O Nada.

08/06/09 - Sobe o pano. Dia de assitir o vídeo "Artaud" filmagem de uma peça, elenco Rubens Correia e Ivan Albuquerque. Neemias disse que Rubens passou boa parte de vida artística estudando o trabalho de Artaud, que já conheciamos algo dos exercícios com André. Porém o vídeo me abriu de forma única.

Não posso falar muito da película, pois realmente é difícil explicar, é uma coisa, é fragmentado, de uma lógica caótica, tem muito poder nas mãos, em pequenos gestos que se ampliam, tem a dimensão do sonho, realmente. E também dialóga com Grotowski, é um teatro pobre, não tem pretensão nos seus efeitos, é um ator e o público, só isso. E tudo isso. Ele não urra, não dá chilique, mas se tem a impressão de assistir à um sonho. Muito bom.

Ele fala dos girassóis de Van Gogh no texto. O que sei (posso estar errado) sobre os girassóis é que são quadros que ele pintou para outros artistas que ele havia convidado para um retiro de intensa produção. Colocou cada quadro no quarto que ele havia preparado.

Infelizmente, Van Gogh sempre foi tido por louco, além dos problemas com alcolismo. Nenhum dos convidados apareceu, isso foi pouco antes dele se matar. Ninguém entendia a beleza do movimento pintado, uma pena. E Neemias lançou a pergunta "por que ele pintou o girassou, o girassol é uma flor feia"; mas é a flor que se volta para sol, vale pensar nisso...

Vendo o vídeo também fiquei pensando sobre a relação "levo minhas coisas para o palco" x "não levo nada para o palco" e o que é, realmente, esse nada?

Massagens

04/06/09 - Sobe o pano. Primeiramente fomos discutir os espetáculos vistos anteriormente - "Imagens não explodidas" e "por um fio em lã".

Discutimos sobre a abstração e o aristotélico na construção do espetáculo, sobre o espetáculo que se encerra em si e o espetáculo que o espectador leva para casa.

Eu fiquei viajando na seguinte reflexão, que vou passar adiante - Será que um espetáculo concebido de forma aristotélica mas construido através da abstração não poderia também se tornar um espetáculo que se leva para casa?

Depois fomos fazer alguns dos exercícios mais gostosos que já fiz na escola Sesc. Primeiro fomos brincar de pesado, criando um gestual que explorasse essa qualidade. Fizemos em duplas, fiz com Bianca e acabamos em algumas das posições mais engraçadas de toda a minha vida.

Foi interessante para mim, como ator, saber que posso, quando quiser, pensar em qualidades para minhas personagens e fazer pequenos laboratórios como esse, começar não com o gesto definido, mas com a busca da qualidade desejada no gesto, seja ele o que for. E dessa busca encontrar o gesto que melhor traduza a qualidade adaptada ao contexto, assim as possibilidades aumentam e se tem outra ferramenta para evitar cair nos clichês.

Depois fomos buscar o leve, primeiro sozinhos e depois todos juntos, foi uma viagem muito agradável.

Por fim o melhor. O professor nos dividiu em dois grupos e pediu que uma pessoa de cada grupo deitasse e fechasse os olhos. Eu como mais amostrado fui o primeiro do meu grupo, que era composto por: Eu, Thaysa, Paula, Bianca, Guil e Marquinhos.

O exercício era nada mais, nada menos, que uma massagem de todos na pessoa deitada. Depois a pessoa era içada e ia dar uma passeio de olhos fechados carregada pelas pessoas do grupo. Como fui primeiro tive mais tempo e muito, muito gostoso.

Depois ajudei a massagear todo mundo, uma coisa importante dessa massagem é que conforme você vai se habituado, você busca novas formas de massagear, assim deve ser com a personagem, se ela tem uma tarefa, é importante que o ator descubra mil formas de realizar essa tarefa, para escolher dentre as mil a que melhor serve à personagem. E a única forma de encontrar essas mil formas é fazer da forma que se sabe e depois ir procurando pequenas alterações, ou bruscas, dependendo das circunstâncias, e vendo quais dessas alterações desfiguram a tarefa e quais propõe uma outra forma de fazê-la, criando assim um repertório para a escolha de cada patitura.

Finda as massagens, nos dividimos em grupos para comerçarmos a pensar nas interfaces, trabalho final do lab. de corpo. Meu grupo ficou - Eu, Paula, Thaty, Garrel, Dolores, Felipe e Mauro e nossa interface é com a poesia. Fizemos um exercício de abstração de ideias proposto pelo professor e chegamos às poesias que falam do caminho como metáfora da vida.

Fim. Tchau.

Claro!

03/06/09 - Sobe o pano. Dia da última etapa do trabalho dos diretores, o texto foi "Claro" de David Ives. Mas antes dele ouvimos músicas de Chico Buarque e lemos poemas sobre a época da ditadura e os movimentos artísticos contra a censura. Temas de nossos próximos trabalhos.

Não pudemos muito assistir uns aos dos outros, porque fizemos tudo de uma só vez, entretanto posso falar um pouco sobre o que percebi enquanto atuava (sim, enquanto atuava fiquei olhando para ver o trabalho dos outros, não tenho ética nenhuma) e sobre as discussões depois da cena.

O texto, a título de introdução, narra a história de um casal que vai errando e voltando no texto até conseguirem um final feliz.

Começaremos por Ju, que dirigiu Tathy e Jailton. Noronha como sempre muito bom, com um tempo excelente de comédia, fez um namorado machão. Na discussão se valou que às vezes a relação tempo x qualidade não é diretamente proporcional, outros fatores podem ser levados em conta, ainda que quanto mais tempo maior a qualidade, muito tempo não significa necessariamente qualidade. No caso de Ju, mesmo com poucos ensaios a cena ficou boa. Isso porque a diretora não foi pretensiosa e ao assumir todos os encalques do processo, ganhou sustentabilidade na cena.

Depois Paula, que dirigiu Thaysa e Mauro. A grande pergunta de Evânia era se Paula teria o pulso para dirigir amigos, mas Thaysa e Mauro são tão generosos que mantiveram o respeito durante todo o processo. É muito interessante você calçar os seus sapatos e se entender quando ator, como ator, obediente, ainda que criativo; e quando diretor, diretor, detentor da palavra final, responsável (mais que o ator, não quero dizer que o ator não precise ser responsável) seguro.

Coisa interessante foi o momento de Paula dar a nota, ela quis se comparar com Peter Brook para decidir que número se dar. E a gente dizia "não sofra, minha filha" e ela "mas eu não tenho tanta certeza se está bom" enfim a nota que ela se deu foi baixa mas acho que Evânia vai relevar.

Biaggio me dirigiu com Bianca. Primeiro vou falar de Bianca, menina super generosa, adorei contracenar com ela. Quanto ao trabalho de Biaggio, foi o único que tentou desconstruir um pouco a cena, com umas 'esquisitices' (não são esquisitices de verdade, são proposta, ahauhauahuah). Mas no resto ele foi um ótimo diretor, nos orientado durante o caminho.

Ingrid dirigiu Doloros e Tiago, mas Tiago não pode ir à aula, e Guil, num ato de extrema coragem nos moldes de 'o show tem que continuar' assumiu o lugar de tiago com bigodes e trejeitos de homem para fazer par à Dolores. Outra coisa foi marca ousada de pegar nos seios de Dolores, que constrangiu muito Tiago durante os ensaios, o que mostra a necessidade de confiança entre as partes envolvidas no fazer teatral.

Camilla dirigiu Beto e Marcos que fizeram um par gay muito lindo. Roberto como sempre impressiona pela feminilidade bonita que ele sabe fazer, Marquinhos é mais atirado, azar. Uma coisa interessante foi Beto achar que Camilla talvez tivesse dificuldades em dirigir a cena por não identificar nele muito o tempo do humor. Quebrou a cara, Camilla fechou.

Findo o debate sobre a cenas Evânia nos avisou da última etapa de nosso curso - seminários sobre Brecht, Boal, Teatro de Arena e Oficina para as próximas semanas. Vamos ver no que vai dar.

Pobre ou quase II

03/06/09 - Sobe o pano. Hoje sim foi o dia do teatro pobre. Ou quase.

Conversamos um pouquinho e fomos para a pergunta fatal: Quem começa. Eu, Felipe e Thaysa começamos, eu não sei muito sobre o trabalho dos outros grupos, então vou me deter um pouquinho no da gente.

Nossa primeira idéia foi mecher na cena de Édipo Rei, corrigindo o que não deu certo e limpando-a, mas Felipe trouxe o texto "Navalha na Carne" de Plínio Marcos, e acabamos ficando com ele.

Li o texto enquanto lia o livro de Grotowski a procura ferrenha da minha verdade na história daqueles três personagens - um cafetão, um viado e uma prostituta numa pensão sórdida. Todas conectadas por relações de interesse, sadismo e decadência.

Propus ao grupo ligar essas relações aos conceitos de ator santo x cortesão de Grotowski, o grupo aceitou e fizemos três improvisações em cima do texto em que o cafetão, o viado e a prostituta, ao chegarem no clímax, trocam suas inquietações por inquietações ligadas ao trabalho do ator, sugerindo a platéia a relação entre a pessoa que se prostitui e o artista que se prostitui.

A cena foi construída numa estética 'pobre', ou seja, os atores, sem auxílio nenhum, foram responsáveis por criar as personagens e seu ambiente.

Os frutos desse laboratório foram muito mais saboroso que o de Artaud, ainda que ambos, para mim, tenham tido a mesma importância.

Depois Beto, Vila e Paula fazendo uma experiência em cima de "entre quatro paredes" de Jean Paul Sartre. Muito bacana a maneira como eles criaram esse ambiente do inferno e a tensão que une a aprisiona as personagens.

Vou fugir da ordem, pois não a tenho mais em mente. Dolores e Geraldo apresentaram de novo "Roberto Zuco" de Bernard-Marie Koltès (descobri o autor, lálálálá), mas com algumas diferenças, de novo destaque para dolores, muito ritualística oferecendo o corpo do filho como hóstia à plateia.

Biaggio e Camilla continuaram com "A obscena Senhora D" de Hilda Hilst, mas mudaram os excertos. Foi interessante como desconstrução do corpo imediato, que deu lugar à escadas, alavancas, relações de duplicidade e outros afins da viagem de cada um.

Tiago e Mauro fizeram um criação coletiva chamada "Dia grilado". Muitíssimo engraçado, ainda que a dramaturgia tenha sido ferrenhamente criticada por André "era melhor terem escolhido um texto" disse. Mas eu achei que eles encontraram, dentro da mímica e de seu contexto, muita verdade.

Noronha, Garrel, Marquinos e Bianca fizeram um pedaço de "O beijo da mulher aranha" tema trazido pelo professor para um exercício que fiz com Marquinhos nas primeiras aulas. Bacana como eles criaram duas "consciências" das personagens, interpretadas por Garrel e Bianca, e como eles fizeram o beijo passar do plano material para o etéreo. André criticou a dramaturgia, blábláblá.

Por último, mas não menos importante, Guil e Thaty se inspiraram numa música de Placebo chamada "20" para fazer uma cena muito fofa, que também tem um trabalho interessante de desconstruição de corpo e voz. Precisa dizer que André criticou a dramaturgia?

A gaivota

01/06/09 - Novo e último mês da desse período, que como temos sofrido para dar conta de tudo, mas tenho a impressão que o pior ainda está por vir. Enfim hoje fomos ler "A gaivota" de Anton Tchekov, texto pontual do Realismo.

O texto é particularmente importante para a turma pois foi com ele que fizemos o teste para entrar na escola Sesc. Entretanto a leitura foi enfadonha do mesmo jeito. Não li nenhuma personagem e não consegui prestar muita atenção, admito. Entretanto quando prestava atenção ia buscando aquilo de que falei no última crônica: o humor, a ridicularização, os traços caricatos das personagens, tudo que fez Tchekov dizer "escrevi Voudevilles e Stanislavski fez dramas psicológicos" e encontrei muito humor, encontrei traços caricatos nas personagens e consegui visualizar um encenação pastelão da Gaivota muitíssimo leve, dignissímo do maior dramalhão mexicano.

Daí volto à importância do papel do encenador e à reflexão acerca dos clichês que criamos do passado: Artaud era visceral, Brecht político, Stan profundo (que é profundo?) blá blá blá. E entender que esse legados, assim como as personagens, são empobrecidos (no sentido depreciativo) se vistos de uma perspectiva unilateral ou monocromática.

E mais, por que, nos dramas psicológicos de Stan, ele não poderia inserir doses generosas de humor, como Brech inseria de ironia em seus textos? No livro "a criação de um papel" dois dos papéis escolhidos por Stan para demonstrar suas preparação são comédias!

Claro, isso me leva a outra reflexão - Rindo comigo ou de mim? Isso cabe a cada um decidir.

Também foi feita uma comparação, por um santo/pecador da turma, quanto à personagem da gaivota, aquela atriz narcisista cujo nome me escapa, e Augusta Ferraz, interessante...

É interessante também destacar as 'etnias' da sala pela ótica da leitura. Pela maneira como cada um lê é possível deduzir vários traços acerca da pessoa, como formação, hábitos, etc...

Nos foi sugerido assistir ao filme "O baile" de Ettore Scola, o mesmo diretor do capitão tornado. Que ainda não assisti, mas talvez assista em breve.

Semana que vem teremos um vídeo de Rubem Correia interpretando num espetáculo chamado "Artaud". Até lá.

Improvisação.

28/05/09 - Sobe o pano. Bianca, Marquinhos, e mais alguém que já não lembro foram fazer o comentário e exercício sobre o exercício de postura proposto por tio Stan. Já Geraldo e Dolores foram falar de improvisação.

Quanto ao primeiro, vimos como a postura é o início de qualquer partitura, e como deve manter nosso equilíbrio e energias prontos para o movimento que ela prepara, fizemos brincadeiras com cegueira e cabos de vassoura, a título de experimentação.

Na segunda Geraldo falou muito sobre a improvisação que fornece informações ao ator, e a livre. Quanto a isso lembro do que M. Chekov fala sobre improvisação - É necessário algo definido, um começo e um fim, para que o ator se sinta realmente livre para improvisar - penso o seguinte, mesmo que quem coordena o exercício ou o diretor não tenham dado orientação, o ator vai precisar escolher algo, de seu passado/presente/futuro/imaginação/sonhos/o raio que o parta para começar; a única coisa que se improvisa do nada é o nada.

Nisso Chekov apresenta um programa bem legal para exercitar improvisações. Vou falar um pouquinho dos exercícios propostos.

1 - Escolha um começo e um fim, se possível aleatórios ou contrastantes, depois defina um tempo e comece.

2 - Quando se sentir à vontade, vá inserindo cada vez mais informações, novas marcações no meio da cena, um tema. Procure sempre variar ao máximo e trabalhar com situações contrastantes ou caóticas.

Pronto. Não procure mudar o tempo, mantenho instável. 5 a 10 minutos é suficiente para cada improvisação.

Geraldo trabalhou isso com balões e tempo ritmo, com os balões deveríamos improvisar um movimento, então essa foi nossa largada, e, para desafiar-nos mais, uma música foi solta para improvisar no ritmo oposto ao da música, foi uma bruta confusão. Mas gostei. Aprendi e pensei fazendo.

O poder dos Deuses. Será?

27/05/09 - Sobe o pano. Evânia infelizmente não pôde dar aula. Acho que foi saúde. Quem estava lá para nos aparar foi professor Almir, figura interessantíssima. Que nos aqueceu corpo e mente com um exercício de interpretar de olhos fechados algumas das características mais gostosas ou marcantes de personagens célebres, como Medéia, Maria Antonieta e outros...

Foi muito, muito gostoso, porque pudemos interpretar livres de muitos de nossos preconceitos em relação à interpretação, como exercício da fase de preparação da personagem, acho um instrumento muito bacana. Depois fomos ensaiar para a apresntação dos diretores semana que vêm.

Biaggio está dirigindo a mim e Bianca, passamos o texto, vimos algumas marcos, trabalhamos intenção, um trabalho super tranquilo...

Por fim Almir reuniu a turma e fez um exercício com Noronha. o fez ficar parado o encarando e pouco a pouco, bem devagarinho, interpretou a agonia de um choro. Foi muito forte realmente. Ele me contou que da outra vez a pessoa que o ficou vendo chorou junto. Noronha não chorou, mas de fato sua performance nos tocou a todos. No final ele disse "Estão vendo. É o poder de um Deus" Interessante não?

Pobre ou quase I

26/05/09 - Sobe o pano. Dia do teatro pobre. Ou quase. Iríamos apresentar, com a cara e a coragem, os experimentos em cima das idéias de Jerzy Grotowski.

Mas não, nossa cara e coragem era tão frágil que chegou ao conhecimento do professor nosso sofrimento, nossa ânsia em cima da pergunta "que porra eu faço?" e ele decidiu conversar conosco e nos dar outra semana.

Primeiro, poucos leram o livro. Eu entendo que os seminários são consecutivos, dando uma semana, uma semana e pouco entre um e outro, porém a bibliografia está conosco há mais de mês, e se tivéssemos nos programado, não digo todos, mas a maioria poderia ter lido alguma coisa.

Outra das pedras onde tropeçamos foi qual ponto do teatro pobre abordar na cena? A turma tendeu a se concentrar no trabalho de ator. E eu me pergunto, por quê? Porque somos ambiciosos, e para mim, como numa tendência da turma, o trabalho de ator proposto por Grotowski é tentador, dessas tentações de carne, que não sei nem explicar direito. Tamanha doação à arte, mergulho tão longe é extremamente tentador.

Tão concentrados nisso que ficamos esquecemos que podíamos focar em outros aspectos do teatro pobre, muito mais permeáveis à realidade do exercício proposto - A criatividade frente à ausência de recursos, o trabalho partitural do corpo, a exploração do espaço cênico. Meu grupo em particular focou na discussão ator cortesão x ator santo, discussão importante sobre a tensão que existe em todos entre a necessidade artística face à egoísta de se estar no palco.

A aula foi muito importante para firmarmos o laço de confiança que temos todos com André e nos lembrarmos da importância de saber como falar.

Humildade é coisa tão difícil, eu que o diga. Às vezes, em meio ao desespero e à preconceitos, a fôrmas rigidas que passam a falsa idéia de segurança nós começamos à atacar tudo que vemos além dos muros que construímos. É preciso, muito, se entregar ao desconhecido. E nisso, como um todo, a turma falhou, ficamos com medo e atacamos quem procurava nos ajudar.

Eca, ficou muito martirizante esse parágrafo, deixo aqui registrado que a situação é importante para reflexão, mas não é tão trágica assim não.

Outra coisa importante é a questão da autenticidade. Uma das coisas importantes que Grotowski diz, e diz com mais enfase ainda que Stanislavski, na minha leitura, é a destruição da fôrma, do caminho; diz com todas as letras - 'Fiz meu treinamento, que funciona para preparar meus atores; mas o que fazer no palco, é a verdade que cada um deve buscar' E nisso um espelho é escancarado na nossa cara em relação à nossas necessidades artísticas - Nós queríamos, como um todo (dou todas as concessões aos casos individuais) fazer certo, e querer fazer certo é igual a não querer fazer nada, certo indica resultado, não conteúdo. E com isso tivemos que nos enfrentar.

Outras questão importantes que foram levantadas, como é comum em toda lavagem de roupa, foram a questão das notas e dos grupos. É interessante que ao fim da Escola SESC a turma faça grupos que continuem, como muitos, batalhando pela arte dos palcos. Entretanto meu apelo é que os grupos não virem panelas e que preservemos o grupo maior, admitindo os subgrupos, para não competirmos, para não nos degladiarmos quando poderíamos crescer e produzir juntos. Só isso.

E o outro foi a nota. Outra coisa vil. Entendo que os professores devam nos avaliar, mas como nós sofremos por causa dessas notas! Paremos, por favor, a arte não pode ser avaliada em números.

Realidade Cênica

25/05/09 - Sobe o pano. Hoje começamos a falar do realismo, mas não sem antes as considerações gerais tão interessantes que permeiam nossas aulas.

Aliás, nos relatórios das aulas prefiro mesmo me deter nas considerações gerais que no tema propriamente disso, isso porque os temas estão pontualmente registradas na apostila e nos livros da história do teatro, as considerações do professor são história fresquinha, vinda direta do forno. Inclusive noto uma mania ou um padrão na maneira como os gestores do Sesc se colocam em público na seguinte frase "Quero deixar aqui registrado..." sempre que vão falar alguma coisa, começam com a fase célebre, me pergundo, por que? Não creio que verei resposta.

Comçamos com puxões de orelha em relação à nossa leitura, semana que vem leremos "A gaivota", de Tchekov (acho que escrevi o nome dele certo, se não, deixo aqui registrada minha ignorância) para que essa leitura não seja enfadonha, como foram outras.

Estavámos todos muito nervosos com a apresentação de Grotowski no dia seguinte e passamos mais um tempo com Neemias tentando nos acalmar. E aqui vai uma consideração básica:

Eu sei que "Lab. de Interpretação I" deveria ser só Stanislavski. Dito isso é o seguinte: Mesmo que a escola Sesc tente preservar um certo 'academismo' é preciso admitir se há algum 'academismo', também falta algum. O interessante da diversidade entre cada professor não é a disciplina que eles ensinam, mas a pessoa em si, suas preferências, suas manias e generosidades, a maneira como ela encara o trabalho teatral e como ele influenciou sua vida.

Assim defendo com unhas e dentes a iniciativa de André de nos mostrar o seguinte: Eu nunca farei Stanislavski, nem Artaud, nem Grotowski, eu só farei Diogo Testa porque eu sou Diogo Testa. É importante estudar e conhecer o máximo possível. Mas o que passou é fonte, não fôrma. André nos pediu experimentos e nos quisemos dar espetáculo, outra lição importantíssima aí: Humildade, aceitação dos erros. Nosso medo de fazer 'errado' as cenas de André quase nos consumiu, e André veio para nos dizer 'não existe errado, existe teatro, e tentar já vale muito' esse tipo de conhecimento não tem preço.

Falando em realismo e mais precisamente em Tchekov uma das reflexões que tenho feito acerca é a frase do próprio é "escrevia Voudevilles e Stanislavski as transformava em dramas psicológicos" essa reflexão faço acerca da importância do encenador.

Assim como Stan, Grotowski transformou "Fausto" de Goethe, texto romântico, na sua própria estética, o galpão transformou Romeu e Julieta em teatro de rua. Zé Celso meche em tudo que toca, Antunes transformou as comédias de Nelson Rodrigues em peças míticas e as míticas em mais míticas ainda. Aí quando Neemias diz - o documento mais importante é o texto, eu penso 'cuidado'. Tudo bem que Neemias não fala do texto sem preconceitos. Ele sempre dá detalhes e características pontuais que identificam as montagens do período.

Não adianta, essa é minha reflexão, pensar teatro dramaturgia, na nossa contemporaneidade, ou pós-contemporaneidade ou seja lá o que for é claro que a dramaturgia é uma ferramenta na mão dos 'montadores', sejam eles atores, diretores ou ambos. E era sim desde sempre, só não tinha os nomes que tem hoje e pronto.

Não me recordo mais por qual motivo, mas durante a aula nos perguntamos: O que é kichute? Segundo a Wikipedia "Kichute é um calçado, misto de tênis e chuteira, produzido no Brasil desde a década de 70 ".

Uma das coisas que me chama a atenção no teatro do período é a relação universal x temporal, principalmente pelos textos de Tchekov e Ibsen. Isso também acontece em Shakespeare e nas tragédias gregas, mas volta com força aqui. No homem comum, não nos heróis históricos, como era antes, reside o que fala a todos, mesmo que ele seja colocado em uma situação do espaço/tempo que fale da situação social da platéia. A gaivota mesmo, enquanto existir teatro terá sua força. Jardim das Cerejeiras enquanto houver uma classe dominante e uma dominada e assim por diante.

De novo, em algum ponto da aula que ninguém sabe bem ao certo como, caímos na telenovela. Neemias diz que é bom usá-la como exemplo pontual porque todos conhecem a telenovela brasileira, portanto algo perto dos alunos. Verdade, acho difícil que um brasileiro, em algum ponto da vida não tenha contato com a telenovela produzida no país. Mentira, porque não acho algo proximo da maioria dos alunos. Entre faculdades, empregos e a Escola Sesc, acho difícil que existam muitos na turma que assistam telenovelas, portanto nem tão próximo. Desconfio, e faço esse comentário com certa maldade. Que as telenovelas estão mais próximas do professor que dos alunos. Não sei, posso estar enganado.

Mas sim, a telenovela chegou porque ela, em sua concepção cênica se aproxima muito do realismo no quesito que procura imitar com o máximo de fidelidade a vida real. Depois migrou para a acepção de telenovela como 'produto cultural', sujeito à tensões do mercado e da arte ao mesmo tempo. E daí começamos a discutir 'merchan', como chamam os Barbixas, grupo de comediantes constantemente evocado por Beto, Tiago, Mauro e Vila; da teledramaturgia brasileira, chegamos a imaginar um cenário onde não haveriam mais comerciais entre os programas, um cenário onde a propaganda já estaria tão culturalmente enraiazada na programação da TV que elas seriam simbiotícas, e não complementares, como são hoje.

Quanto à essa história de imitar a realidade com fidelidade ferrenha, Neemias também citou a peça "um sábado em 30" encenada pelo TAP aqui em Pernambuco. O texto tem traços muito fortes de racismo, e um casal de negros que assistia a uma apresentação saiu do espetáculo se julgando pessoalmente ofendido.

É isso, o negócio é esperar até semana que vem, a leitura.

dança contemporânea

21/05/09 - Sobe o pano no Apolo, o espetáculo é 'por um fio em lã', solo de dança com Juan Guimarães. O espetáculo foi concebido para trabalhar com o tema do aborto, agora achei que ele procura abstrair bem a temática da qual trata, há quem discorde, mas para mim foi abstrato.

Há vários jogos interessantes com fios, como metafora a linha da vida, há uma cena no final que remete à crianças, talvez no final o espetáculo entregue mesmo um pouco o jogo. Achei o dançarino bom, verdadeiro, depois,voltando para casa no mesmo ônibus que ele ouvi ele dizendo sobre entradas erradas e alguns improvisos e pensei o seguinte:

Engraçado como é ser público, no teatro já sou menos iludido, já fico mais crítico, mas na dança ainda sou bastante inocente e por várias vezes me ponho aberto para o que vem, seja o que for. Na verdade, fico triste pelas vezes que fico analisando peças, digo para mim mesmo "pára e assiste, Diogo, deixa de ser chato, ninguém merece" é verdade.

Interessante mesmo foi o debate depois, mediado por Sérgio Reis, figura muito interessante da qual falo depois. Foi uma grande rasgação de ceda; o interessante disso é a função social deste debate oferecido pelo Sesc depois do espetáculo.

Não defendo que ele seja exclusivo para a classe, de forma alguma, entretanto penso o seguinte - é um debate, um momento para trocar idéias e conhecer sobre o processo dos artistas, não é a hora dos agradecimentos, rosas e afins. Sei que não curarei esse mal com uma crônica, mas parafraseando os gestores do Sesc "deixo aqui registrado..."

Outro ponto engraçado é o que é dança e o que é dança contemporânea, isso porque 'por um fio em lã' diz ser dança, mas é montado com várias intenções do que seria 'dança contemporânea', mas não me aprofundar no assunto, não vale a pena.

Ah, foi isso, acabou esse relatório.

Crueldade

19/05/09 - Sobe o pano, dia da crueldade. Chegamos todos por volta das cinco horas, mas com o nervosismo, põe lona, prepara as bugigangas - e tivemos de tudo, pedaços de carne, uma verdadeira aquarela de tintas guache, carvão, incenso, máscaras, um pedaço de pau para Dolores, uma bacia, tesoura, merda, lanternas, sonoplastia, carvão... Enfim muitas coisas, fomos começar pelas sete da noite.

Primeiro foram Paulinha, Vila e Beto apresentando "Prostituta Respetitosa", de Sartre . Muito bacana, nos colocaram todos pra dentro pelos braços, Mauro (uma vez contra-regra, sempre contra-regra) fez o trenzinho na luz junto à Tiago na sonoplastia enquanto o trio repetia freneticamente frases soltas; as luzes se apagam e Evilásio aparece completamente sujo grudado na parede, como um desesperado; as luzes se apagam, eles nos tiram enquanto procuram por um ministro, um senador, algo assim; as luzes se apagam, Roberto estupra Paula no escuro; as luzes se apagam, Roberto é tingido de todas as cores (teoricamente, na verdade ele foi pintado de verde, como o incrível Hulk, fazer o quê). Fim.

A discussão proposta pelo grupo era sobre o racismo e as verdadeiras cores do ser humanos, achei muito bacana.

Depois fomos nós, eu, Thaísa e Felipe, nervosíssimos. Fomos fazer Édipo Rei. Deitamos todos, tentamos os importunar com a praga que dizimava Tebas, os sentamos e inquirimos, como Édipo, quem havia matado o rei, Tirésias surge e revela a verdade, todos se levantam e acusam Édipo até que ele se cegue.

Tentamos muita coisa e não deu certo quase nada, mas valeu a experiência. Queríamos levar o público, no primeiro momento, á um nível de desespero que o fizesse querer sair dali sem poder, queríamos assutar, fomos ridículos. Azar. Depois, não percebemos que manipular dezessete pessoas leva tempo demais.

O engraçado foram os feedbacks contrastantes. Alguns viajaram bastante, outros não. Enfim, cada um fez seu próprio espetáculo, dessa perspectiva foi válido.

Logo em seguida Tiago, fazendo "Marat Sade", de Peter Weiss, foi estranho, faltou acreditar no que se está fazendo. Mais importante que processo, nota, aluno, professor, cachorro ,gato, dar cambalhota, agradar, não agradar, é acreditar no que se está fazendo. E encontrar isso é a busca de uma vida.

A partir daí a ordem se perde em minha mente, mas acho que depois foram Biaggio e Camilla, com a "Obscena Senhora D.", de Hilda Hilst, a tal. Muito impressionante, entramos todos com Biaggio cheio de fita adesiva falando coisas estranhas e nos posicionando enquanto Camilla dançava loucamente em cima da mesa. Depois descobri que ela estava derrubando o convencionalismo da mesa posta, antes disso pensei que ela era uma striper mesmo. Muito bacana o texto e a maneira como eles brincaram com ele. Adorei a cena em que eles devoravam a carne. Não tem mais muito o que dizer, essas coisas são o que são e são muito válidas assim.

Depois Ju, Thaty e Guil em Álbum de Família. Aplauso para Ingrid, eu sei que as meninas se descabelaram para fazer a cena delas e foi muito bacana, o destaque de Ingrid foi como ela conseguiu contornar a neurose de Ju com as escapadinhas e enroladinhas de Thaty. A cena ficou muito bacana, com elas fugindo de medo da irmã no meio da noite, com malhas super finas, ui ui. Deram beijinhos na plateia, Noronha e Geraldo, para ser mais preciso.

Elas ficaram agoniadas porque não saiu "Artaud" mas no seu consolo eu argumento que a única pessoa que poderia fazer "Artaud" era Artaud, e nem ele se fez, portanto não sofram.

Depois... depois, quem foi mesmo hien? Acho que foi André Garrel e João Lobo, definitivamente a grande revelação da noite. João atuou de uma forma que surpreendeu a todos além dos limites do explicável, no mesmo Marat Sade, inclusive houve o primeiro nu do curso, com João tirando a roupa e entrando na bacia para ficar muito, muito doido. André estava na mesma onda, muito impressionante e saiu ameaçando a todos com uma tesoura para finalmente picotar o cabelo de João, numa paródia de Zé Celso, em "Para por um fim no juízo de Deus".

A penúltima foi DJ Dolores com Geraldo, novamente não foi Artaud, mas foi incrível. Geraldo colocou bosta para cheirar, mas só funcionou para quem estava em linha reta, quem estava nos lados não sentiu o cheiro, tanto melhor ou tanto pior, acho. Dolores se destacou, voz, energia, tudo, muito, muito bom vê-la em cena. Ah, sim, não sei qual foi o texto, depois descubro e corrijo.

Por fim Marquinhos, Noronha e Bianca em outro texto que não lembro. Muito interessante, foi uma cena tapa, Marquinhos, o pai de Bianca e Jailton saia, Noronha estuprava a irmã, o pai chegava, via a filha morta e estuprada e matava o filho. Muito forte, muito rápido. André criticou a dramaturgia.

Deixa eu falar meus pareceres sobre essa história de dramaturgia. Eu entendo perfeitamente que André nos direcione para textos seguros, isso porque somos principiantes e é melhor não arriscarmos em coisas ruins, já que temos interesse e potencial, porém é preciso ver a verdade de cada texto. O ideal é encontrar uma literatura respaldada que nos fale, mas se encontrarmos a verdade em coisas mas simples, também acho que não a devamos ignorar.

No geral, minha visão sobre o trabalho de Artaud foi - Uma liberdade muito maior e menos noiática sobre o ofício de atuar, não tem a ver com menos esforço, e sim com mais liberdade. A grande busca dum processo que vibre seu corpo todo, desde o dedo mindinho até o último fio de cabelo e a grande concessão poetica no palco, necessária a tornar nossa arte mágica.

Morgou

12/05/09 - Não teve aula, a fiandeiros foi apresentar. Evânia daria aula para apresentarmos a quarta etapa do trabalho com diretores. Mas ela não pode por motivos pessoais e morgou.

A dona da história

20/05/09 - Sobe o pano no Teatro Capiba. Evânia estava fazendo mais uma etapa do estudo dos diretores mas eu não atuei nem dirigi, sequer sei que texto foi que elas fizeram, depois corrijo. Eu fui assistir "A dona da história", texto de João Falcão dirido por Thom Galiano com Raphaela de Paula e Cátia Cardoso no elenco.

Eles se chamam 'Trupo Errante' e 'Pé Nu Palco', é o povo de Petrolina. Bem, antes de rasgar a ceda, algumas explicações.

Morei em Petrolina de janeiro de 2004 a julho 2007, dos quatorze aos dezessete, minha formação como homem começou lá, no sertão de pernambuco, terra de uva, de manga, de são francisco, de carranca, do colégio dom bosco, da igreja da matriz, do monumento da besteira, de juazeiro da bahia, da easycomp informática, da orla, da ponte, das ilhas, do samba de velho, dos matingueiros, do river shopping e também do sesc Petrolina, onde o bicho do teatro me mordeu.

Thom Galiano foi meu professor e é um dos encenadores mais inteligentes que já vi. Tudo isso se confirma no espetáculo, que conta a história dessa mulher que fica voltando para seu eu do passado mudar as coisas e melhorar seu presente; ou o seu eu do presente ouvir o seu eu do futuro e mudar as coisas para melhorar. Enfim é uma confusão, sempre é, João Falcão pega o crédito por isso.

Rapha e Cátia são realmente muito parecidas e estão maravilhosas, no debate após o espetáculo, mediado por Leidson Ferraz foi lembrado que na montagem original era usado um aparato enorme e complicado para fazer os efeitos de trangressão cronológica sugeridos pelo texto e aí entra a genialidade de Thom - com duas atrizes, dois pares de all-star, um violão e um degrau ele faz o trabalho de não sei quantos canhões de luz, esteiras, fundos falsos e afins.

Estamos estudando, ainda que por alto, o teatro pobre de Grotowski e não apenas esse, mas os outros trabalhos que conheço de Thom, como "pararupara", "Fatias de um defunto", "eu chovo, tu choves, eles chovem..." já me mostraram como um teatro pobre é imensamente mais rico que qualquer mecanismo que se traz ao palco.

Outra coisa que pensei ao assistir é como precisamos dissociar a conceito de ator de qualidade de atores globais, duas ilustres desconhecidas do interior de pernambuco, por uma hora e meia fizeram a mim e a platéia ir do riso ao choro e de volta ao riso como uma mágica inexplicável. Assim como o espetáculo de Januzelli, "o porco", ou o espetáculo de conclusão de uma turma da federal de brasília "Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo" ambos trazido ano passado pelo palco, mostra que assim como existe um "cinema de arte" existe o "teatro de arte". É um termo feio, sei, mas ilustra bem a questão.

E com isso um puxão de orelha para a produtora de João Falcão, que limitou o número de apresentações por querer produzir o texto com "atrizes globais" ao invés de investir no que está aí, bem feito e pronto para ganhar a visibilidade que merece, que vergonha.

A Nau Naufragada

18/05/09 - Sobe o pano. O espetáculo "Viva a Nau Catarineta" do GRUDAGE, que estava pautado pelo palco giratório para o dia seguinte passaria essa segunda no Sesc de Piedade para fazer uma visita aos alunos da escola Sesc. Claro, ninguém lembrou que é maio, que semana passada choveu quase todo dia, o espetáculo é teatro de rua e o sesc não tem estrutura coberta para teatro de rua.

Enfim choveu. A turma do GRUDAGE ficou lá embaixo tirando um som e nós tivemos que ter aula. A pegadinha é que prof. Neemias preparou a aula imaginando a hora, hora e meia que perderíamos assistindo o espetáculo e convesando sobre ele. Enfim, foi uma aula mais devagar...

Nós fizemos a avaliação do andamento das aulas responde as seguintes perguntas:

1 - Como estou escrevendo minha história no teatro?

2 - Como estou sendo orientado para isso?

Depois trocamos e fomos lendo uns as dos outros em voz alta. Engraçado como cada um se olha. Ouve muita rasgação de ceda para o lado do professor Neemias, que acho meio sem por quê. Neemias é barbado e ele sabe a qualidade do que faz.

Foi engraçado ver como há os humildes, que admitem com a tristeza dos desiludidos que não escreveram história nenhuma, há os que saem contando os títulos, há os metafísicos, que buscam refletir o que realmente ficou das coisas feitas e há os loucos.

Ver isso me deixou profunda uma marca do perfil da nossa turma, que é uma turma jovem, muito crua de teatro ainda, e extremamente ambiciosa, é curioso ver como todos se punem por não estarem em palcos dando o sangue, como há um clima de frustração por estarem juntos tantos atores a procura de um espetáculo (pirandello); pensei agora que esse povo precisa é gozar mesmo.

Nisso lembro uma coisa importante que Neemias vive dizendo - usem esse espaço para experimentar, para aprender praticando coisas ao invés de ficar louco com milhões de coisas.

Inclusive eu, quando começei a reponder as perguntas quis ser o "esperto que sabia o que era história" e ia mostrar minha história pelos registros que tenho dela, as mensalidades do curso, os programas das peças que já atuei, os certificados dos cursos que fiz e com isso tudo só ia mostrar o metido que sou.

Fiz diferente, e aí é a prova da interferencia de titio Neemias, em vez de sair contando documentos olhei com olhar crítico as coisas que já fiz e vi que estive desesperado, querendo fazer, fazer, fazer para acertar.

De repente agora na escola Sesc estou aprendendo a fazer pela necessidade artística, fazer não por fazer, mas fazer porque é necessário. A necessidade é crucial para qualquer ator.

E com isso também estou aprendendo a me livrar das coisas desnecessárias, mas aos poucos, que sou muito egoísta ainda.

Imagens que não explodiram

14/05/09 - Dia de ir ver Imagens não explodidas no Apolo, não pude, sorry.

O sol e a Janela

13/05/09 - Sobe o pano no Barreto Junior. É a peça de nossa queridíssima professora Evânia Copino, "quando o sol vem a janela", da Trupe Cara e Coragem, direto do Cabo de Sto. Agostinho. Direção e dramaturgia de Luiz de Lima Navarro, direção musical de Zé Caetano e Evânia Copino (oh) e Nice Albano no elenco.

O espetáculo é baseado na história da mãe de Luiz, o diretor, que tem a doença de alzheimer. Na dramaturgia as personagens são Guida, interpretada por Evânia, que tem a doença e Amélia, interpretada por Nice Albano, mulher de Guida, que cuida da enferma e busca desenterrar-lha as lembranças em seus últimos momentos.

Não é porque Evânia é minha professora não, é porque eu achei lindo e me comovi com o espetáculo. É curtinho, uns quarenta minutos de extrema delicadeza em que as duas atrizes, falam, entrecortado a lindas canções de todos os tempos e lugares, o imprescindível.

A cena procura retratar as quatro fases da doença, a saber:

1- perda de memória recente, desvio de atenção, apatia.

2- agnosia e apraxia, perda de memória, empobrecimento do vocabulário, dificuldade de expressão, disfunções motoras.

3- Ilusões, incontinência urinária, ataques nervosos, perda da memória a longo prazo e vocabular.

4- Fase terminal. O paciente fica completamente dependente de cuidados, quase inexpressivo e sem memória.

Nessa última fase ocorre um dos momentos mais poéticos do espetáculo - quando Guida, num momento de lucidez, se recorda da companheira pouco antes de morrer.

Destaque importantíssimo para Nice Albano, que canta como um rouxinol e fez por onde na sua primeira experiência como atriz.

Bem, agora que eu já rasguei ceda deixa eu pensar um pouco. Primeiro notei uma diferença entre Nice e Evânia no palco. Nice não atua mal nem soa falsa, mas existe algo de intangível na experiência que é sensível no palco.

Outra coisa é como cantar na personagem, dificuldade levantada por Nice no debate. Quando foi cantar as primeiras musicas realmente retirou toda a postura e partitura vocal de sua personagem para assumir o tom e posturas corretos para se cantar; mas quando foi cantar as canções de vários lugares do mundo, para relembrar Guida das viagens que elas fizeram ela assumiu uma personagem e cantou na personagem.

Sobre isso faço as seguintes considerações - 1 - É mais fácil e mais bonito atuar quando assumimos que estamos atuando, ao invés de esconder. Digo isso porque quando ela sabia que teria que fingir, assumir sotaques, posições e expressões que remetessem a diversos lugares do mundo ela fez com extrema naturalidade e simplicidade.

Isso é uma dívida psicológica que talvez nós, atores, possamos abandonar. Ser outra pessoa no palco nunca será tão bom quanto fingir ser outra pessoa, na prática e fisicamente isso não muda nada, é uma questão da mentalidade com que o ator vai a cena. Ele deve ir leve, sem nenhuma preocupação em enganar as pessoas, muito pelo contrário, o ator deve saber que vai à cena levar a verdade. Isso é muito bonito.

Nisso talvez eu faça uma ressalva ao espetáculo - por vezes eu vi um esforço das atrizes para fazer a cena, principalmente de Evânia. Entendo que faz parte da natureza do papel, difícil pela questão delicada que ele aborda; entretanto o papel pode ser evoluído ao ponto da completa naturalidade até nas partes mais tensas, até mesmo porque a personagem de Guida não faz força para ter ataques, ou esquecer e lembrar, ela já é escrava da própria loucura, portanto quanto mais natural ela soar, principalmente nos momentos de clímax, melhor.

Outro detalhe que me chamou a atenção depois foi a maquiagem de Evânia, com lápis em cima duma base pálida para marcar o rosto de velhice, é a segunda vez que vejo esse recurso, imagino que não seja nenhuma novidade, mas gosto da plástica dele.

Pronto, já pensei o que precisava. Para fechar registro que chorei, foi muito lindo, saí do teatro com aquela sensação engraçada no peito.

Woyzec

11/05/09 - Sobe o pano. Principalmente para os românticos. Mas antes de chegarmos neles falamos de muitas coisas, entre as quais:

- Fecha dos teatros no período Isabelino. Não sei se ocorreu em outros lugares, mas tenho certeza que ocorreu na Inglaterra, de 1642 a 1660, pelos puritanos, na guerra que instaurou o poder do parlamento maior que o do Rei, na época Henrique VIII, o mais safado dos reis, ou pelo menos um dos mais explícitos na sua safadeza; quase dois séculos antes da revolução Francesa, vai entender a história. Já que o rei pagava o teatro, fecharam o teatro até o rei não pagar mais nada sem aprovação do parlamento.

- O projeto "a escola vai ao teatro" o nome parecido, que acontece às quartas, no Barreto Júnior, para os alunos dos colégios do Pina. É uma tendencia ser preconceituoso com o cidadão do Pina, alguns dos jargões pouco polidos usados para descrevê-los são mundiça, ralé, almas sebosas e por aí vai. Infelizmente quando eles chegam no teatro, nove em dez provam a raíz do preconceito - são barulhentos e pouco polidos - Foi levantada uma questão importante: além de peças, era preciso usar desse espaço no teatro para discutir e comparar a atitude dos alunos com a atitude desejada do público com a importância de se assistir à produção de arte e cultura e tudo mais. Nada disso é discutido e os alunos do Pina continuam levando a má fama.

Depois, com a ajuda do professor Almir, cujo sobrenome desconheço por hora e que nos fez companhia na aula ficamos sabendo o impressionante conhecimento teledramaturgico dos professores. Um barato ver como Neemias concegue explicar pontualmente a história do teatro mundial em comparação com a teledramaturdia brasileira. Brincadeirinha.

Por exemplo, usando como referência novelas, vimos claramente algumas das principais características do romantismo e do realismo, através da construção das novelas em voga nos dias de hoje. O romantismo na construção das personagens e o realismo na estética da montagem.

Tiago levantou as relações entre o melodrama e o melodrama circense, eis o que diz a wikipedia, fonte de pesquisa mais rápida que disponho:

"Circo O melodrama apresentado no circo brasileiro é uma forma constante de manifestação teatral circense que pode ocorrer entre as atrações do circo. De certa forma segue algo do estilo do melodrama teatral do final do século XIX, desenhado em ações, com conflitos polarizados, através de uma dramaturgia simples, baseada em conflitos familiares, atuado de uma forma grandiosa ou exagerada, tendo em vista os padrões de interpretação atuais que sublinham o natural."

Depois fomos ler Woyzec. Tenho uma dúvida que não manifestei em sala de aula: Neemias disse que o texto romântico dialoga com o divino. O que em Woyzec dialoga com o divino? Ele também disse que Woyzec já mostra uma transição, então me pergunto se o autor não teria abandonado esse aspecto nessa transição?

E ainda acho que essa linguagem fragmentada lembra o surrealismo, até mesmo Artaud.

Tivemos uma gaiola das loucas mais que especial com Thaty e Bianca dançando Mamonas e fechando.

Neemias teve a bondade de reservar o final de sua aula para falarmos de Artaud, que vinha rasgando as cabeças de todos nós com questionamentos do tipo "Como faço esse troço?". Para meu grupo, Thaisa e Felipe, nos lembrou da perspectiva do sonho, da exposição ridícula do ser e da visceralidade.

O dia que não fui

07/05/09 - Sobe o pano. Mas eu faltei, então lanço o desafio, quem se dispuder a escrever escreva.

Com shakespeare.

06/05/09 - Sobe o pano. Mas dessa vez de verdade, no teatro Barreto Júnior, onde a turma foi convidada a assistir o espetáculo 100 shakespeare, do grupo Pia Fraus, meus conterrâneos de São Paulo.

Uma coisa me chama muito a atenção no teatro paulista - excelência técnica e falta de identidade. O que é falta de identidade? É resultado de um ecletismo excessivo. Paulistas fazem de tudo, o que eu me pergunto é: porque eles não fazem as raízes deles? E em São Paulo descobrir sua raíz é literalmente, caçar um agulha num palheiro. Não ouço regionalismo paulista. Pela contrário, um grupo competentíssimo de São Paulo - como são todos os que vêm para cá - usou Gilberto Freire, assombrações do Recife Velho. Quero dizer, onde está o regionalismo deles? Não é uma crítica de forma alguma, até porque a qualidade deles não me deixa criticá-los, mas um indagamento que acho pertinente. A cena Recifense, por outro lado, tem muitas pessoas fazendo, e bebendo em raízes e sendo "popular" ou "armorial" ou "pintoso" mesmo mas toda essa riqueza se torna estéril na mão de artistas sem qualidade técnica. Ver os grupos paulistas me leva a essas reflexões.

Bem, 100 shakespeare se vale, na verdade, de apenas 43 bonecos e diversas formas de manipulação, são tantos bonecos que não é necessário cenário, basta deixá-los ali que o palco se preenche de vida. Ingrid levantou que a expressão dos bonecos é sombria, quase grotesca, conferindo à encenação com eles uma espécie de surrealismo. Enquanto assistia não pensei nada disso. Pensando agora creio que se eles fossem mais bem feitos seriam menos humanos.

Os atores, no debate depois do espetáculo - gostaria de saber o nome do mediador, uma figura engraçadíssima - os atores usaram muito o termo 'imagético' para descrever o espetáculo, não creio que a palavra exista, mas gostei muito do neologismo, achei-o bastante 'imagético'. As cenas representadas vieram de nove peças do dramaturgo inglês e para 'sonho de uma noite de verão' os atores escolheram uma cena ambígua, diga-se de passagem, com cavalos e pênis enormes que deveria aparecer na luz negra, para não ficarmos prestando atenção demais nos seus pênis, mas a luz negra falhou e ficamos lá prestando atenção nos pênis e refletindo a profundidade humana de um pênis de cavalo.

Minha principal crítica desse espetáculo, assim como todos os espetáculos de "linguagem" é que são muito bonitinhos mas não dizem muita coisa. Eu, como público, tenho ânsia de algo humano na representação, na absurda e estúpida necessidade de comunicação do ator, que é uma das grandes garras, que é uma força inexplicável que nos põe em contato com nós mesmos. Esse mais íntimo, mais profundo do teatro não havia nessa representação; era bom de se ver, era bem feito, mas nesse aspecto, estéril. Enfim gostei.

Bichos de Sete Cabeças

05/05/09 - Sobe o pano. Começa a aula com a última apresentação de Vila e Thaísa, em um bonde chamado desejo. Vila prometeu que jogaria as bijouterias de Blanche em cima de André Filho. Não foi o que ele fez, mas melhorou muito, agora Vila estava mal, quase tão mal quanto Marlon Brando, quase tão mal que ele era gostoso, dominador. Thaísa manteve a qualidade do trabalho sem grandes mudanças. Vila quase gritou, isso me deixou incomodado um pouco, queria que ele tivesse gritado, pelo menos uma vez.

Depois a cena final de Beto e Guil. André atentou para a importância dos trabalhos no momento de silêncio, onde Beto deveria entrar, olhar, pensar, e não atirar o texto logo de cara. Desafios, são tudo desafios. Ingrid trouxe cores novas para a personagem e isso nos surpreendeu a todos, a fazendo mais ironica, mais ácida e mais falsa, entretanto a achei monocromática desta forma. Uma personagem deve ser uma mistura de cores, um processo monocromático deve ser muito bem pensado e calculado e creio que não caberia no que ela e Beto se propuseram a apresentar.

Depois fomos conversar de Artaud e Grotowski, os bichos de sete cabeças. Eu falei uma porrada colocando todos os grilos do momento para fora. Foi bom para externar. Depois André respondeu a minhas perguntas com perguntas, típico dele.

Então fizemos dois exercícios de "vislumbre", como ele chamou. No primeiro de olhinhos bem fechados, à la Kubric, nós andamos e tateamos a vontade, tateamos peitos, bumbuns, pe... quer dizer, rostos, peles, cabelos, enfim; a fim de explorar nosso sentimentos perdidos... E num segundo momento gritamos a vontade o que vinha na cabeça, num processo Artaudiano, mas só para desopilar mesmo. Veremos no que isso vai dar daqui a duas semanas, já que semana que vem a Fiadeiros viaja para apresentar o 'Outra vez...' em algum lugar aí, boa apresentação para eles.