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Recuperação

08/07/09 - Sobe o pano para a recuperação de Evânia. Eu tinha tentado ensaiar a 'interface' antes, mas por já que metade do meu grupo estava na recuperação e a outra doente (eu inclusive, descobri depois) não pudemos, fiquei tomando sorvete com Mauro e Paulinha até o horário da aula.

Na aula mais surpresas. Muita, muita gente doente, mas a recuperação não estava nem aí para as doenças dos outros.

A primeira a tentar se recuperar foi Ju, com Shakespeare; mas acho que não dei certo. Os trabalhos todos para a semana somados a sei lá mais o quê resultou num trabalho feito com pressa que não funcionou em sala de aula. Para a cena também não aconteceu muita coisa, ela leu um trecho de Romeu e Julieta (ela não me deixou fazer Romeu, que eu queria tanto...) e fim.

Evânia, fazendo perguntas para tentar ajudá-la a desenvolver a pesquisa dela levantou uma coisa interessante: Shakespeare como insurgente. Neemias diz que ele não existe, Evânia que ele foi um 'revolucionário' (ela não disse isso desse jeito não, eu amentei com licença poética) que nos seus textos, mostrava os podres da nobreza. Fiquei pensando o seguinte: Primeiro ele trabalhava para a nobreza, depois ele nunca atacava diretamente, então se ele fazia, fazia na surdina, o que não é nenhuma novidade.

A outra coisa que pensei foi: Na época não se falava do homem comum, não se escrevia peças sobre gente simples, só sobre gente importante: Nobres, personagens históricas; e como toda história tem que ter conflito, se não a peça não rola, então é claro que ele tem pôr defeitos na nobreza. Não sei se vejo a obra dele tão insurgente assim, principalmente quando há relatos que a Rainha vivia bancando ele. Tudo bem que a Rainha Elizabeth é conhecida por ter sido excêntrica e sem papas na lingua. Enfim o questionamento fica suspenso.

Depois foram Dolores e Geraldo nos dar uma prova de amor - Dolores e Geraldo, não sei dizer se os dois estavam de recuperação e fizeram juntos ou se um ajudou o outro, sei que foi junto e ponto. Ah, e o tema foi Sófocles, com Édipo rei. Geraldo falou bastante e trouxe um questionamento massa, que é assim:

Sófocles contribuiu para a segunda 'fase' do teatro grego - e por segunda fase entendemos que ele introduz entre os homens e os Deuses conflito - Os homens ainda devem obedecer aos Deuses, mas ele já podem questionar, eles já podem desafiar - e encarar as consequencias - mas antes a obediência era a lei. Na verdade, antes os homens quase não eram protagonistas das tragédias - Prometeu, Bacantes - Os deuses eram os personagens principais, na segunda fase os homens ganham mais espaço, um espaço que 'históricamente' só é firmado no renascimento, quando os Deuses ficam quase completamente escanteados.

Agora a lição de amor da apresentação de ambos foi: Dolores tem uma vida corrida e não pôde dedicar à recuperação o devido tempo, Evânia percebeu, ficou aquele clima chato onde todo mundo não se encarava direito... E Geraldo usou de todas suas forças para empurrar Dolores para frente, usou dos truques e artifícios mais óbvios imagináveis para ajudar Dolores a passar na recuperação. Dolores desistiu antes de começar; se culpou por não ter se dedicado mais.

O próximo seria Biaggio com o teatro do Absurdo, mas eu estava muito doente e tive que ir embora. Fiquei pensando no dilema ético do professor numa hora dessas e como tudo fica amarrado no aluno: Evânia deu quatro trabalhos para nos avaliar, para quem não conseguiu, seja por falta, seja por nota, houve trabalhos de recuperação. Ou seja, ela deu todas as chances. Mas se o aluno não aproveita nenhuma das oportunidades?

O curso do Sesc não tem, em hipótese alguma, caráter eletista ou de exclusão - muito pelo contrário, é um curso de Teatro, por Deus! Mas existe um compromisso ético, porque quando você diz que uma pessoa está formada num curso, ela precisa estar formada. O que fazer?

A solução encontrada pelo Sesc é boa - Fazer de novo as cadeiras reprovadas. Mas que ainda é uma cruz triste que como curso a escola Sesc tem e deve carregar. É.

Os ratos comeram os homens e morreram todos envenenados

01/07/09 - Sobe o pano. Ninguém sabia o que Evânia faria na aula. Agora todos sabem.

Primeiro ela vez alongamento, aquescimento com o pega gato e rato em duplas, o que rendeu muitas risadas e uma queda linda de Juju no chão.

Depois nos divulgou as notas... uiuiui... Bem, a maioria passou, mas quem não passou por nota tem que apresentar um seminário para a semana e quem não passou por falta tem que fazer a análise de dois espetáculos da cidade e trazer e entregar, quem não passou pelos dois faz os dois. Bonitinho, não é.

Num segundo momento lemos outro texto de Brecht, O Mendigo ou o Cão Morto, ou como Evânia batizou a partir de uma frase célebre do texto "os ratos comeram os homens e morreram todos envenenados" legal, não é?

O texto é muito bom, também me pegou, fiquei com vontade de interpretar. Trata de um rei que se depara com um mendingo cego e se depara com a própria cegueira intelectual. Faz você refletir sobre milhões de coisas, sobre o que é mais importante: a vitória de um rei ou o almoço de um faminto?

Nós lemos o texto e depois o matraca fez um ensaio do texto para a gente ver. Muito bacana o trabalho deles, dialogam principalmente, pela leitura que fiz, com a dialética e o teatro pobre. Todos muito gostosos de se ver em cena - Lele, Ju Garrafinha, Viva, Maurício e Catarina. Depois de o assistirmos começamos a conversar sobre o texto. Tivemos vários 'vran' no debate - começamos com a questão da cegueira do mendigo não estar pronta, queríamos saber se era proposta ou não foi feito ainda; não foi feito, mas será, a idéia é que ele seja cego - Depois partimos para a questão do humor no texto, do riso que te puxa metade da boca e te faz pensar "porra, tô rindo disso?" não porque é ruim, mas é porque é trágico, não deveria ser tão engraçado...

O texto tem reflexões muito boas, como a dos ratos, a de Napoleão - que não era um rei, mas um marinheiro de cabeça excepcionalmente grande... Enfim.

Depois eu puxei a discussão para o trabalho de ator. Como o texto é interpretado por vários atores nos mesmos papéis, puxei uma discussão sobre como esse rei seria o mesmo rei nas três personagens, mesmo que em momentos diferentes.

Não é bem uma solução, mas eu senti uma vontade estética de ver algo que relacionasse os reis. É claro que é o mesmo rei, mas são personagens diferentes do mesmo rei. Enfim, uma confusão. Claro, eles só tiveram dois ensaios, por isso que não houve a afinação da personagem do rei, com o tempo isso virá com naturalidade. Chatice minha mesmo.

Arena Uzona Oprimida

17/06/09 - Sobe o pano lá pras quatro da tarde. Eu, Beto, Thaty, Villa e Mauro tínhamos que preparar a cena para o Teatro de Arena, nosso assunto no seminário de Evânia para a noite.

O teatro de Arena foi um grupo de teatro profissional que foi na contramão de grupos profissionais que escanteavam um pouco o trabalho dos dramaturgos nacionais, além disso era um grupo de forte tendência comunista e de lá surgiram grandes nomes como o Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri, José Renato, Flávio Migliaccio e principalmente foi o laboratório onde Boal começou as experimentações que culminariam no teatro do Oprimido.

Nós ensaiamos uma ceninha em cima de um poema de João Apolinário, chamado "é preciso avisar" e pontuamos bem direitinho como cada um ia abordar o tema.

Curiosidade é que Beto e Mauro não conheciam a música "para não dizer que não falei das flores" de Geraldo Vandré; música que usamos e eles tiveram que aprender (pelo menos o refrão) na tora.

Quanto às apresentações, primeiro fomos nós mesmos, fizemos a cena em cima do poema e falamos sobre o teatro de Arena. Legal como algumas pessoas participaram do debate, discutindo coisas como o alcance político de teatro e os limites entre ambos.

Inclusive conto um caso de boal. Eles foram apresentar uma peça para o MST e na peça eles usavam fuzis de mentira. Então o lider do grupo, depois de assistir convidou os atores todos para fazer uma invasão, Boal disse que não, que os rifles eram de mentira e o líder disse que arranjaria rilfes de verdade para eles. Daí em diante Boal começou a rever o que era teatro político...

Depois de nós foi justamenteo o grupo que falou de Boal, eles focaram no teatro do oprimido e fizeram uma apresentação com o texto sendo enrolado em Marquinhos, muito bacana.

Quanto as conversas de Boal, o teatro invisível foi o que mais chamou a atenção de todos. Porque num primeiro momento Thaysa sugeriu que depois os atores revelariam que na verdade foi tudo uma encenação. Depois Evânia desmentiu, dizendo que na proposta de Boal, a coisa seria toda feita na surdina, sendo que o público jamais saberia que foi ator de uma provocação teatral. Começamos a discutir muito sobre isso. Biaggio levantou algo muito interessante - Que Boal fazia teatro pelos outros mesmo, nunca para si. Pois numa proposta como a do teatro invisível, o ator não tem glória, não tem registro, não tem nada para ele, só a provocação que ele faz no outro. Boal é realmente muito mais sociólogo que diretor. Não porque ele não era diretor, porque ele era, e ao que tudo indica, muito bom. Mas o foco de seu trabalho é muito mais pela arte como instrumento social que pela arte como arte.

O que fiquei pensando foi na teoria de Thaysa - As pessoa tendem a se desvincular emocionalmente do que lhes desagrada. Um teatro invisível que depois mostre para o público, aquele que se desvinculou, que aquilo era teatro, que aquilo do qual ele não quis participar era uma provocação. Uma outra forma de sacudir, de quebrar os preconceitos.

Não tivemos Brecht sei lá por que, no fim tivemos o 'oficina uzinauzona', a maluquice de Zé Celso, também muito importante no teatro nacional pela luta de identidade, liberação face à opressão e, tchan, tchan, tcha, tchan, as dionisíacas. Guil, uma das pessoas do grupo, é fã assumida de Zé Celso. É muito interessante colocá-los ao lado do Arena para ver como a questão política não tem nada a ver com a partidária. A questão partidária, muitas vezes, cega a política.

Li isso numa critica sobre Tchekov, que foi criticado na Russia por não ser comunista militante. A critica alertava que quando se vê as massas por ideologias e se esquece das individualidades que a compõe tem apenas ufonismos e demagogia. E o teatro de Arena tem um pouco disso. Desse cegueira ideológica; apesar que se for para apresentar aspectos duvidosos, o Oficina tem em demasia liberalismo e um certo panfletarismo. Mas não sei... acho a busca deles por expressão própria mais legítima que a do Arena, não sei...

Distanciamento

10/06/09 - Sobe o pano. Deveríamos ter a apresentação dos seminários de Brecht e Boal hoje, mas devido ao tempo excessivamente curto e os outros compromissos de todo mundo, adiamos todos os seminários para semana que vem.

Hoje fizemos um exercício em cima da função do distanciamento. A turma foi dividida em quatro duplas - Vila e Bianca, Ju e Tiago, Paula e Garrel, Dolores e Mauro e Thaysa e Noronha, eu fiquei de Narrador e a história se chamou "para todo o sempre". A primeira dupla casava na maior felicidade, a segunda representava o casal, um ano depois, distantes, indiferentes; a terceira representava o casal dois anos depois, brigando, culminando com violência física; o terceiro era um 'à parte' onde cada ator falava o que pensava do outro antes do casamento; e a última dupla mostrava a mecanização da desgraça desse casal. Entre cada dupla eu fazia uns comentários débeis que não tinham nada a ver com a verdade, no melhor estilo do speaker, de 'Álbum de Família'.

Infelizmente não tivemos público, fizemos para Evânia e Guil. Através do exercício Evânia buscou nos mostrar que o distanciamento não é uma coisa estranha, mas um recurso estético que busca quebrar o involvimento do público com a cena nos momentos de clímax para que ele pense, para que ele reflita. Tão simples e tão complicado, não é?

Muito interessante o recurso usado por Thaysa e Noronha para mostrar a mecanização, rodando em volta de si mesmos e repetindo os mesmos tristes périplos. Lembrei do teatro pobre ao ver aquilo, como um ator sozinho, com coisas simplíssimas, faz o tempo avançar e retrosceder diante de nossos olhos.

Ficou curtinho essa, mas vai assim mesmo.

Claro!

03/06/09 - Sobe o pano. Dia da última etapa do trabalho dos diretores, o texto foi "Claro" de David Ives. Mas antes dele ouvimos músicas de Chico Buarque e lemos poemas sobre a época da ditadura e os movimentos artísticos contra a censura. Temas de nossos próximos trabalhos.

Não pudemos muito assistir uns aos dos outros, porque fizemos tudo de uma só vez, entretanto posso falar um pouco sobre o que percebi enquanto atuava (sim, enquanto atuava fiquei olhando para ver o trabalho dos outros, não tenho ética nenhuma) e sobre as discussões depois da cena.

O texto, a título de introdução, narra a história de um casal que vai errando e voltando no texto até conseguirem um final feliz.

Começaremos por Ju, que dirigiu Tathy e Jailton. Noronha como sempre muito bom, com um tempo excelente de comédia, fez um namorado machão. Na discussão se valou que às vezes a relação tempo x qualidade não é diretamente proporcional, outros fatores podem ser levados em conta, ainda que quanto mais tempo maior a qualidade, muito tempo não significa necessariamente qualidade. No caso de Ju, mesmo com poucos ensaios a cena ficou boa. Isso porque a diretora não foi pretensiosa e ao assumir todos os encalques do processo, ganhou sustentabilidade na cena.

Depois Paula, que dirigiu Thaysa e Mauro. A grande pergunta de Evânia era se Paula teria o pulso para dirigir amigos, mas Thaysa e Mauro são tão generosos que mantiveram o respeito durante todo o processo. É muito interessante você calçar os seus sapatos e se entender quando ator, como ator, obediente, ainda que criativo; e quando diretor, diretor, detentor da palavra final, responsável (mais que o ator, não quero dizer que o ator não precise ser responsável) seguro.

Coisa interessante foi o momento de Paula dar a nota, ela quis se comparar com Peter Brook para decidir que número se dar. E a gente dizia "não sofra, minha filha" e ela "mas eu não tenho tanta certeza se está bom" enfim a nota que ela se deu foi baixa mas acho que Evânia vai relevar.

Biaggio me dirigiu com Bianca. Primeiro vou falar de Bianca, menina super generosa, adorei contracenar com ela. Quanto ao trabalho de Biaggio, foi o único que tentou desconstruir um pouco a cena, com umas 'esquisitices' (não são esquisitices de verdade, são proposta, ahauhauahuah). Mas no resto ele foi um ótimo diretor, nos orientado durante o caminho.

Ingrid dirigiu Doloros e Tiago, mas Tiago não pode ir à aula, e Guil, num ato de extrema coragem nos moldes de 'o show tem que continuar' assumiu o lugar de tiago com bigodes e trejeitos de homem para fazer par à Dolores. Outra coisa foi marca ousada de pegar nos seios de Dolores, que constrangiu muito Tiago durante os ensaios, o que mostra a necessidade de confiança entre as partes envolvidas no fazer teatral.

Camilla dirigiu Beto e Marcos que fizeram um par gay muito lindo. Roberto como sempre impressiona pela feminilidade bonita que ele sabe fazer, Marquinhos é mais atirado, azar. Uma coisa interessante foi Beto achar que Camilla talvez tivesse dificuldades em dirigir a cena por não identificar nele muito o tempo do humor. Quebrou a cara, Camilla fechou.

Findo o debate sobre a cenas Evânia nos avisou da última etapa de nosso curso - seminários sobre Brecht, Boal, Teatro de Arena e Oficina para as próximas semanas. Vamos ver no que vai dar.

O poder dos Deuses. Será?

27/05/09 - Sobe o pano. Evânia infelizmente não pôde dar aula. Acho que foi saúde. Quem estava lá para nos aparar foi professor Almir, figura interessantíssima. Que nos aqueceu corpo e mente com um exercício de interpretar de olhos fechados algumas das características mais gostosas ou marcantes de personagens célebres, como Medéia, Maria Antonieta e outros...

Foi muito, muito gostoso, porque pudemos interpretar livres de muitos de nossos preconceitos em relação à interpretação, como exercício da fase de preparação da personagem, acho um instrumento muito bacana. Depois fomos ensaiar para a apresntação dos diretores semana que vêm.

Biaggio está dirigindo a mim e Bianca, passamos o texto, vimos algumas marcos, trabalhamos intenção, um trabalho super tranquilo...

Por fim Almir reuniu a turma e fez um exercício com Noronha. o fez ficar parado o encarando e pouco a pouco, bem devagarinho, interpretou a agonia de um choro. Foi muito forte realmente. Ele me contou que da outra vez a pessoa que o ficou vendo chorou junto. Noronha não chorou, mas de fato sua performance nos tocou a todos. No final ele disse "Estão vendo. É o poder de um Deus" Interessante não?

Morgou

12/05/09 - Não teve aula, a fiandeiros foi apresentar. Evânia daria aula para apresentarmos a quarta etapa do trabalho com diretores. Mas ela não pode por motivos pessoais e morgou.

O sol e a Janela

13/05/09 - Sobe o pano no Barreto Junior. É a peça de nossa queridíssima professora Evânia Copino, "quando o sol vem a janela", da Trupe Cara e Coragem, direto do Cabo de Sto. Agostinho. Direção e dramaturgia de Luiz de Lima Navarro, direção musical de Zé Caetano e Evânia Copino (oh) e Nice Albano no elenco.

O espetáculo é baseado na história da mãe de Luiz, o diretor, que tem a doença de alzheimer. Na dramaturgia as personagens são Guida, interpretada por Evânia, que tem a doença e Amélia, interpretada por Nice Albano, mulher de Guida, que cuida da enferma e busca desenterrar-lha as lembranças em seus últimos momentos.

Não é porque Evânia é minha professora não, é porque eu achei lindo e me comovi com o espetáculo. É curtinho, uns quarenta minutos de extrema delicadeza em que as duas atrizes, falam, entrecortado a lindas canções de todos os tempos e lugares, o imprescindível.

A cena procura retratar as quatro fases da doença, a saber:

1- perda de memória recente, desvio de atenção, apatia.

2- agnosia e apraxia, perda de memória, empobrecimento do vocabulário, dificuldade de expressão, disfunções motoras.

3- Ilusões, incontinência urinária, ataques nervosos, perda da memória a longo prazo e vocabular.

4- Fase terminal. O paciente fica completamente dependente de cuidados, quase inexpressivo e sem memória.

Nessa última fase ocorre um dos momentos mais poéticos do espetáculo - quando Guida, num momento de lucidez, se recorda da companheira pouco antes de morrer.

Destaque importantíssimo para Nice Albano, que canta como um rouxinol e fez por onde na sua primeira experiência como atriz.

Bem, agora que eu já rasguei ceda deixa eu pensar um pouco. Primeiro notei uma diferença entre Nice e Evânia no palco. Nice não atua mal nem soa falsa, mas existe algo de intangível na experiência que é sensível no palco.

Outra coisa é como cantar na personagem, dificuldade levantada por Nice no debate. Quando foi cantar as primeiras musicas realmente retirou toda a postura e partitura vocal de sua personagem para assumir o tom e posturas corretos para se cantar; mas quando foi cantar as canções de vários lugares do mundo, para relembrar Guida das viagens que elas fizeram ela assumiu uma personagem e cantou na personagem.

Sobre isso faço as seguintes considerações - 1 - É mais fácil e mais bonito atuar quando assumimos que estamos atuando, ao invés de esconder. Digo isso porque quando ela sabia que teria que fingir, assumir sotaques, posições e expressões que remetessem a diversos lugares do mundo ela fez com extrema naturalidade e simplicidade.

Isso é uma dívida psicológica que talvez nós, atores, possamos abandonar. Ser outra pessoa no palco nunca será tão bom quanto fingir ser outra pessoa, na prática e fisicamente isso não muda nada, é uma questão da mentalidade com que o ator vai a cena. Ele deve ir leve, sem nenhuma preocupação em enganar as pessoas, muito pelo contrário, o ator deve saber que vai à cena levar a verdade. Isso é muito bonito.

Nisso talvez eu faça uma ressalva ao espetáculo - por vezes eu vi um esforço das atrizes para fazer a cena, principalmente de Evânia. Entendo que faz parte da natureza do papel, difícil pela questão delicada que ele aborda; entretanto o papel pode ser evoluído ao ponto da completa naturalidade até nas partes mais tensas, até mesmo porque a personagem de Guida não faz força para ter ataques, ou esquecer e lembrar, ela já é escrava da própria loucura, portanto quanto mais natural ela soar, principalmente nos momentos de clímax, melhor.

Outro detalhe que me chamou a atenção depois foi a maquiagem de Evânia, com lápis em cima duma base pálida para marcar o rosto de velhice, é a segunda vez que vejo esse recurso, imagino que não seja nenhuma novidade, mas gosto da plástica dele.

Pronto, já pensei o que precisava. Para fechar registro que chorei, foi muito lindo, saí do teatro com aquela sensação engraçada no peito.

A serviço do que não existe

30/4/9 - Sobe o pano. Bem maior foi a quinta-feira. Chegamos mais cedo todos para ensaios do texto "Véu e Grinalda" de Miguel falabella adaptado por Evânia Copino para nossa realidade Jaboatonense. Novamente fiquei no vácuo da produção dos outros grupos ensaiando. Então vamos para os resultados.

Os primeiros a se apresentar foram Marquinhos, Bianca e Garrel dirigidos por Evilásio nos papéis de Bebel, Bárbara e Judith, respectivamente. Destaque para a roupa de Marquinhos, curtíssima e a voz da Garrel, cuspidíssima.

A segunda cena foi feita por Camilla, Thaty e Thaysa dirigidas por Beto Brandão nos mesmos papéis respectivos. Destaque para Thaty, na minha opinião, a melhor cena dela no curso; também para Camilla, alesadíssima e Thaysa muito chata.

A terceira fomos Paula, Dolores, e Eu diridos por Mauro Monezi. Destaque para Paula, também alesadíssima.

A quarta cena foi de Guil, Ju e Noronha dirigidos por Geraldo. Destaque para muitas coisas: a caracterização das personagens, tanto nos adereços, quanto no figurino e maquiagem. Destaque destacado para Guil, que em matéria de Alesadisse aguda venceu todas as antecedentes e o balanço sensual de Noronha na pele de D. Judith.

Depois das apresentações prof. Evânia bateu um papo com os diretores e algumas dos pontos importantes da conversa foram:

- A necessidade do diretor preocupar-se com os aspectos técnicos da montagem, como figurino, maquiagem, cenário, marcas. É comum o diretor inexperiente preocupar-se apenas com a marca e desligar-se dos outras aspectos importantes da produção da cena.

- Os diversos tipos de humor. Não é uma questão de certos e errados, mas é possível conseguir amor acreditando numa história ridícula ou expondo o ator ao ridículo. Não acredito que o ator seja um pedestal que não deva ser ridicularizado. Mas acho que esse ridículo não deva ser depreciativo nem de graça. Assim como não concordo com atores que não se enfeiam ou ridicularizam por suas personagens, também não concordo em atores que por não conseguir humor de outra forma, precisam se humilhar de graça e sem necessidade. Coisas para se pensar.

- E junto do tópico anterior veio a questão da exibição x caracterização do ator. Yoshi Oida escreveu um livro chamado "O Ator invisível", onde ele defende que o ator deve ser invisível, ninguém deve vê-lo em cena, apenas a personagem. E eu acredito que parte da mágica que fazemos está nesse conceito. A relevância disso já é outra história, mas como poderemos dar relevância ao que fazemos se não fazemos com poder, com mágica para funcionar? Enfim, Evânia pôs em pauta que nós atores temos atrativos muito chamativos que precisamos aprender a esconder: Os Cabelos da maioria das meninas, que pouco ou nada muda, os óculos de Ingrid, e coisas mais arraigadas, como certos cacuetes físicos ou partituras vocais que são marcas registradas de certos atores.

Um conceito interessante foi o tirado da experiência com Beto, que chegou com o texto já todo marcado e fervilhando de idéias, desse processo vi a possibilidade de um diretor "paleta" do ator, uma pessoa que possa, pela experiência, trazer cores ou formas que inspirem o trabalho dos que estão no palco. Eu me oponho à isso, prefiro ver o diretor como um instigador, uma pessoa que provoca muito mais que uma que oferece. Mas a qualidade do resultado da cena de Beto foi muito boa e acho que há verdade em ambos os caminhos.

- Os fissurados. No caso eu (metido) e Paula (insegura). Tivemos um grande momento terapia, onde verdades foram ditas, e cada dia me impressiono mais com o poder dos verdadeiros mestres e verdadeiros atores de dizer a verdade. Acho lindo e acho gradioso não só a verdade dita, mas a maneira como um bom ator e um bom mestre sabe dizer a verdade. Acho os professores do curso um espetáculo à parte. Então, Evânia me chamou a mim e a Paula de fissurados, e aceitamos numa boa porque não é mentira. Quanto à Dolores, a inquiriu uma verdade que já estava na boca de todos "Não serão nem os professores que passarão a te cobrar, o professor olha o resultado, será a turma, pois com o tempo, a turma irá cada vez mais procurar as pessoas com tempo e qualidade para trabalhar em grupo. Você pode dar o seu tempo e sua qualidade ao grupo?" Dolores não entendeu, viu como um últimato e já ia pulando do barco quando Geraldo, outra grande personalidade disse algo que também estava na garganta de todos e me fez admirá-lo muito "Pare de se desculpar minha filha. Você está fazendo um monstro da escola SESC, que não é um monstro. Não sofra. Faça o que você pode, se der o máximo de si, será bom. Você não precisa pedir desculpas". E é verdade. Que o tempo dela é curto, lá isso é, mas não é só o dela, muitos no curso também tem tempo curto, é a vida, nunca ninguém tem tempo suficiente, e quem tem é um chato. Enfim, lavamos a alma como num verdadeiro drama.

- Trabalho de limpeza. Geraldo mostrou através de sua experiência como usar artíficos simples para limpar as pessoas e dar mais espaço para as personagens. Vozes, roupas, corpos, tudo a serviço do que não existe. Que lindo.

Simples e só

29/4/9 - Sobe o pano. Dia de ensaio da segunda rodada de diretores. Primeiro muitas apresentações de dança pelo evento em comemoração do dia mundial da dança organizados pelo professor Paulo Henrique; que comentarei assim que conseguir com ele a lista com os nomes de todos que se apresentaram e o nome dos respectivos espetáculos. Quanto ao ensaio, foi muito tranquilo e não posso falar de todos porque não vi. Mas Mauro, nosso ilustre diretor nos fez ler o texto, marcou algumas falas, sublinhou outras, disse onde ficavam as músicas e nos deu boa noite. Novamente só. Simples essa né?

Do jeitinho que eu queria

22/04/09 - Sobe o pano. Dia dos diretores mostrarem seu trabalho na aula de introdução ao teatro.

Primeiro tivemos meia hora extra para afinar os atores. Não o fiz, jurei que eles estavam afinados e mandei eles se concentrarem apenas. Errei feio.

Bem, vamos às apresentações. Primeira cena Geraldo e Evilásio dirigidos por ninguém mais, ninguém menos que André Garrel. A cena foi improvisada e foi boa, destaque para a presença de palco de Geraldo, forte. Evilásio estava fraco, senti falta da presença dele em cena, estava muito apagado. E tu falou muito baixo, da próxima gostaria de ouvir com clareza. Houve um problema de ritmo, mas isso é porque foi improvisação, imagino.

A segunda cena era para ter sido Guil e Brandão dirigidos por Dolores, mas problemas técnicos os impediram, azar.

Depois Ju e Mauro, dirigidos por João, que impressionou a todos com suas habilidades de diretor. Como disse a professora "João é o chato que todo mundo gosta" e é verdade. O curso perderia muito sem ele por perto. Da cena tirei um conselho que gostaria de dar para Mauro "Diga cada palavra do seu texto como se desse um beijo na mulher amada". Faltou carinho com o texto, o resto - corpo, voz, presença de cena, estavam bons. O mesmo para Ju, só que ao contrário, precisa criar corpos e vozes para as personagens. Destaque para a comunhão deles, trocas de olhares poderosas em cena. E Mauro, agarre Ju com força, meu filho, pode pegar que eu não mordo.

A terceira cena apresentada foi estreada por Paulinha e Marquinhos e dirida por Bianca, a revelação de nosso curso. Na minha opinião, a cena mais forte e melhor representada, grande destaque para Paulinha, que me emocionou muito no papel de Joana, com voz, com corpo, com olhar, e Marquinhos não ficou atrás, mantendo uma atmosfera cortante e atraente toda a cena. Parabéns para a diretora. Agora Paulinha, balançou em cena um pouquinho, finque esses pés no chão.

A quarta foi Camilla Noronha, que não balançaram, Camilla estava ótima, usando do gesto psicológico para dar força à Joana e Noronha estava ótimo de Creonte, forte, a mão dele ao mandar e voltar os seguranças chamou muito minha atenção. Destaque para a concentração de Camilla.

Eu, por fim, dirigi Tiago e Thaty, consegui algumas coisas e não consegui outras. Não caracterizei minhas personagens, Tiago era Tiago e Thaty foi Thaty, mas estavam afinados um com o outro, não rolou muita comunhão e a vida física ficou fraca. Consegui embasar o texto e encontrar motivações vivas para meus atores, mas só foi até aí, da próxima trabalharei melhor por meus atores, que diga-se de passagens, são ótimos e foram muito generosos comigo.

Abraço

Preencha as lacunas

16/04/09 - Sobe o pano. Tívemos três tópicos de trabalho ontem:

- Brincar com a dramaturgia

- Discutir Stan

- Experimentar a posição e o relacionamento do Diretor x Ator

Quanto à dramaturgia, tivémos um texto assim para compeltar:

Título:__________

A - Oi, a quanto tempo não te vejo... como tens passado?

B - Eu vou muito __________

A - Nossa, o que foi que aconteceu? Você __________

B - Exatamente. Eu nunca pensei que isso um dia fosse acontecer comigo, mas __________

A - O que você vai fazer agora?

B - Eu já decidi... vou agora mesmo lá e __________

A - Eu estou surpresa com tudo isso, não seria melhor ir lá e _________

B - Não, preciso fazer isso. Ai, olha que vem chegando _________

C - Oi gente, como vão? _________ o que aconteceu com teu _________?

B - Isso é o que eu vou _________. Você já sabia, não era?

C - Na verdade, eu desconfiava, mas _________. Vou contar um segredo a vocês, eu ________ sempre foi assim.

A - Meu Deus, hoje é o dia das surpresas. Vamos eu vou dar uma coisa pra vocês. __________. Antes, que _________ chegue. Ninguém pode saber, viu!

C - _________. Eu não prometi nada. Ele está vindo... disfarça.

D - Eu quero saber o que está acontecendo aqui? _________ ai, eu não acredito que você fez isso... eu _________ agora não posso mais confiar em você. Eu já sei como vou me vingar... eu _________

E - Minha gente, vocês souberam o que aconteceu lá na _________ -, Ele estava lá, _________ ameaçando tirar a roupa de _________, um escândalo.

A - Essa eu quero ver. Vou _________. Quem sabe não sobra um pouquinho para mim também.

E - Adoro saber as fofocas da área. Vamos ver como essa história vai acabar.

C - Será que ________ vai fazer o que prometeu... Vamos lá.

FIM

Desse exercício eu tirei algumas conclusões como escritor.

Primeiro - sintonia, toda criação coletiva necessita da sintonia, e como nós tivemos que criar em cima do texto de um terceiro que não sintonizou conosco, o principal esforço foi no quesito de assimilar uma hipótese possível de suas idéias.

O texto é escorregadio, no começo ele dá margem a mil possibilidades, mas no fim com a entrada de certos personagens e algumas informações mais concretas ele te força a destruir o que já foi feito e adequar as novas informações ou promover reviravoltas dignas de comédia mexicana.

Num segundo momento discutimos um trecho do livro "A construção da personagem" do mestre Stan. Trecho que ele discute a relação exposição x exibição - e então o mestre nos lembra que expor-se é preciso para interpretar a vida de um papel, entretanto exibir-se é venenoso, até mesmo porque são coisas diferentes, expor é tirar a máscara, exibir é mostrá-la.

Também tratamos da delicada questão da repetição de nossos atributos e sentimentos em cena, da velha pergunta "Como não me repetir no palco?". Eu defendo que se houver o estudo e entrega necessários ao papel, não é preciso ficar se mudando por mudar. Mas tenho muito pouca experiência prática disso, o jeito é viver para testar.

Entrou na pauta da discussão algo que chamou minha atenção, disseram mais ou menos assim "tem atores que três dias depois do espetáculo contínua lá, arrebatado pela personagem. Cuidado, isso é pinta!" Deve ser mesmo. Acho tão interessante para o ator saber aflorar seus sentimentos quanto fechá-los, porque não é um jarro, o trabalho de ator é um delicado controle entre ambos. Então um ator que realmente, caso exista, se arrebate do sentimento da personagem dias depois da apresentação precisa trabalhar suas faculdades de controle, eu acho.

Thaty disse algo muito legal, falou que o ator precisa ter uma "Fase de desmanche" depois do mergulho para voltar a si. Gostei do termo.

Outra coisa levantada foi a questão da interpretação para novela. Bastante diferente da para teatro porque primeiro os atores não tem as personagens completas no início da trama, apenas o mote e algumas informações, isso ao passo que os torna mais vivos, já que realmente desconhecem o futuro na sua totalidade, também os torna em início clichês de si próprios pela falta de material.

Além, discutiu-se a questão de os atores de novela fazerem sempre si próprios. Talvez, é preciso ver as circunstâncias, as personagens das novelas, no âmbito de tempo espaço, socio-cultural variam muito, mas no âmbito emocional, o mais cobiçado pelos atores, são absurdamente repetitivos. A estética é sempre a mesma, a forma de filmar sempre a mesma, é difícil encontrar saídas, por isso tantas pessoas da classe atacam a teledramaturgia brasileira, porque é um formula que tem experimentado pouquíssimas reciclagens.

No último momento da aula fomos dividos em grupos para improvisar trechos de "Gota d'água" do mestre Chico Buarque de Hollanda. A idéia é experimentarmos as relações diretor x ator. Peguei a direção de Thaty e Thiago e estou muitíssimo feliz com meus atores. Dei tarefa de casa para eles e espero que eles façam e quarta veremos o que sai.

A relação diretor x ator é uma faca de dois gumes, pode ser extremamente prazerosa e pobre, pode ser prazerosa e riquíssima, pode ser traumatizante e pobre ou traumatizante e rica. No fim, tudo depende das pessoas. Meu conselho é que os atores não cheguem vazios, é mais negócio para qualquer diretor, até para os chatos que se acham donos do céu, da terra e da verdade trabalhar com algo que já está construído e é crível no ator que com a obtusidade.

Eu sempri vi o diretor como um olho, ele é quem pode ver para dizer o que funciona e o que não funciona. Isso não reduz o trabalho dele, como olho, ele é um visionário, ele é quem afina, é quem sintoniza todos os elementos do espetáculo - cenografia, luz, produção, atores e tudo o mais que for importante para o espetáculo.

E quando digo atores, não apenas os atores com outros elementos mas os atores uns com os outros. Ele é o responsável pela coerência e coesão do trabalho. Mas isso pode ser um trabalho de ouvir pouco e falar muito ou de ouvir muito e falar pouco. Depende da inteligência da figura.

Até hoje à noite, com professor Paulo, todos alongados, sim?

Adorável Júlia

08/04/09 - Sobe o pano. Professora Evânia não pôde ficar conosco toda a aula mas deixou um filminho para assistirmos. Nós tentamos professora, juro que tentamos. Aqui a ficha do dito

Título Original: Being Júlia
Gênero: Drama, Comédia
Ano: 2004
País: Canadá, Hungria, Reino Unido
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 105min
Diretor: István Izabó
Elenco: Annette Bening, Jeremy Irons, Bruce Greenwood

Pequena ficha jornalistíca do filme:

O quê: Atriz briga violentamente com o tempo, mal de todos nós
Onde: West Side de Londres
Quando: Anos trinta
Como: Um amante da idade de seu filho

Interessante como essa análise simplória capta o espírito do filme. Júlia Lambert é uma atriz muito bem acomodada ao seu posto de Diva, daquelas cujo nome leva multidões ao teatro. É casada com seu produtor em um relacionamento aberto, prática nascida na época e popular ainda hoje.

Júlia combate a própria fama com o fantasma da idade - beira os quarenta e no decorrer do filme ela é obrigada a se confrontar com os sinais de sua decadência.

O primeiro é Tom, um amante da idade de seu filho, que a ilude, a explora para no último ato revelar-se um cínico a altura das personagens de Nelson Rodrigues, um verdadeiro Boca de Ouro. No fim ele a troca por uma atriz ascendente, que todos dizem que será a próxima 'Júlia Lambert' já antevendo o fim da estrela.

Annette Bening, numa performance genial, mostra a podridão de alma que forma a atriz. Existem atores de todos os tipos, Júlia é dessas cuja performance é boa porque aprendeu a usar das técnicas de cena para blindar suas emoções na vida real, é uma mulher medrosa e emocionamelte fechada, quase incapaz de entrega. Apenas no seu momento de extrema decadência fora capaz de expor-se, e ao fazê-lo foi enganada por um João ninguém, o que apenas reforça sua blindagem para o clímax.

Essa confusão entre seus sentimentos e sua representação dá tônica à personagem, que além é constatemente pressionada a afirmar sua posição de diva; tornando-a extremamente artificial, mulher de gestos largos e risos falsos do momento em que acorda ao que dorme.

O final do filme é quase didático de tão categórico e contá-lo não estraga o divertimento do espectador - Ao perder o amante, o esposo e o papel de protagonista no próximo espetáculo em que participaria para a 'próxima grande fulana'. Júlia, na última cena, do último ato da estréia esbanja desenvoltura, experiência e improvisação comendo fulaninha com farinha em cena aberta, sem dá-la sequer a possiblidade de réplica antes de descer o pano.

O filme leva um ator a algumas reflexões, vou expor as minhas - Annette Bening é excelente atriz e esbanja talento no filme. Já a personagem que ela interpreta vejo como uma atriz podre e tacanha. Em primeiro lugar, em sua época os atores em geral já eram escolhidos por 'perfis' prática hoje ordinaríssima no cinema e prova cabal do imbecilidade das leis de mercado; a completa abstenção das possiblidades, da multiplicidade de leitura. Enfim.

Dois, Julia é extremamente egoísta e não gosto de pensar que um bom ator seja aquele que pisa em outro para sobressair-se ao público. Prefiro associar a atuação a conceitos como generosidade e entrega. É justo olhar as armadilhas que a encurralaram nessa saída violenta, mesmo assim não acredito que as circunstâncias sejam justificativa para tanto.

Outra observação que fiz foi a importância da experiência e do tapa para o ator. Já fiz alguns trabalhos de estudo da linguagem de palhaço e sei que uma das formas mais interessantes e peculiares de despertar o palhaço é o susto ou, como gosto de chamar, o 'tapa'. A lógica que cerca esse conceito é aplicável ao trabalho do ator. O 'tapa' nada mais é do que uma situação viva e imediata, que exija toda a concentração do ator; Esse, concentrado em tudo que tem de pensar, sentir, fica muito ocupado em tentar viver e vive pouco. O tapa, ou a ocasião de susto, de medo, de reação direta e imediata leva o ator a viver o que tem que viver e parar de pensar no assunto. A última performance de Júlia, apesar de egoísta, foi muito boa, não serviu à personagem nem à história, serviu ao público e a ela mesma. Entretanto foi vivaz, foi comovente, foi forte. Ela, acuada, numa situação extrema recebeu seu 'tapa' e esteve esplêndida em cena. Falta a generosidade, falta aplicar isso à serviço do todo. Mas nesse quesito ela esteve ótima.

E quanto à experiência, fica claro como ela vale milhões se comparado à coisas como 'beleza' ou 'talento'. A atriz mais velha come a mais nova em cena porque está mais à vontade, está mais viva, não teme o desconhecido da cena, muito pelo contrário, o procura por ser mais vivo, mais atraente. Se ela fosse capaz de conciliar isso com a história que estava contando, seria uma boa atriz.

Bem, dos meus pensamentos os mais importantes são esses. Boa semana santa a todos que rezam e muito chocolate para os que rezam menos.