cada um sua máscara. Me considero um total sem talento nesse quesito, mas vá lá, eu fiz meu sorriso.

Tivemos toda sorte de máscaras e algumas realmente se destacaram - o rei Persa de André ou o cacique doidão de Geraldo, por exemplo. Houveram também os Power Rangers Mauro, Roberto e Thaisa, que usaram e abusaram do azul e vermelho nas máscaras. A galinha da Ingrid e o E.T de Evilásio também estavam impagáveis - Se esqueci alguma máscara e quiserem me lembrar depois fico grato.

Prontas as máscaras, estava doido para ver a bagaceira que sairia dali quando o Professor disse "Depois, agora vamos bater papo". E fomos. A ementa chegou à nossas mãos, assim como o trabalho que apresentaremos dia 23 e 30/04 sobre certas ferramentas para a criação e partitura corporal da personagem. Eu, no caso, apresento dia 23 o trabalho sobre o gesto psicológico de Michael Chekhov com Julyana Carla e Camilla Rios. Muito boa a viagem do rapaz.

Pingos nos 'i's, fomos separados em três grupos para contar uma história sem rosto e sem voz. Teríamos nossas máscaras e nossos corpos, e tava bom demais.

Fomos eu, que estava de smiley e virei emoticon, Camilla, que fez um gato doente, Biaggio, o Pierrot cibernético dono do gato, Dolores, o cacique superpoderoso, e Vila, o ET de vargínia. O gato ficava doente, o Pierrot mandava um pedido de ajuda (eu) via internet para o cacique, que fazia a dança da chuva e convocava o ET de Vargínia para transportá-lo até o gato, onde ele pode fazer outra dança ritualística e salvá-lo da doença cruel.

Geraldo pegou Maria Joana, sentou num canto e viajou que Thaísa era um robô que precisava de corda, e já que João era muito preguiçoso para dar corda nela, pediu ajuda para Mauro, o gostosão que mandou Paula, a babona; mas ela era muito fraca e não consiguiu, Ju coitada, jurava que conseguiria mas ninguém prestou atenção nela.

André era um rei, Beto seu súdito que trouxe maravilhosas atrações para entretê-lo - Ingrid, a galinha dos ovos de ouro, Bianca fazendo Dalila (A própria - "Vai buscar Dalila, vai buscar Dalila meu bem...") e Marquinhos, o M.J. A galinha botou o ovo de ouro e deixou a concorrência para trás, o rei Andre roubou ela para si e deixou as outras atrações chupando o dedo. Beto agradeceu no final.

Depois dessa viagem toda sentamos para conversar. Ingrid disse coisas muito interessantes sobre a diferença entre máscaras neutras e expressivas. Disse que as primeiras são mais difíceis pois é preciso comunicar-se com elas e ver o que 'elas querem de você ou vice versa'. Nos recomendou a não tocar nas máscaras para não desfazer a mágica, a mantêla sempre com texturas, com sabores escondidos na fantasia. O que ficou por certo ou quase foi sua capacidade de intuitivamente nos focar no trabalho corporal, por paralizar nossas expressões somadas à nossa voz. Assim vi na máscara uma ferramente interessante de 'soltar a franga', por assim dizer.

Perdão pelas três aulas de atraso, aí vão elas

Preencha as lacunas

16/04/09 - Sobe o pano. Tívemos três tópicos de trabalho ontem:

- Brincar com a dramaturgia

- Discutir Stan

- Experimentar a posição e o relacionamento do Diretor x Ator

Quanto à dramaturgia, tivémos um texto assim para compeltar:

Título:__________

A - Oi, a quanto tempo não te vejo... como tens passado?

B - Eu vou muito __________

A - Nossa, o que foi que aconteceu? Você __________

B - Exatamente. Eu nunca pensei que isso um dia fosse acontecer comigo, mas __________

A - O que você vai fazer agora?

B - Eu já decidi... vou agora mesmo lá e __________

A - Eu estou surpresa com tudo isso, não seria melhor ir lá e _________

B - Não, preciso fazer isso. Ai, olha que vem chegando _________

C - Oi gente, como vão? _________ o que aconteceu com teu _________?

B - Isso é o que eu vou _________. Você já sabia, não era?

C - Na verdade, eu desconfiava, mas _________. Vou contar um segredo a vocês, eu ________ sempre foi assim.

A - Meu Deus, hoje é o dia das surpresas. Vamos eu vou dar uma coisa pra vocês. __________. Antes, que _________ chegue. Ninguém pode saber, viu!

C - _________. Eu não prometi nada. Ele está vindo... disfarça.

D - Eu quero saber o que está acontecendo aqui? _________ ai, eu não acredito que você fez isso... eu _________ agora não posso mais confiar em você. Eu já sei como vou me vingar... eu _________

E - Minha gente, vocês souberam o que aconteceu lá na _________ -, Ele estava lá, _________ ameaçando tirar a roupa de _________, um escândalo.

A - Essa eu quero ver. Vou _________. Quem sabe não sobra um pouquinho para mim também.

E - Adoro saber as fofocas da área. Vamos ver como essa história vai acabar.

C - Será que ________ vai fazer o que prometeu... Vamos lá.

FIM

Desse exercício eu tirei algumas conclusões como escritor.

Primeiro - sintonia, toda criação coletiva necessita da sintonia, e como nós tivemos que criar em cima do texto de um terceiro que não sintonizou conosco, o principal esforço foi no quesito de assimilar uma hipótese possível de suas idéias.

O texto é escorregadio, no começo ele dá margem a mil possibilidades, mas no fim com a entrada de certos personagens e algumas informações mais concretas ele te força a destruir o que já foi feito e adequar as novas informações ou promover reviravoltas dignas de comédia mexicana.

Num segundo momento discutimos um trecho do livro "A construção da personagem" do mestre Stan. Trecho que ele discute a relação exposição x exibição - e então o mestre nos lembra que expor-se é preciso para interpretar a vida de um papel, entretanto exibir-se é venenoso, até mesmo porque são coisas diferentes, expor é tirar a máscara, exibir é mostrá-la.

Também tratamos da delicada questão da repetição de nossos atributos e sentimentos em cena, da velha pergunta "Como não me repetir no palco?". Eu defendo que se houver o estudo e entrega necessários ao papel, não é preciso ficar se mudando por mudar. Mas tenho muito pouca experiência prática disso, o jeito é viver para testar.

Entrou na pauta da discussão algo que chamou minha atenção, disseram mais ou menos assim "tem atores que três dias depois do espetáculo contínua lá, arrebatado pela personagem. Cuidado, isso é pinta!" Deve ser mesmo. Acho tão interessante para o ator saber aflorar seus sentimentos quanto fechá-los, porque não é um jarro, o trabalho de ator é um delicado controle entre ambos. Então um ator que realmente, caso exista, se arrebate do sentimento da personagem dias depois da apresentação precisa trabalhar suas faculdades de controle, eu acho.

Thaty disse algo muito legal, falou que o ator precisa ter uma "Fase de desmanche" depois do mergulho para voltar a si. Gostei do termo.

Outra coisa levantada foi a questão da interpretação para novela. Bastante diferente da para teatro porque primeiro os atores não tem as personagens completas no início da trama, apenas o mote e algumas informações, isso ao passo que os torna mais vivos, já que realmente desconhecem o futuro na sua totalidade, também os torna em início clichês de si próprios pela falta de material.

Além, discutiu-se a questão de os atores de novela fazerem sempre si próprios. Talvez, é preciso ver as circunstâncias, as personagens das novelas, no âmbito de tempo espaço, socio-cultural variam muito, mas no âmbito emocional, o mais cobiçado pelos atores, são absurdamente repetitivos. A estética é sempre a mesma, a forma de filmar sempre a mesma, é difícil encontrar saídas, por isso tantas pessoas da classe atacam a teledramaturgia brasileira, porque é um formula que tem experimentado pouquíssimas reciclagens.

No último momento da aula fomos dividos em grupos para improvisar trechos de "Gota d'água" do mestre Chico Buarque de Hollanda. A idéia é experimentarmos as relações diretor x ator. Peguei a direção de Thaty e Thiago e estou muitíssimo feliz com meus atores. Dei tarefa de casa para eles e espero que eles façam e quarta veremos o que sai.

A relação diretor x ator é uma faca de dois gumes, pode ser extremamente prazerosa e pobre, pode ser prazerosa e riquíssima, pode ser traumatizante e pobre ou traumatizante e rica. No fim, tudo depende das pessoas. Meu conselho é que os atores não cheguem vazios, é mais negócio para qualquer diretor, até para os chatos que se acham donos do céu, da terra e da verdade trabalhar com algo que já está construído e é crível no ator que com a obtusidade.

Eu sempri vi o diretor como um olho, ele é quem pode ver para dizer o que funciona e o que não funciona. Isso não reduz o trabalho dele, como olho, ele é um visionário, ele é quem afina, é quem sintoniza todos os elementos do espetáculo - cenografia, luz, produção, atores e tudo o mais que for importante para o espetáculo.

E quando digo atores, não apenas os atores com outros elementos mas os atores uns com os outros. Ele é o responsável pela coerência e coesão do trabalho. Mas isso pode ser um trabalho de ouvir pouco e falar muito ou de ouvir muito e falar pouco. Depende da inteligência da figura.

Até hoje à noite, com professor Paulo, todos alongados, sim?

O objetivo do blog é discutir os temas relevantes à nossos estudos e a nossa arte. Já basta o título infame, o blog pode ser nobre. Não pretendo expor ninguém sem necessidade. Portanto pretendo deixar minha correspodência em paz na minha caixa de e-mail. Perdão.

Professor Tortsóv IV

Acabada a primeira rodada voltámos nós, eu Ju e Bi para o segundo tapa.

Primeiro achei que não faríamos, ou não faríamos todos, e essa semana tem sido para mim o momento de aprender a confiar. Biaggio que está me ensinando. Mesmo ausente ele estava lá conosco, sempre esteve. E mais importante de tudo, veio para fazer a cena.

Não ensaiamos uma única vez com ele a semana toda por motivos pessoais, teve o aniversário de minha mãe, Páscoa, a despedida de um amigo dele para Argentina, e aí vai. Não mentirei, até os 45 do segundo tempo achei que ele ia arriar. Mas não arriou, foi lá e fez a cena conosco. E foi assim que eu aprendi mais uma lição nesse longo aprendizado da confiança.

Essa semana em dupla, eu e Ju trabalhamos mais o aquescimento da cena, muito fácil, na verdade o grande desafio é o quanto de nosso calor, que é um fogo bruto e alto, podemos emprestar às personagens sem confundirmos com nós mesmos. E a improvisação, a execução da cena no improvável, no tapa, no terreno das coisas vivas e espontâneas em oposição às propostas pensadas em excesso.

Sozinho trabalhei a sonoplastia interna e adquiri uma habilidade que antes só conseguia com músicas - a de reter e ouvir um som com clareza na minha imaginação - e o enriquecimento da personagem, reforcei algumas camadas, dei mais um forro para ele novos recheios vieram me preencher em cena. Estudei mais o texto, encontrei novas informações que clarearam minha percepção emocional de Edmundo.

Uma coisa curiosa, que acho que nunca consegui fazer antes foi me preencher sozinho com um sentimento, através da minha imaginação. Antes da cena começar, eu tinha acabado de dar meu primeiro beijo em mamãe, num arrebatamento interior e logo após ouvira papai engatilhar o revólver, assim temi pela minha vida, tão próxima de tornar-se completa. Tudo isso enquanto Totinha morria para quase parir. Aos poucos os estímulos internos geraram um medo que apossou meu corpo, estava assustadíssimo e não no campo dos pensamentos, mas eu só me sentia assustado, na verdade eu nem sabia porque eu estava assustado, foi uma viagem muito louca.

Quanto à cena, teve mais vida mas não tenho grandes comentários, só fazer o que prof Tortsóv mandou:

- Rechear mais o começo da cena, esquentando mais o relacionamento de ambos, buscar mais nitidez e ao mesmo tempo mistura nas cores do amor de filho/mãe versus amor homem/mulher

- Trabalhar a projeção de voz, para a platéia nos entender, claro

- Deixar mais claro os motivos de nosso nervosismo, e separar o de cena do nosso

- Uma pizza de mussarela e um Guaraná Antartica para Beto Brandão

- Nos culmes não ter sequer tempo de respirar

- Trabalhar mais afundo as pausas

- Fixar meu diapasão

- Trabalhar nonô

- Concertar o balé

Algumas considerações sobre essas notas:

1) A pausa talvez tenha sido por um erro de texto no meio da cena, que teve que ser concertado na tora. Talvez, mas vou estudar para ver se não dou umas paradas sem sentido.

2) Meu diapasão, tenho percebido que faço isso, as vezes mudo uma oitava a minha voz quando deveria apenas modular. É importante a cor na voz, mas se eu não controlá-la, fica um negócio muito estranho, tenho mesmo que trabalhar isso para não ruir minha personagem.

3) O balé, foi uma cena muito improvisada, encontraremos o meio termo para a semana e creio que o balé diminuirá.

4) O Trabalho de Nonô é mais de Ju que meu. A culpa não é minha que ela é doidinha por mim e não consegue pensar em outro homem, mesmo quando precisa. Essa mamãe só quer saber do filho em cena. (brincadeirinha, dessas cheias de verdade, mas brincadeirinha).

E falando em trabalho na cena. Thiago e Paulinha deram show. Serei sincero, semana passada, dado os problemas com o texto, eu mal entendi a cena, as palavras estavam soltas, não construiram o sentido. Ontem pude entender e me emocionar, muito, com a cena. Fiquei triste com eles, pensei "coitados, que sorte cruel tiveram!" quis consolá-los, quis tirá-los dali, enfim, foi duas mil vezes melhor. Agora no começo. Houve uma queda nítida do meio para o final, principalmente pelos dois pontos que André Filho levantou: 1- uma carga dispersa, uma energia que ainda não tem um objetivo definido, ainda não tem um contorno bem torneado 2) um crescente.

Agora eles estão no caminho, eles demonstraram claramente que pensaram, que sabiam o que era necessário e são ótimos atores, e mais, são dois atores muito trabalhadores, irão encontrar o caminho para entregar no palco o que eles sabem que deve existir lá.

Vou ser mal agora, aquele beijinho... sei não, é como as lágrimas. Camilla falou um negócio interessantíssimo "Se Paula chora do começo ao fim da cena, e daí" é importante dar o valor que essas coisas tem, tanto o beijo quanto a lágrima não podem ser vulgares, devem vir dum fogo maior que a necessidade mostrá-los em cena.

Entretanto destaque para a entrada de Thiago, me arrepiou a energia e concentração com que ele entrou em cena.

Por fim mas não menos interessante Felipe e Marquinhos em "dois perdidos numa noite suja". Muito pelo contrário, interessantíssima a troca de personagens. Eu discordo de André, acho que a cena perdeu um pouco com a troca, Felipe me surpreende em cena, a entrega dele é ótima. Mas dessa vez acho que houve menos momentos de luz que da última vez, é um trabalho delicado do qual não posso falar muito porque é pessoal, mas levo fé neles.

Também era bom um pouco mais de direção, para evitar o balé no palco, mas só isso também.

Enfim, esperar semana que vem ou a próxima para assistirmos a última rodada, estou ansioso.

Professor Tortsóv III

14/04/09 - Sobe o pano seis e meia em ponto que Professor André não tem tempo a perder. Nem nós, nem nós. O ideal era cumprirmos a segunda rodada de apresentações naquela terça. E para os que não fizeram nem a primeira, fazer duas no mesmo dia. Era a idéia.

Não deu, o tempo é cruel demais com todos nós. Começamos novamente naquele silêncio aterrador do "quem vai primeiro?" André resolveu isso com alguma facilidade, olhou nos olhos de Thaísa e perguntou "tu já foi?" ela "não", "então pode ir". E tudo foi resolvido.

Ela e Evilásio representaram "um bonde chamado desejo" filme que foi visto pelos alunos umas semanas atrás, inclusive Evilásio fez nada mais, nada menos que a personagem interpretada por Marlon Brando, ui. Destaque para manguinha da blusa dele, mui sexy.

Da cena o que me marcou - A naturalidade, um dos grandes problemas discutidos nos livros de mestre Torsóv é a atenção dispersa na platéia, veneno para o ator, que deve se concentrar na vida de seu personagem e isso foi um ponto positivo na apresentação deles, realmente não deram a mínima para nós, público, no bom sentido.

Fiquei de costas para Thaísa e quase não a vi, portanto nem sei direito. Agora quanto à Evilásio senti falta que ele terminasse a banana, pois ninguém guarda uma banana para se comer depois, o que foi aquilo? Nos bastidores ele me disse "Mas é que eu comecei a comê-la no tempo errado" e eu pensei "na vida não tem tempo certo de comer a banana" e faltou um pouco de raiva, houve uma discrepância pois Thaísa dizia "pare de gritar, fale baixo" e Evilásio não gritava nem falava alto; e não apenas em uma questão de volume, mas principalmente numa questão de energia. Evilásio é um excelente ator e imagino que ele resolverá isso com facilidade para a semana.

A segunda cena foi "Casa de Bonecas" Roberto Brandão e Ingrid (guil, depois põe teu sobrenome aqui que eu esqueci) . Enfim, Beto foi mamão e Ingrid fria e calculista, a vulgo modo. E isso já são quinhentos pois são verdadeiros opostos de suas personalidades.

Da cena deles vou junto com as anotações do professor Tortsóv - pelo texto era possível perceber que a personagem de Roberto estava muito mais agitada do que foi interpretada, e aí houve ruído. Detalhe para o jogo de pernas por debaixo da mesa, que ficou visível à platéia, os pezinhos comunicando o que os rostos de mármore das personagens forçavam por ocultar.

Faltou um pouco de troca de olhar. nossa cena: minha, de Biaggio e Ju, é quase que toda fundamentada na troca de olhar. Acho uma ajuda massa pois ao olhar para o rosto da outra personagem e tendo feito um estudo bacana a reação é quase espontânea, os atores devem ser como os sistemas solares e as galáxias. Não uma galáxia estática, mas dinâmica, onde de momento em momento os atores vão adquirindo o status de Sol atraindo os outros e depois trocam sendo atraídos, e esse movimento constante de atração e órbita cria a energia que preenche o palco.

Salvo isso a dicção, mas tenho para mim que para Beto e Guil falar com clareza será a tarefa mais fácil da semana.

A última cena da primeira rodada foi a de Thaty, Jailton e André, que também fizeram Casa de Bonecas. Nessa cena também vou junto com professor Tórtsov - logo no começo, se Jailton quer comê-la tem que ter mais tesão, muito mais, força Noronha que tu agarra ela. Quanto à Thaty, atenção no monocórdio. De todas as vezes que a vi subir no palco, poucas vezes a vi calibrar o timbre da voz, coisa importante para não termos sempre Thaty no palco. Destaque para o ponto em que ela se despede da personagem de André, para mim o momento de maior luz na cena, ficam desenhadas com clareza o desgosto em Jailton, e o flerte entre Thaty e André; agora o trabalho é levar essa luz para o resto da cena. Fiquei sabendo depois que André é um homem prestes à morte, isso pode ficar mais claro, o desenho do sentimento pode ser maior.

André tem que tomar cuidado com o desejo de falar com a platéia, hábito de certos tipos de montagem mas fora de contexto naquela cena, o peguei duas vezes morrendo de vontade de segredar sua vida para um dos espectadores.

E Thaty tem uma bomba em mãos, ela tem uma passagem fortíssima no fim da cena e correu dela com um fogo danado. O jeito é enfrentar minha filha. As coisas que você diz naquele momento da carta são a Pedra no Caminho de Drummond, você pode enfrentá-la e ser lembrada como a grande atriz que você é ou pode correr dela, como correu ontem, e nós nunca saberemos do que você é capaz.

Entretanto eles foram os únicos que foram pegos no momento transformação do nosso querido professor André 'Tortsóv'. Inveja geral na sala.

E falando nesse momento lembrei de duas coisas. Uma importantíssima para o ator - houve um problema com o texto na cena de André, Jailton e Thaty, levantaram na turma a questão da dificuldade de reter o texto.

Na "Criação de um papel" do Mestre Stanislavski, ele faz uma cena de Shakespeare sem deixar que os atores leiam o texto, usando das próprias palavras para atingir os objetivos da cena. E é aí que quero chegar. Um ator que esquece texto é um ator que não tem razão de ser na cena. Nenhuma personagem está lá somente para aparecer para o público. Muito pelo contrário, todos estão lá por um motivo e com um propósito - na verdade não apenas um, mas vários, que vão se sucedendo e substituindo na linha de ação - portanto um ator que não saiba o texto, mas entenda seu motivo de ser poderá tranquilamente dar andamento à cena. O texto, visto desse prisma frio, como coisas para falar no palco, é veneno para o ator. Mestre Stan sugere que devamos correr ao texto quado estivermos prontos para expressar a nuança de espírito na riqueza de nossas personagens. Não nos afobemos, por favor. E nunca, nunca, em cena aberta, olhemos para uma pessoa e digamos "Pára a cena. Era teu texto". A não ser que seja uma proposta, mal do mundo contemporâneo.

E ainda sobre isso, tive a oportunidade de ensaiar com Jailton para a cena de 'Anjo Negro' e sei o ator incrível que ele é. Não tenha medo meu filho, vai com tudo, você não precisa da aprovação de André nem do público, você precisa de coragem para continuar. Assim que você pegar esse tesão e ir até o fim todos irão te atirar flores na ribalta. Como no exercício do estuprador. Ali você até quis, por alguns segundos, recuar, mas não, foi até o fim e foi uma cena que jamais eu esquecerei.

Set Light ou Panelão

13/04/09 - Sobe o pano. A aula começou com o relatório da aula do dia 30/03, feito por Evilásio e muito aplaudido por Camilla Rios, que foi elogiada por sua performance na gaiola.

Sobre a gaiola da Camilla, ela destribuiu para mim, pelo menos, uma tradução do discurso chamado "wear sunscreen", de Mary Schmich, jornalista america para uma coluna que ela assina ou assinava na Nova Tribuna de Chicago que virou vídeo institucional de uma agência de propaganda dos gringos, caiu na Internet, no fantástico e tem circulado muito. Abaixo a minha versão preferida dele, a quem interessar possa.



Quanto a aula, começamos com uma breve discussão do filme "A Viagem do Capitão Tornado" para que Neemias nos passasse os principais pontos da commédia del'arte - Como a profissionalização do ator, a simbiose entre ator e personagem, os roteiros - chamados de Canobaccio e Suggeto, estruturas com largas possibilidades para os Lazzi - cacos, improvisações ou pintas.

Estou citando os termos em Italiano pois foi um forte da aula, esse e os exercícios de commédia del'arte citados pelo professor - como o arlequim que quebra uma estátua e para não ser repreendido pelo amo, assume seu lugar ou mesmo quebra um espelho e imita o amo para que ele não perceba. Há também o exercício do doutor, em que outro ator assume o controle de suas mãos e o clássico exercício do Pantaleão - andar como se guardasse dinheiro do cofrinho.

Existem algumas coisas que chamam minha atenção na Commédia - o teatro de entreterimento ponto. Hoje existe isso muito mais forte no cinema. Em Introdução ao teatro, Evânia pega com força no ponto da relevância socio-cultural do que estamos fazendo. Talvez essa reflexão excessiva de nossa importância em nosso contexto seja um pouco paralisante para o fazer teatral, talvez devêssemos fazer com naturalidade e ver, com entrega, onde nosso fazer nos leva. Assim, naturalmente as visões mais importantes no âmbito social teriam destaque, mas mesmo assim todo o fazer teatral teria sua importância pois foi feito com verdade; muito diferente da afetação e pedantismo ao qual estamos habituados.

Os temas importantes saltam aos nossos olhos - aquescimento global, crise do petróleo, tráfico de drogas. Mas só porque o lemos no jornal talvez não devessemos pular para fazê-los no palco. Talvez pudéssemos entender que não temos conhecimento ou exposição o suficiente do assunto para tratá-lo com a sensibilidade de um artista.

E esse talvez seja um mérito da commédia - eles admitem as próprias limitações e fazem algo frívolo do ponto de vista socio cultural. Imaginam quantas descobertas importantes no Renascimento, e na própria Itália! E mesmo assim os artistas estavam preocupados em divertir. Hoje o contexto é outro, é verdade. Há o cinema, o teatro de uma maioria Recifense é assaz banal e mesmo na sua banalidade é carente de qualidade.

Tivemos um intervalo que quase durou o tempo certo e não tivémos a gaiola por carência de elenco. Azar. No segundo bloco fomos para a França e para a Inglaterra, ainda que por alto.

Para o grande expoente francês - Molière - e o inglês - Shakespeare - São areia demais para uma hora e pouco de aula. Mas o professor foi gentil em pintar o contexto em que eles surgiram. Desconhecia, por exemplo, o rigor acadêmico que ia se firmando na frança e agora entendo melhor a crítica de Molière. Falando nele, lembrei de André Garrel, que bebe da fonte e faz críticas seríssimas e contextualizadas no meio da bufonaria de sua comédia.

Sobre Shakespeare é a segunda vez que Neemias toca no ponto do absurdo ou da inesistência de seu teatro. Quanto ao absurdo, pensei em transpor isso para nossa realidade, com curupiras aconselhando presidentes a reiventar o assistencialismo ou coisa parecida. Quanto a inesistência, afinal, quem garante a morte de Elvis, não é mesmo?

Ingrid levantou uma coisa curiosíssima - perguntou a visão do professor sobre o panorama do teatro europeu e brasileiro como um todo nos dias atuais. O professor disse que aos seus olhos estávamos dividos ainda na experimentação, no contemporâneo e nos que mantinham tradições. De uma forma geral isso é verdade. Mas eu, ainda um moleque, já me sinto pouco confortável com esse teatro dito "contemporâneo" já me inquieto com o excesso de proposta, com a falta de naturalidade, com um certo descaso para o público, de um novo eletismo vicioso. Queria ver um teatro mangue. Um teatro marginal. Recife, na sua posição cênica pouco profissional, é um local excelente para a reinvenção e destruição das idéias cult. Um dia ainda faço isso.

Porque é o seguinte - a partir do momento em que há o desconforto de uma classe ativa, é tempo de mudanças.

Outro ponto foi o mangá. E não venho o denfender como um fã, mas como um pensador de nossa história. Primeiro o mangá é um desenho com um público alvo diferente - adolescentes e adultos, principalmente - algo talvez novo para alguns, mas desenhos adultos são coisa bastante antiga. Por isso as histórias intrincadas e os valores diferenciados. Eles exploram o fantástico, o sexo e a violência porque são artigos de venda no mercado - se eles são culpados disso, hollywood também é. Outra - porque a estética do desenho animado seria inferior para a discussão da condição humana que qualquer outra? Existem verdadeiras obras de arte no quesito do mangá, como o Neon Gênesis Evangelion, que em 24 episódios mudou minha maneira de ver o mundo.

Além, é uma manifestação cultural antiga e importante no Japão, com a globalização e uma boa equipe de Marketing ganhou o mundo.

Outra coisa que lembrei nessa história de mangá é o cosplay, um teatro do público, baseado na imagem de todos no desenho, outra manifestação cênica que considero ainda inferior, pela falta de cuidado no trabalho dos atores, já que a estética fala mais que o conteúdo, mas importante para todo ator conhecer e analisar.

Houve mais, mas ficará para outro post.

Abraço a todos e boas apresentações hoje na aula de André.

Ahhh Eu aviso que Neemias não entendeu o lance BBB EST de ser! Ele não gostou da alusão, mas...enfim...continuemos aqui juntinhos...vivendo "confinados ao Teatro!"
Huahauhauhauhauhu!

Encorporemos então Stanilavsk...

Bem...Nouussaa!
Que bom que temos esse espaço afinal, assim podemos interpretar, escrever, dialogar, e viver intensamente essa turma e essa arte que formou uma combinação tão gostosa juntas!
Assim...digo a todos que sem alusão a prémios de milhões de reais, O BBB SESC ESCOLA DE TEATRO existe sim, para que interiorizemos ainda mais nossos vínculos tão bem formados desde o inicio de nosso conhecimento, já temos intimidade de quem passou um ano junto e a timidez e cautela de quem jamais machucaria um amigo.
Enfim...hj é terça e ferrou!!! Tem cena pra André...aiiiiiiiii e lá vamus nós!
Arrasem!!!!!!!!!!!
Abraços e bjus na alma!

Ai ai ai o BBB tem blog hahahaha


Então, só vejo Diogo postando aqui, na verdade notei que quase ninguem aceitou o convite. Na verdade só eu. Então como boa pessoa que sou colocarei as más línguas em pratica.

AS PANELINHAS

Sim, sim, elas já começaram e começaram com tudo. E olhe que o curso ainda nem acabou o seu primeiro periodo. Temos ainda quase um ano e meio. Voltando, ela chegou, e espero que não acabe com a harmonia da sala de chulé mais se acabar com a harmonia quem vai gostar é Bial. E ai, o milhãozinho vai para quem? Faça as suas apostas eu voto em pepe!


Adorável Júlia

08/04/09 - Sobe o pano. Professora Evânia não pôde ficar conosco toda a aula mas deixou um filminho para assistirmos. Nós tentamos professora, juro que tentamos. Aqui a ficha do dito

Título Original: Being Júlia
Gênero: Drama, Comédia
Ano: 2004
País: Canadá, Hungria, Reino Unido
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 105min
Diretor: István Izabó
Elenco: Annette Bening, Jeremy Irons, Bruce Greenwood

Pequena ficha jornalistíca do filme:

O quê: Atriz briga violentamente com o tempo, mal de todos nós
Onde: West Side de Londres
Quando: Anos trinta
Como: Um amante da idade de seu filho

Interessante como essa análise simplória capta o espírito do filme. Júlia Lambert é uma atriz muito bem acomodada ao seu posto de Diva, daquelas cujo nome leva multidões ao teatro. É casada com seu produtor em um relacionamento aberto, prática nascida na época e popular ainda hoje.

Júlia combate a própria fama com o fantasma da idade - beira os quarenta e no decorrer do filme ela é obrigada a se confrontar com os sinais de sua decadência.

O primeiro é Tom, um amante da idade de seu filho, que a ilude, a explora para no último ato revelar-se um cínico a altura das personagens de Nelson Rodrigues, um verdadeiro Boca de Ouro. No fim ele a troca por uma atriz ascendente, que todos dizem que será a próxima 'Júlia Lambert' já antevendo o fim da estrela.

Annette Bening, numa performance genial, mostra a podridão de alma que forma a atriz. Existem atores de todos os tipos, Júlia é dessas cuja performance é boa porque aprendeu a usar das técnicas de cena para blindar suas emoções na vida real, é uma mulher medrosa e emocionamelte fechada, quase incapaz de entrega. Apenas no seu momento de extrema decadência fora capaz de expor-se, e ao fazê-lo foi enganada por um João ninguém, o que apenas reforça sua blindagem para o clímax.

Essa confusão entre seus sentimentos e sua representação dá tônica à personagem, que além é constatemente pressionada a afirmar sua posição de diva; tornando-a extremamente artificial, mulher de gestos largos e risos falsos do momento em que acorda ao que dorme.

O final do filme é quase didático de tão categórico e contá-lo não estraga o divertimento do espectador - Ao perder o amante, o esposo e o papel de protagonista no próximo espetáculo em que participaria para a 'próxima grande fulana'. Júlia, na última cena, do último ato da estréia esbanja desenvoltura, experiência e improvisação comendo fulaninha com farinha em cena aberta, sem dá-la sequer a possiblidade de réplica antes de descer o pano.

O filme leva um ator a algumas reflexões, vou expor as minhas - Annette Bening é excelente atriz e esbanja talento no filme. Já a personagem que ela interpreta vejo como uma atriz podre e tacanha. Em primeiro lugar, em sua época os atores em geral já eram escolhidos por 'perfis' prática hoje ordinaríssima no cinema e prova cabal do imbecilidade das leis de mercado; a completa abstenção das possiblidades, da multiplicidade de leitura. Enfim.

Dois, Julia é extremamente egoísta e não gosto de pensar que um bom ator seja aquele que pisa em outro para sobressair-se ao público. Prefiro associar a atuação a conceitos como generosidade e entrega. É justo olhar as armadilhas que a encurralaram nessa saída violenta, mesmo assim não acredito que as circunstâncias sejam justificativa para tanto.

Outra observação que fiz foi a importância da experiência e do tapa para o ator. Já fiz alguns trabalhos de estudo da linguagem de palhaço e sei que uma das formas mais interessantes e peculiares de despertar o palhaço é o susto ou, como gosto de chamar, o 'tapa'. A lógica que cerca esse conceito é aplicável ao trabalho do ator. O 'tapa' nada mais é do que uma situação viva e imediata, que exija toda a concentração do ator; Esse, concentrado em tudo que tem de pensar, sentir, fica muito ocupado em tentar viver e vive pouco. O tapa, ou a ocasião de susto, de medo, de reação direta e imediata leva o ator a viver o que tem que viver e parar de pensar no assunto. A última performance de Júlia, apesar de egoísta, foi muito boa, não serviu à personagem nem à história, serviu ao público e a ela mesma. Entretanto foi vivaz, foi comovente, foi forte. Ela, acuada, numa situação extrema recebeu seu 'tapa' e esteve esplêndida em cena. Falta a generosidade, falta aplicar isso à serviço do todo. Mas nesse quesito ela esteve ótima.

E quanto à experiência, fica claro como ela vale milhões se comparado à coisas como 'beleza' ou 'talento'. A atriz mais velha come a mais nova em cena porque está mais à vontade, está mais viva, não teme o desconhecido da cena, muito pelo contrário, o procura por ser mais vivo, mais atraente. Se ela fosse capaz de conciliar isso com a história que estava contando, seria uma boa atriz.

Bem, dos meus pensamentos os mais importantes são esses. Boa semana santa a todos que rezam e muito chocolate para os que rezam menos.

Enviei convites para quem pude, quem não recebeu me manda o e-mail que mando o convite, queria que todos pudessem postar e comentar o blog.

Professor Tortsóv II

Sobe o pano. Depois da apresentação de 'Álbum de Família' de Nelson Rodrigues, com Diogo Testa, Julyana Carla e Biagio Picoreli (se eu errei corriga depois Bi), tivemos 'As Bruxas de Salem' com Thiago Gondim e Paula (paulinha, põe teu sobrenome aqui depois por favor visse?). Achei lento também, fiquei sabendo depois que houveram uns problemas com o texto. Azar. Acho que todos estávamos um pouco tensos. Tive estréias mais tranquilas que o senso de André. De resto os dois atores são muito bons e tenho certeza que eles darão aula semana que vem. Sem falar de uns beijinhos. Ou não, vai saber.

Para mim o destaque da noite foi a cena de Felipe Cavalcanti e Marcos Calessi, numa cena de 'Dois Perdidos numa Noite Suja'. Interessantíssima a perfomance de Felipe para a personagem, de uma crueldade latente que prendeu a minha atenção do começo ao fim da cena. Semana que vem será ainda mais interessante, quando eles trocarem os papéis.

Por fim Mauro Monezi e Camilla Rios em 'Três Irmãs'. Ao ver e entender o contexto da cena refleti o quanto o tapa é importante para o ator. Só de pensar que eles conseguiram o que conseguiram em algumas horas me arrepio. Não é que foi bom. É que foi feito porque tinha que ser feito e os dois foram corajosos, foram atores o suficiente para enfiar a cara no palco e fazer. Isso é admirável.

E para falar nisso houve partes que gostei. Achei interessante a postura de Mauro e a voz. Achei que ele realmente não estava afinado com o texto, houve uma pressa nele, é fato. E Camilla sempre me impressiona pela verdade em cena. Mas vou pegar no pé dela e Paulinha, mania de chorar em cena. Se em toda cena que vocês fizerem houver choro, ele perde a intensidade, principalmente porque poucas vezes ele é natural e espontâneo.

Falando em mania tem meus estalos, preciso acabar com esses estalos, e os faço sem perceber, é lasca. E falando em choro achei interessante quando repeti a cena a pedido de André, num dos ensaios houve um momento em que um bixinho me mordeu e tive vontade de chorar, mas só repetindo a cena ontem, encontrei essa intenção com mais nitidez.

Pronto. Abaixei minha mão, outros que venham falar.

Professor Tortsóv I

07/04/09 - Sobe o pano. Nos bastidores André estava desde 18:00 no SESC lendo não sei o quê na biblioteca, mas a aula só começou às 19:00. Seis e meia em ponto, um rumor correu e atravessou as espinhas dos alunos da Escola SESC de Teatro, como se as lâmpadas levassem a notícia "André Filho está na sala" - Todos se puseram a correr como loucos para o banheiro - maquiar-se, vertir-se e vomitar - Enquanto André estava na sala, sentado em sua cadeira, como um pilar "onde estão todos, onde estão todos?" e os poucos que já estavam na sala, suando litros, respondiam "já vêm, já vêm" desejando com todas as forças que os outros alunos não viessem nunca.

Quando todos voltaram do banheiro, vestidos, maquiados e leves começamos. André, em sua boa linha de professor Tortsóv começou a aula com um longo blá aristotélico que, imagino, objetivava preparar nossos espíritos para o ritual a seguir, claro que ele apenas nos preparou para o abate. Entre suas palavras pesquei um pouco dos motivos que o levaram a escolha de Stanislavski, Artaud e Grotowski para os seminários; que também deveríamos por conta pesquisar outros, como Brecht, Boal, Kantor e outros. Que um curso de dois anos não forma atores, blá... Mas o que eu pensava mesmo era "#$%¨$#$#, começa logo" Então veio a pergunta fatal "quem vai primeiro?".

Todos juravam e torciam para irem Beto e Ingrid, que já haviam disposto o cenário para a cena deles, mas eles fizeram doce e eu não me aguentei. "Olha André, se ninguém quiser nós vamos". Ninguém quis e nós fomos.

Aí abro um parênteses para defender aqui publicamente a minha tese do "não enrola e vai logo". Cada um lida com o nervoso de um jeito. Apesar que admito que não estava nada nervoso, talvez tenha pecado até pela máscara da segurança e fechado em parte minha capacidade de entrega. Thom Galiano, o primeiro cara com quem estudei os mistérios do ator dizia "o ator sempre vai primeiro, o ímpulso é tão importante para o ator quanto o intelecto. Mas em cena o ímpulso é mil vezes mais importante que o intelecto". Assim, se estamos prontos para fazer, por que não fazê-lo? O ajudante do professor Tórtsov também diz isso para Kóstia no exercício do tapete, no livro "A Preparação do Ator" 'Escolhe qualquer um, não pergunte, faça; não hesite, invente'; é uma citação indireta, tô com preguiça de caçar as palavras exatas, mas o espírito é esse. Sem mencionar que tívemos muito mais tempo que os outros grupos, de forma geral, porque fomos os primeiros, é impossível sentir-se à vontade para sentir os mistérios da emoção humana sabendo que o SESC fecha em meia hora, como Mauro e Camilla tiveram que fazer.

E falando em excesso de intelectualidade, eis o principal pecado de nossa cena. Hoje, depois de uma boa noite de sono e alguma reflexão sobre o assunto vejo que a cena estava chata mesmo. Cada um diz o que acha, eis a graça de nossa brincadeira, Camilla dos seis nomes me disse uma coisa importante "Tava muito tenso em cena Diogo, relaxa pô!", vero, estava mesmo. Já notei que as vezes faço força para fazer bem feito. E se for bem feito, não vou precisar fazer força, será extremamente natural.

Mas vamos lá. Analisando nosso o processo de criação, vejo que houve um "excesso de proposta", mal comum à artistas e pensadores já a tal pontos envolvidos no conceito de "contemporâneo" que de fato estão saturados pelo mesmo. Mais, o foco do trabalho era claro "aplicar as idéias de Stanislavski", dentro desse limite, um bom artista iria mostrar as infinitas possiblidades deste limite ao seu público. Ademais, o foco é o trabalho de ator, os desafios do texto. Eis a verdadeira proposta. Não intelectualização vazia e desfocada matriz de excessos - excesso de direção, excesso de marca e excesso de proposta.

Mea culpa, mea culpa. Até ontem me faltou a humildade para ver o óbvio com a clareza que a ele cabe. Azar, semana que vem tentamos de novo.

Já sobre a nova tentativa, aqui os tópicos que anotei para o crescimento da cena:

- Abolir a sonoplastia, buscar ouvir a menina que grita até a morte para parir o menino que nunca sai com os ouvidos interiores e levar ao público não seus gritos, mas sua impressão na alma das personagens em cena. Para mim um dos grandes desafios para a semana. Principalmente porque nunca imaginei essa cena sem os gritos. Terei de derrubar preconceitos e preconceitos, além de muito trabalho, para conseguir isso.

- Esquentar a cena. Uma ação que acontece as vésperas de assassínios e siucídios realmente precisa de mais entrega humana. Veremos o que pode ser feito nesse quesito.

- Trabalhar tempo-ritmo e pausas. Espero que corrigindo esses pontos possamos levar a cena do rótulo de 'chata' (fui eu mesmo que dei, achei até mesmo chato fazê-la, intelectual demais, humano de menos) para o rótulo de 'emocionante', objetivo muito mais interessante para um ator. Entretanto acho que isso será a parte fácil, assim que abolirmos o excesso de propóstas e voltarmos para naturalidade que nos faz humanos, temo que isso acontecerá sem muito esforço.

- Enriquecer as personagens e trabalhar mais a fundo os opostos. Procurar mais recheio, claro, em se tratando de teatro, recheio nunca é demais, desde que nas proporções corretas. Inclusive ontem mesmo já estive viajando nessa sugestão e sentindo novas facetas da intrincada alma de Edmundo.

Enfim é isso, para a semana veremos o que sai.

Breve zoológico

Sobe o pano.

Cena I

Thiago
Pai de Thiago

(O pai entrega a mesada ao filho. Ele junta à um bolo generosos de cédulas)

Pai - Está guardando para quê filho?

Thiago - Vou comprar um cachorro pai.

Cena II

Thiago
Atendente

(Thiago entra no pet shop, mas não há cachorros, apenas gatos. Ele fala com a atendente)

Thiago - Não tem nenhum cachorro no pet shop inteiro?

Atendente - Ih, meu filho, vendi o último cachorro há cinco minutos, mas tem outros bichos aí, não quer uma gatinha manhosa só para você?

Thiago - Como é?

Atendente - Quer dizer, hamster, arara, que tal uma periquitinha?

Thiago - Não estou entendo, você quer vender o quê, afinal.

Atendente - A bixa que tu quiser.

Thiago - Olha moça, eh... vou levar esse gato, põe na caixa para mim.

Atendente - Então você curte gatinhas uh?

Thiago - Isso, agora por que tu não vai fazer seu serviço, sim?

(Paga a moça e sai com uma caixa. No meio do caminho a caixa começa a latir. Ele olha a caixa e não crê)

Thiago - Um gato que mia!

(volta ao Pet Shop, antes que a atendente possa dizer qualquer coisa)

Thiago - Um camaleão. Não quero nenhuma bixa. Só um camaleão.

Continua assim que eu descobrir a parte de marquinhos na história