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Memorial

06/07/09 - Sobe o pano para a última aula de Neemias Dinarte Produções. Primeiro enrolamos muito para começar, já que o grupo de realismo/naturalismo e seu reflexos nos dias de hoje terminou o trabalho meia hora depois que a aula começou.

Começamos eu, Felipe e Vila com teatro grego e reflexos na realidade. Foi bem, muito ruim mesmo. Nós fizemos realmente a pesquisa e realmente discutimos, mas não nos organizamos de forma a nos articular para a turma de forma convencinte. No final foi feito nas coxas e foi. Morreu esse boi.

Como disse na aula e deixo registrada aqui a reflexão - Desde a grécia, onde houve a institucionalização do teatro, até os dias de hoje, quase são se tem fontes para a produção do teatro que se não o governo. Ainda hoje, quer fazer uma produção que não cara, qual a solução? Caixa, Petrobrás, Funcultra e por aí vai... Apesar de uma certa autonomia de instituições como a Caixa e a Petrobrás, por exemplo, de uma certa forma elas sempre serão 'estatais'. Enfim, ainda são limitadas as fontes para produção teatral, de uma certa forma, o teatro, ainda hoje, três mil e poucos anos depois ainda é, principalmente em Recife, donde vos falo, 'estatal'.

Depois o pessoal do Renascimento não estava pronto, o do realismo não tinha chegado, foi o pessoal mais maluco 'do experimentalismo à destruição das formas' que veio com a seguinte tese - experimentalismo representa uma atitude artística, e não um movimento propriamente dito. Daí mostraram como os caras que andamos estudando com Andre - Stan, Artaud e Grotowski - foram 'experimentais', so sentido que experimental é quem ao entrar em contato profundo com uma linguagem vigente, proponha mudanças na mesma a fim de procurar novos códigos e significantes desses códigos (abri o dicionário de semiótica hoje).

Enfim, quanto à destruição das formas Biagio buscou um livro chamado "O teatro pós-dramático" onde se elabora que há uma tendência para um teatro que destrói a dramaturgia, que privilegia o acontecimento teatral por si.

Eu tava pensando e cheguei a conclusão que esses exercícios de 'destruição da dramaturgia' ainda são ecos do que Artaud propunha, que Meyerhold propos antes dele, que é uma tendência que vem procurando se afirmar já há um século e pouco e muito importante para o teatro como arte - A referência do teatro no teatro - durante o estudo da história do teatro nós estumamos o teatro com referências na literatura principalmente (literatura dramatúrgica) arquitetura, artes plástica (a tão falada perspectiva, no Renascimento) e assim como todas as artes, o fenômeno cênico é uma composição de outros fenômenos, mas é importante afirmar que a arte plástica para o teatro não é um uso de outra expressão plástica, a arte plástica para teatro é arte plástica para teatro. Fim. Para que no todo da composição a referência do teatro seja o teatro, uma espécia de afirmação do alicerce da arte.

Agora pensar nisso me faz pensar em milhões de outras coisas - Legal a iniciativa, mas o que o público, o pobre coitado do público, tem a ver com isso? E nisso eu tenho minhas reservas com essa história de destruição da dramaturgia. Não digo que é impossível, que é errado, nada disso. Digo o mesmo que disse em sala 'experimentar é pôr linguagens distintas em diálogo, não é dar pinta'.

Depois foi o pessoal do Renascimento. Destaque fulminante para a performance de Noronha como seminarista (?) Engraçado, em controle do público, chic. Uma das coisas mais legais que eles trouxeram como legado do movimento renascentista foi a quebra do vínculo divino, foi trazer o teatro para questões humanas. Bacana.

Por fim o Realismo e no realismo chegamos de novo, mas sem surpresas, nas novelas. Esses meses de aula com Neemias foi uma verdadeira reflexão sobre a teledramaturgia brasileira. Vou pular esse tópico, deixá-lo para outra ocasião, chamarei a crônica de "Teledramaturgia Brasileira".

No fim de tudo houve a entrega dos memoriais, destaque para o desenho de Vila, o vaso de Geraldo, a máscara de Paulinha (linda), a brincadeira 'algumas verdades', de Camilla, que nos fez rir muito. O vídeo de Ju com fotos nossas e embaladas por Osvaldo Montenegro, Xuxa e Toquinho - Detalhe, nas fotos embaladas por Osvaldo, se tem a impressão que estamos mortos (!). Por fim a grande atração da noite foi o vídeo de Mauro, com entrevistas de todos os alunos sobre o professor e as aulas. Hilário.

Fim. Muita merda.

Leitura circular

29/06/09 - Sobe o pano para falarmos do moderno ou pós-moderno. Ninguém sabe ao certo e no final, talvez tanto faça.

Nessa história do combate do tradicional com o destrutivo, a vanguarda. Neemias nos falou sobre os musicais da Broadway, os circuitos adjuntos, como o off-Broadway é chamado. E como lá esses dois movimentos são bem definidos. No Brasil ambos os circuitos também são definidos, entretanto representados por o 'Global' e o marginalizado. Assim como em São Paulo e no Rio também existem movimentos de teatro mais comerciais ou puristas. Aqui no estado é menos mas também há.

Outra coisa interessante foi o que o professor comentou sobre os atentados de onze de setembro. Quando a moral estava baixa e estabelecimentos fechavam, nova yorkinos se mudavam de cidade os artistas da Broadway saíram as ruas pedindo para o povo ficar, pedindo fé. Muito bonito.

Outra coisa são esses espetáculos que duram para sempre, os grandes musicais, 'cats', 'oklahoma', 'les miserables' duram para sempre. Isso me faz pensar no teatro brasileiro, que vive jogando suas coisas fora por uma questão histórica de baixo auto-estima e, também, muito público ainda por ser formado. Seria bom pensar num certo purismo no nosso teatro, que quando quer, não faz feio a nenhum outro. Há iniciativas nesse sentido, como o Angu, com a temporada de repertório que fizeram no começo do ano, Zé Celso, com as comemorações dos 50 anos do Oficina, Antunes, com o prêt-à-porter. Mas pode haver mais, bem mais...

Depois ouvimos uma das clássicas de professor Neemias - A relação entre teatro experimental x teatro inexperiente ou mesmo ruim. A frase é mais ou menos assim, acredito que ela valha a transcrição "Minha gente, tem menino aí que faz um curso de iniciação e já quer ser diretor, aí diz que é diretor de teatro 'experimental', pois eu digo o que é esse teatro experimental, o menino não sabe dirigir, mas tá 'experimentando', os atores não sabem atuar, mas estão 'experimentando', os técnicos não sabem fazer o serviço deles mas estão 'experimentando'; resultado: uma merda. Esse teatro experimental não minha gente, por favor, sejam humildes" Palavras de sabedoria. O pós moderno (?) tem disso mesmo. Uma coisa é dominar (dominar, dominar não é fácil nem é feito do dia para a noite) linguagens diferentes e propor o diálogo entre elas; outra coisa é 'experimentar'. Enfim.

Daí fomos para o trabalho sofrido dos atores aqui na cidade. É difícil viver de teatro, e no fim aparecem as mais diversas, e às vezes até degradantes tarefas para os atores. Estavamos falando do 'happening' palavra americana para performance, para francesa para improvisação, para portuguesa para faz na hora, termo nacional.

Enfim daí lembramos o Fon-fon, onde os atores passam 6h por dia no Sol sofrendo com CO² e motorista e transeuntes nem sempre educados; A noite do terror, onde os atores ficam correndo e gritando atrás de pessoas que raramente os desejam; os homem estátua das lojas; promoters de super mercado e todas essas tarefas pouco artisticas para nós. É dura essa vida. Todo esse sofrimento para comer; porque não dá para subir num palco, e mostrar arte de verdade para as pessoas passando fome.

Depois fomos ler "aquele que diz sim e aquele que diz não", lemos bem direitinho, num plano de leitura chamado "leitura circular" porque é feita num círculo e cada um lê uma fala, independente das personagens. Brincamos bastante de coro e foi legal para ver como o distanciamento pode ser uma coisa besta, como repetir o texto mudando uma coisa pequena, para fazer pensar.

Depois fomos ler "A lição" de Eugene Ionesco e foi muito, muito divertido. Fiquei com vontade de encenar, não vou nem comentar, porque ainda estou com o texto cá aqui, martelando para eu pensar nele.

Perdendo a cabeça

22/06/09 - Sobe o pano. Primeiro de tudo faltam essa mais duas aulas para acabar, aleluia! Foi justamente isso que nos lembrou Neemias, lembrando junto que nós estamos umas quatro aulas atrasados do programa, professor disse não saber como, mas entre a peça que iríamos assistir e não fomos, as dificuldades para ler os textos e os feriados acredito qeu fica fácil saber onde essas quatro aulas foram parar.

Junto às aulas atrasadas fomos lembrados da apresentação do última trabalho da disciplina, falta no meu caso fazer a ficha resumo e organizar o trabalho escrito, quanto a pesquisa e a abordagem dos assuntos sofremos, mas fizemos eu, Felipe e Vila semanas passadas.

Neemias também lamentou não termos a aula extra que ele tanto quis nos dar. E já que ele me deu esse relatório para fazer irei usá-lo como apelo aos alunos - Vamos, por favor, ter essa aula. Não apenas porque o professor quer dar, e isso já é muito, não são todos que teriam essa disposição, mas além, nós precisamos, poderemos fazer bom uso do que ele nos puder passar sobre como ler e abordar um texto.

Enfim começamos a falar do teatro moderno, um dos ponto importantes demonstrados pel oprofessor como tendência do tearo contemporâneo foi o deslocamento do eixo da criação - individual para coletiva - O living Theatre e o grupor Galpão foram usados como exemplos.

Tivemos uma pausa e decidimos deixar a leitura de "Aquele que diz sim e aquele que diz não" para a semana, em compensação tivemos uma gaiola muito especial com Guil, Paula e Ju fazendo com formas animadas uma crítica muito séria. Num primeiro momento uma apresentadora, sei lá, falava sobre valores, ética, moral, essas coisas; num segundo Amy Whinehouse aparecia tão tresloucada quanto é na vida real. Mais simbólico ainda, no final da apresentação, ela "perdia a cabeça" (literalmente) na frente do público. E foi só isso, pronto acabou.

O malandro/3 vinténs

15/06/09 - Sobe o pano. Fomos assistir à Ópera dos 3 vinténs, de Brecht. Muito, muito legal o filme. Conta a história de Mac the Knife, o grande malandro do Soho londrino e como ele balança entre as esposas, os cabarés, os policias, os políticos e os bandidos do bairro mais sórdido de Londres.

Não surpreende nada que Chico Buarque tenha visto a ligação entre a história e a realidade do morro e do malandro, personagem pitoresca, que existe no inconsciente coletivo e aqui no brasil veste branco, samba e (também) usa uma navalha.

Falando nisso, vou transcrever aqui a letra de "A volta do malandro" música da peça de Chico, que traduz bem a questão e eu adoro.



"Eis, o malandro na praça outra vez
Caminhando na ponta dos pés
Como quem pisa nos corações
Que rolaram dos cabarés
Entre deusas e bofetões
Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro olha assim dei viés
Deixa atravessar a maré
E a poeira sentar no chão
Deixa a praça virar um salão
Que o malandro é o barão da ralé"

Aí o professor destacou a simplicidade do recurso do distanciamento, entretanto como ele não pode ser graça, como às vezes acontece, como ele deve ser pensado, simples justamente para não atrapalhar a peça, para não chamar a atenção demais. A natureza da quebra também deve ser pensada, para dar a sugestão desejada ao público.

O recurso ficou muito forte em mim ao assistir ao filme porque quando ele ia morrer eu estava forte junto com Mac sofrendo por ele morrer, eu gostava tanto dele. E quando ele caí da forca e volta minha vontade foi gritar "Não, agora você morre, eu não sofri tanto pra você viver e brincar de teatro, agora morre! Morre!" Mas ele não morreu, e eu ainda estou com isso me cutucando.

O Nada.

08/06/09 - Sobe o pano. Dia de assitir o vídeo "Artaud" filmagem de uma peça, elenco Rubens Correia e Ivan Albuquerque. Neemias disse que Rubens passou boa parte de vida artística estudando o trabalho de Artaud, que já conheciamos algo dos exercícios com André. Porém o vídeo me abriu de forma única.

Não posso falar muito da película, pois realmente é difícil explicar, é uma coisa, é fragmentado, de uma lógica caótica, tem muito poder nas mãos, em pequenos gestos que se ampliam, tem a dimensão do sonho, realmente. E também dialóga com Grotowski, é um teatro pobre, não tem pretensão nos seus efeitos, é um ator e o público, só isso. E tudo isso. Ele não urra, não dá chilique, mas se tem a impressão de assistir à um sonho. Muito bom.

Ele fala dos girassóis de Van Gogh no texto. O que sei (posso estar errado) sobre os girassóis é que são quadros que ele pintou para outros artistas que ele havia convidado para um retiro de intensa produção. Colocou cada quadro no quarto que ele havia preparado.

Infelizmente, Van Gogh sempre foi tido por louco, além dos problemas com alcolismo. Nenhum dos convidados apareceu, isso foi pouco antes dele se matar. Ninguém entendia a beleza do movimento pintado, uma pena. E Neemias lançou a pergunta "por que ele pintou o girassou, o girassol é uma flor feia"; mas é a flor que se volta para sol, vale pensar nisso...

Vendo o vídeo também fiquei pensando sobre a relação "levo minhas coisas para o palco" x "não levo nada para o palco" e o que é, realmente, esse nada?

A gaivota

01/06/09 - Novo e último mês da desse período, que como temos sofrido para dar conta de tudo, mas tenho a impressão que o pior ainda está por vir. Enfim hoje fomos ler "A gaivota" de Anton Tchekov, texto pontual do Realismo.

O texto é particularmente importante para a turma pois foi com ele que fizemos o teste para entrar na escola Sesc. Entretanto a leitura foi enfadonha do mesmo jeito. Não li nenhuma personagem e não consegui prestar muita atenção, admito. Entretanto quando prestava atenção ia buscando aquilo de que falei no última crônica: o humor, a ridicularização, os traços caricatos das personagens, tudo que fez Tchekov dizer "escrevi Voudevilles e Stanislavski fez dramas psicológicos" e encontrei muito humor, encontrei traços caricatos nas personagens e consegui visualizar um encenação pastelão da Gaivota muitíssimo leve, dignissímo do maior dramalhão mexicano.

Daí volto à importância do papel do encenador e à reflexão acerca dos clichês que criamos do passado: Artaud era visceral, Brecht político, Stan profundo (que é profundo?) blá blá blá. E entender que esse legados, assim como as personagens, são empobrecidos (no sentido depreciativo) se vistos de uma perspectiva unilateral ou monocromática.

E mais, por que, nos dramas psicológicos de Stan, ele não poderia inserir doses generosas de humor, como Brech inseria de ironia em seus textos? No livro "a criação de um papel" dois dos papéis escolhidos por Stan para demonstrar suas preparação são comédias!

Claro, isso me leva a outra reflexão - Rindo comigo ou de mim? Isso cabe a cada um decidir.

Também foi feita uma comparação, por um santo/pecador da turma, quanto à personagem da gaivota, aquela atriz narcisista cujo nome me escapa, e Augusta Ferraz, interessante...

É interessante também destacar as 'etnias' da sala pela ótica da leitura. Pela maneira como cada um lê é possível deduzir vários traços acerca da pessoa, como formação, hábitos, etc...

Nos foi sugerido assistir ao filme "O baile" de Ettore Scola, o mesmo diretor do capitão tornado. Que ainda não assisti, mas talvez assista em breve.

Semana que vem teremos um vídeo de Rubem Correia interpretando num espetáculo chamado "Artaud". Até lá.

Realidade Cênica

25/05/09 - Sobe o pano. Hoje começamos a falar do realismo, mas não sem antes as considerações gerais tão interessantes que permeiam nossas aulas.

Aliás, nos relatórios das aulas prefiro mesmo me deter nas considerações gerais que no tema propriamente disso, isso porque os temas estão pontualmente registradas na apostila e nos livros da história do teatro, as considerações do professor são história fresquinha, vinda direta do forno. Inclusive noto uma mania ou um padrão na maneira como os gestores do Sesc se colocam em público na seguinte frase "Quero deixar aqui registrado..." sempre que vão falar alguma coisa, começam com a fase célebre, me pergundo, por que? Não creio que verei resposta.

Comçamos com puxões de orelha em relação à nossa leitura, semana que vem leremos "A gaivota", de Tchekov (acho que escrevi o nome dele certo, se não, deixo aqui registrada minha ignorância) para que essa leitura não seja enfadonha, como foram outras.

Estavámos todos muito nervosos com a apresentação de Grotowski no dia seguinte e passamos mais um tempo com Neemias tentando nos acalmar. E aqui vai uma consideração básica:

Eu sei que "Lab. de Interpretação I" deveria ser só Stanislavski. Dito isso é o seguinte: Mesmo que a escola Sesc tente preservar um certo 'academismo' é preciso admitir se há algum 'academismo', também falta algum. O interessante da diversidade entre cada professor não é a disciplina que eles ensinam, mas a pessoa em si, suas preferências, suas manias e generosidades, a maneira como ela encara o trabalho teatral e como ele influenciou sua vida.

Assim defendo com unhas e dentes a iniciativa de André de nos mostrar o seguinte: Eu nunca farei Stanislavski, nem Artaud, nem Grotowski, eu só farei Diogo Testa porque eu sou Diogo Testa. É importante estudar e conhecer o máximo possível. Mas o que passou é fonte, não fôrma. André nos pediu experimentos e nos quisemos dar espetáculo, outra lição importantíssima aí: Humildade, aceitação dos erros. Nosso medo de fazer 'errado' as cenas de André quase nos consumiu, e André veio para nos dizer 'não existe errado, existe teatro, e tentar já vale muito' esse tipo de conhecimento não tem preço.

Falando em realismo e mais precisamente em Tchekov uma das reflexões que tenho feito acerca é a frase do próprio é "escrevia Voudevilles e Stanislavski as transformava em dramas psicológicos" essa reflexão faço acerca da importância do encenador.

Assim como Stan, Grotowski transformou "Fausto" de Goethe, texto romântico, na sua própria estética, o galpão transformou Romeu e Julieta em teatro de rua. Zé Celso meche em tudo que toca, Antunes transformou as comédias de Nelson Rodrigues em peças míticas e as míticas em mais míticas ainda. Aí quando Neemias diz - o documento mais importante é o texto, eu penso 'cuidado'. Tudo bem que Neemias não fala do texto sem preconceitos. Ele sempre dá detalhes e características pontuais que identificam as montagens do período.

Não adianta, essa é minha reflexão, pensar teatro dramaturgia, na nossa contemporaneidade, ou pós-contemporaneidade ou seja lá o que for é claro que a dramaturgia é uma ferramenta na mão dos 'montadores', sejam eles atores, diretores ou ambos. E era sim desde sempre, só não tinha os nomes que tem hoje e pronto.

Não me recordo mais por qual motivo, mas durante a aula nos perguntamos: O que é kichute? Segundo a Wikipedia "Kichute é um calçado, misto de tênis e chuteira, produzido no Brasil desde a década de 70 ".

Uma das coisas que me chama a atenção no teatro do período é a relação universal x temporal, principalmente pelos textos de Tchekov e Ibsen. Isso também acontece em Shakespeare e nas tragédias gregas, mas volta com força aqui. No homem comum, não nos heróis históricos, como era antes, reside o que fala a todos, mesmo que ele seja colocado em uma situação do espaço/tempo que fale da situação social da platéia. A gaivota mesmo, enquanto existir teatro terá sua força. Jardim das Cerejeiras enquanto houver uma classe dominante e uma dominada e assim por diante.

De novo, em algum ponto da aula que ninguém sabe bem ao certo como, caímos na telenovela. Neemias diz que é bom usá-la como exemplo pontual porque todos conhecem a telenovela brasileira, portanto algo perto dos alunos. Verdade, acho difícil que um brasileiro, em algum ponto da vida não tenha contato com a telenovela produzida no país. Mentira, porque não acho algo proximo da maioria dos alunos. Entre faculdades, empregos e a Escola Sesc, acho difícil que existam muitos na turma que assistam telenovelas, portanto nem tão próximo. Desconfio, e faço esse comentário com certa maldade. Que as telenovelas estão mais próximas do professor que dos alunos. Não sei, posso estar enganado.

Mas sim, a telenovela chegou porque ela, em sua concepção cênica se aproxima muito do realismo no quesito que procura imitar com o máximo de fidelidade a vida real. Depois migrou para a acepção de telenovela como 'produto cultural', sujeito à tensões do mercado e da arte ao mesmo tempo. E daí começamos a discutir 'merchan', como chamam os Barbixas, grupo de comediantes constantemente evocado por Beto, Tiago, Mauro e Vila; da teledramaturgia brasileira, chegamos a imaginar um cenário onde não haveriam mais comerciais entre os programas, um cenário onde a propaganda já estaria tão culturalmente enraiazada na programação da TV que elas seriam simbiotícas, e não complementares, como são hoje.

Quanto à essa história de imitar a realidade com fidelidade ferrenha, Neemias também citou a peça "um sábado em 30" encenada pelo TAP aqui em Pernambuco. O texto tem traços muito fortes de racismo, e um casal de negros que assistia a uma apresentação saiu do espetáculo se julgando pessoalmente ofendido.

É isso, o negócio é esperar até semana que vem, a leitura.

A Nau Naufragada

18/05/09 - Sobe o pano. O espetáculo "Viva a Nau Catarineta" do GRUDAGE, que estava pautado pelo palco giratório para o dia seguinte passaria essa segunda no Sesc de Piedade para fazer uma visita aos alunos da escola Sesc. Claro, ninguém lembrou que é maio, que semana passada choveu quase todo dia, o espetáculo é teatro de rua e o sesc não tem estrutura coberta para teatro de rua.

Enfim choveu. A turma do GRUDAGE ficou lá embaixo tirando um som e nós tivemos que ter aula. A pegadinha é que prof. Neemias preparou a aula imaginando a hora, hora e meia que perderíamos assistindo o espetáculo e convesando sobre ele. Enfim, foi uma aula mais devagar...

Nós fizemos a avaliação do andamento das aulas responde as seguintes perguntas:

1 - Como estou escrevendo minha história no teatro?

2 - Como estou sendo orientado para isso?

Depois trocamos e fomos lendo uns as dos outros em voz alta. Engraçado como cada um se olha. Ouve muita rasgação de ceda para o lado do professor Neemias, que acho meio sem por quê. Neemias é barbado e ele sabe a qualidade do que faz.

Foi engraçado ver como há os humildes, que admitem com a tristeza dos desiludidos que não escreveram história nenhuma, há os que saem contando os títulos, há os metafísicos, que buscam refletir o que realmente ficou das coisas feitas e há os loucos.

Ver isso me deixou profunda uma marca do perfil da nossa turma, que é uma turma jovem, muito crua de teatro ainda, e extremamente ambiciosa, é curioso ver como todos se punem por não estarem em palcos dando o sangue, como há um clima de frustração por estarem juntos tantos atores a procura de um espetáculo (pirandello); pensei agora que esse povo precisa é gozar mesmo.

Nisso lembro uma coisa importante que Neemias vive dizendo - usem esse espaço para experimentar, para aprender praticando coisas ao invés de ficar louco com milhões de coisas.

Inclusive eu, quando começei a reponder as perguntas quis ser o "esperto que sabia o que era história" e ia mostrar minha história pelos registros que tenho dela, as mensalidades do curso, os programas das peças que já atuei, os certificados dos cursos que fiz e com isso tudo só ia mostrar o metido que sou.

Fiz diferente, e aí é a prova da interferencia de titio Neemias, em vez de sair contando documentos olhei com olhar crítico as coisas que já fiz e vi que estive desesperado, querendo fazer, fazer, fazer para acertar.

De repente agora na escola Sesc estou aprendendo a fazer pela necessidade artística, fazer não por fazer, mas fazer porque é necessário. A necessidade é crucial para qualquer ator.

E com isso também estou aprendendo a me livrar das coisas desnecessárias, mas aos poucos, que sou muito egoísta ainda.

Woyzec

11/05/09 - Sobe o pano. Principalmente para os românticos. Mas antes de chegarmos neles falamos de muitas coisas, entre as quais:

- Fecha dos teatros no período Isabelino. Não sei se ocorreu em outros lugares, mas tenho certeza que ocorreu na Inglaterra, de 1642 a 1660, pelos puritanos, na guerra que instaurou o poder do parlamento maior que o do Rei, na época Henrique VIII, o mais safado dos reis, ou pelo menos um dos mais explícitos na sua safadeza; quase dois séculos antes da revolução Francesa, vai entender a história. Já que o rei pagava o teatro, fecharam o teatro até o rei não pagar mais nada sem aprovação do parlamento.

- O projeto "a escola vai ao teatro" o nome parecido, que acontece às quartas, no Barreto Júnior, para os alunos dos colégios do Pina. É uma tendencia ser preconceituoso com o cidadão do Pina, alguns dos jargões pouco polidos usados para descrevê-los são mundiça, ralé, almas sebosas e por aí vai. Infelizmente quando eles chegam no teatro, nove em dez provam a raíz do preconceito - são barulhentos e pouco polidos - Foi levantada uma questão importante: além de peças, era preciso usar desse espaço no teatro para discutir e comparar a atitude dos alunos com a atitude desejada do público com a importância de se assistir à produção de arte e cultura e tudo mais. Nada disso é discutido e os alunos do Pina continuam levando a má fama.

Depois, com a ajuda do professor Almir, cujo sobrenome desconheço por hora e que nos fez companhia na aula ficamos sabendo o impressionante conhecimento teledramaturgico dos professores. Um barato ver como Neemias concegue explicar pontualmente a história do teatro mundial em comparação com a teledramaturdia brasileira. Brincadeirinha.

Por exemplo, usando como referência novelas, vimos claramente algumas das principais características do romantismo e do realismo, através da construção das novelas em voga nos dias de hoje. O romantismo na construção das personagens e o realismo na estética da montagem.

Tiago levantou as relações entre o melodrama e o melodrama circense, eis o que diz a wikipedia, fonte de pesquisa mais rápida que disponho:

"Circo O melodrama apresentado no circo brasileiro é uma forma constante de manifestação teatral circense que pode ocorrer entre as atrações do circo. De certa forma segue algo do estilo do melodrama teatral do final do século XIX, desenhado em ações, com conflitos polarizados, através de uma dramaturgia simples, baseada em conflitos familiares, atuado de uma forma grandiosa ou exagerada, tendo em vista os padrões de interpretação atuais que sublinham o natural."

Depois fomos ler Woyzec. Tenho uma dúvida que não manifestei em sala de aula: Neemias disse que o texto romântico dialoga com o divino. O que em Woyzec dialoga com o divino? Ele também disse que Woyzec já mostra uma transição, então me pergunto se o autor não teria abandonado esse aspecto nessa transição?

E ainda acho que essa linguagem fragmentada lembra o surrealismo, até mesmo Artaud.

Tivemos uma gaiola das loucas mais que especial com Thaty e Bianca dançando Mamonas e fechando.

Neemias teve a bondade de reservar o final de sua aula para falarmos de Artaud, que vinha rasgando as cabeças de todos nós com questionamentos do tipo "Como faço esse troço?". Para meu grupo, Thaisa e Felipe, nos lembrou da perspectiva do sonho, da exposição ridícula do ser e da visceralidade.

Ausêncisa I

04/05/09 - sobe o pano. Tentamos ler o avarento até o fim, mas o avarento era avarento mesmo e não deixou. Isso sem mencionar a cena de sete personagens que teríamos que ler com apenas um texto.

Depois fomos ler o experimento de McBeth, a peça amaldiçoada. A quem interessar possa, o texto já provocou o incêndio de um teatro e a morte de produtores e elenco, tudo explicado no artigo da wikipedia sobre o mesmo.

Para isso, tive que buscar Thaty lá embaixo. Lá embaixo Guil estava lendo Grotowski porque chegou atrasada e não queria atrapalhar a aula, fiquei conversando com ela, depois com Ju e perdemos a aula.

Bem, vou me retificar aqui e depois em sala com todas as letras: O que eu fiz não foi correto, foi egoísta e vaidoso. Fiquei sabendo depois que isso contrariou muito o professor e senti remorso, não era intenção contrariar ninguém, eu só comeceu a conversar e fui indo. Aos que tentaram me defender, obrigado. Mas não acho que seja necessário mentir nessas horas, Neemias merece mais que isso, admitamos que ele está sofrendo para nos dar algum senso de estudo de dedicação, coisa que precisamos.

Infelizmente não posso falar mais, não assisiti, se alguém se prontificar a concluir esse diário com os fatos e discussões importantes em aula, eu agradeço.

Tradução no dicionário

27/4/9 - Sobe o pano. Estou feliz de escrever esse relatório porque ele provavelmente será o menor que já fiz de história do Teatro e o primeiro que consiguerei colocar (quase) todas as pérolas extraídas da aula.

Fomos ler "O Avarento" de Molière. O texto era enorme e só Jailton pôde imprimir (usando a impressora da firma, suponho, quando trabalhava fazia isso direto para o inferno de meu patrão, não é à toa que fui demitido lindo e loura da empresa de engenharia onde nunca mais vou trabalhar... Nossa, que nostalgia); além de Jailton, Neemias também tinha uma cópia.

O plano era lermos os cinco atos do avarento traduzido por um português que havia olhado o dicionário no dia em que traduziu, lermos mais seis páginas de um experimento sobre Mcbeth e ainda vermos trechinhos de "Shakespeare apaixonado" para olharmos os teatros da época. Empacámos no primeiro. O tradutor, que depois Neemias terá a bondade de informar quem foi que eu esqueci, estava realmente inspirado.

A história em si é típica de Molière: Um casal de namorados, ele servo humildo do pai da moça, o velhaco mais sovina que já vi. O tal do velhaco tem um filho que ama a mesma moça que ele, ainda que por razões adversas e para a moça o pai tem um pretendente rico e prestes a morrer, na sua opinião, o marido perfeito. Destaque para Felipe fazendo o Avarento e Thiago um serviçal, renderam risadas na aula.

Estava pensando cá com meus cachecóis e o que o professor está fazendo, nos dando esses textos de época para ler não é só importante do ponto de vista didático, mas muito útil para nós como atores. Fiquei pensando o seguinte: "Que ator é esse que saí de um curso de teatro de dois anos, de carga horária violenta e não sabe ler um texto de época com clareza e um mínimo de intenção na fala?" Seria nos deixar sermos rídiculos de nós mesmos.

A aula acabou com a Gaiola minha e de Dolores, que Ju filmou e depois postarei no Blog, junto com os vídeos de André filho e outras coisas; falando "algumas verdades, parte2".

Abraço.

O preço de uma árvore

21/04/09 - sobe o pano na véspera do feriado. Professor Neemias adiou o avarento para a semana que vem justamente para nos mostrar quão avarento é o avarento e nós vimos e ouvimos falar do Renascimento na espanha. Mas antes André Garrel nos presenteou com um relatório mordaz da aula anterior.

Falando em coisas mordazes, Neemias previu que nós estávamos já a tempo demais na fase das "pernas abertas" como ele chamou, talvez esteja certo, talvez estejámos próximos de fechar nossas pernas, quem sabe?

Enfim, a aula começou no siglo de oro espanhol, mas antes dele Neemias nos lembrou que Racine, dramaturgo francês do Renascimento, é como a F. de Pernambuco, dada sua temática "Todos sabem que tem, mas ninguém gosta muito"

Sim, no século de ouro, primeiro vemos Fernando de Rojas, autor de comédias de costumes que já apresentava traços do realismo, segundo o professor precursor do realismo em algumas características.

Também foi abordado a complicada relação entre o humano e o divino entre os dramaturgos do renascimento. Apesar que quando penso nisso só me lembro de Dante e da granda viagem da Divina comédia, onde o homem conhece o divino, o profano e os compreende dentro de sua consciência; um pouco ousado da parte de Dante presumir que fosse possível exprimir por palavras da consciência humana essa relação, mesmo nas palavras completamente viajadas dele. Mas enfim, o fato é que os mesmos dramaturgos que escreviam falando do homem escreviam falando de Deus e as principais formas de teatro religioso do ciclo espanhol é o auto sacramental e a Égloga Pastoral, que Neemias acha um nome muito bonito, pesquisei o nome no meu aurélio e saiu assim: Égloga = Écloga - Substantivo feminino. Do grego - eklogé, pelo latim - écloga - Poesia pastoril, em geral dialogada; bucólica, pastoral.

No meio dessa explicação, o professor comentou como na época os artistas eram mais ecléticos, tipo Da Vinci mesmo, que era pintor, cientista, patati, patata; contrapondo que hoje o conhecimento é mais segmentado e partimental. Fiquei pensando nisso e faço um contraponto, só porque gosto de ser do contra mesmo.

Essa divisão do conhecimento, assim como a divisão do trabalho, é idéia do clássica do capitalismo, mas hoje ela vem perdendo força com o liberalismo. Quando começaram a se espalhar as idéias de capitalismo, o homem não era mais que uma chave de fenda, uma ferramenta. Hoje os colégios já trabalham muito com o conceito de interdiciplinaridade, as empresas de ponta, principalmente as que lidam em demasia com o público ou tecnológia tem mais que consolidado o conceito de "Funcionário multifuncional" que tem discernimento de todas as funções pertinentes à dele e é capaz de executá-las com certa presteza, se necessário.

As disciplinas de faculdade estão cada vez mais confusas e misturadas, coisas como "Engenharia da produção, ou do som, ou dos alimentos"; "Gestão da informação", "Biomedicina". São conhecimentos híbridos.

O próprio ator, ganha muito, mas muito em qualidade se souber, cantar, dançar, tocar, desenhar, enfim, se for assaz questionador para conhecer outras artes. E isso, para os artistas principalmente, não é um conceito novo. Assim vejo que hoje há sim uma tendência para o diálogo entre todos esses conhecimentos específicos que produzimos no século passado.

O professor ainda comentou que mesmo no teatro profano, havia a preocupação com a moral, com a punição dos que agiam errado, e isso perdura até hoje. Fiquei pensando que teatro é uma coisa antiga mesmo, sempre o comportamento humano antigo, épocas anterior ao dos espectadores, e ele aparece quase sempre permeado por esse senso de certo e errado. Talvez as grandes obras de nossa dramaturgia, as verossímeis, os gênios, sejam aqueles capazes de abandonar a moral e entregar às personagens à uma vida real e caótica como é deveras a nossa, ou mais ousado ainda, atacar a platéia destruindo os heróis, como fez Nelson Rodrigues no Brasil, idéias minhas, apenas.

Neemias destacou Lope de Vega, como nome de destaque do ciclo de ouro espanhol. Como homem humilde, bebeu da comédia del'arte italiana e dos costumes dos menos abastados para caracterizar suas peças.

Ao explicar que Lope escrevia Entremezes - esquetes que eram apresentadas aos nobres entre uma refeição e outra - ele lembrou-se da árvore de Júlia, e agora quem vai falar da árvore sou eu - Uma peça de qualidade questionável, com uma atriz fraca e inesperiente em palco no papel principal, não pagou nenhuma pauta pelo tempo que esteve em cartaz, custou 106mil reais ao contribuinte, mesmo que a produção não tenha gasto mais que 10, se chegou a 10, tudo pelo nome de Lívia Falcão e os carinhos da prefeitura.

Aqui meu apelo, pel'amor de Deus, todos queremos fazer teatro de qualidade, e os maiores problemas são sempre dinheiro e qualidade de elenco, então por favor, não joguem o dinheiro do contribuinte fora em joguinhos politicos e produções toscas. Sim?

Cervantes disse que os atores não eram muito vista na terra de nossos colonos, por isso suas trupes eram diminutas e se chamavam farândolas ou migingangas, nomes também engraçados que não vou persquisar no meu Aurélio.

Daí fomos para largas esplanações dos palcos Renascentistas na espanha. Um dia prometo que vou mostrar os diversos tipos de palco e a época e lugar onde eles foram usados. Hoje estou com preguiça.

O problema de fazer relatória das aulas de história do teatro é que nunca escrevo tudo que quero, porque Neemias fala muita coisa, como por exemplo toda a história sobre João Denys, professor de luz no curso de Cênicas na federal. Tudo bem, está tudo anotado no meu caderno, um dia transcrevo.

Set Light ou Panelão

13/04/09 - Sobe o pano. A aula começou com o relatório da aula do dia 30/03, feito por Evilásio e muito aplaudido por Camilla Rios, que foi elogiada por sua performance na gaiola.

Sobre a gaiola da Camilla, ela destribuiu para mim, pelo menos, uma tradução do discurso chamado "wear sunscreen", de Mary Schmich, jornalista america para uma coluna que ela assina ou assinava na Nova Tribuna de Chicago que virou vídeo institucional de uma agência de propaganda dos gringos, caiu na Internet, no fantástico e tem circulado muito. Abaixo a minha versão preferida dele, a quem interessar possa.



Quanto a aula, começamos com uma breve discussão do filme "A Viagem do Capitão Tornado" para que Neemias nos passasse os principais pontos da commédia del'arte - Como a profissionalização do ator, a simbiose entre ator e personagem, os roteiros - chamados de Canobaccio e Suggeto, estruturas com largas possibilidades para os Lazzi - cacos, improvisações ou pintas.

Estou citando os termos em Italiano pois foi um forte da aula, esse e os exercícios de commédia del'arte citados pelo professor - como o arlequim que quebra uma estátua e para não ser repreendido pelo amo, assume seu lugar ou mesmo quebra um espelho e imita o amo para que ele não perceba. Há também o exercício do doutor, em que outro ator assume o controle de suas mãos e o clássico exercício do Pantaleão - andar como se guardasse dinheiro do cofrinho.

Existem algumas coisas que chamam minha atenção na Commédia - o teatro de entreterimento ponto. Hoje existe isso muito mais forte no cinema. Em Introdução ao teatro, Evânia pega com força no ponto da relevância socio-cultural do que estamos fazendo. Talvez essa reflexão excessiva de nossa importância em nosso contexto seja um pouco paralisante para o fazer teatral, talvez devêssemos fazer com naturalidade e ver, com entrega, onde nosso fazer nos leva. Assim, naturalmente as visões mais importantes no âmbito social teriam destaque, mas mesmo assim todo o fazer teatral teria sua importância pois foi feito com verdade; muito diferente da afetação e pedantismo ao qual estamos habituados.

Os temas importantes saltam aos nossos olhos - aquescimento global, crise do petróleo, tráfico de drogas. Mas só porque o lemos no jornal talvez não devessemos pular para fazê-los no palco. Talvez pudéssemos entender que não temos conhecimento ou exposição o suficiente do assunto para tratá-lo com a sensibilidade de um artista.

E esse talvez seja um mérito da commédia - eles admitem as próprias limitações e fazem algo frívolo do ponto de vista socio cultural. Imaginam quantas descobertas importantes no Renascimento, e na própria Itália! E mesmo assim os artistas estavam preocupados em divertir. Hoje o contexto é outro, é verdade. Há o cinema, o teatro de uma maioria Recifense é assaz banal e mesmo na sua banalidade é carente de qualidade.

Tivemos um intervalo que quase durou o tempo certo e não tivémos a gaiola por carência de elenco. Azar. No segundo bloco fomos para a França e para a Inglaterra, ainda que por alto.

Para o grande expoente francês - Molière - e o inglês - Shakespeare - São areia demais para uma hora e pouco de aula. Mas o professor foi gentil em pintar o contexto em que eles surgiram. Desconhecia, por exemplo, o rigor acadêmico que ia se firmando na frança e agora entendo melhor a crítica de Molière. Falando nele, lembrei de André Garrel, que bebe da fonte e faz críticas seríssimas e contextualizadas no meio da bufonaria de sua comédia.

Sobre Shakespeare é a segunda vez que Neemias toca no ponto do absurdo ou da inesistência de seu teatro. Quanto ao absurdo, pensei em transpor isso para nossa realidade, com curupiras aconselhando presidentes a reiventar o assistencialismo ou coisa parecida. Quanto a inesistência, afinal, quem garante a morte de Elvis, não é mesmo?

Ingrid levantou uma coisa curiosíssima - perguntou a visão do professor sobre o panorama do teatro europeu e brasileiro como um todo nos dias atuais. O professor disse que aos seus olhos estávamos dividos ainda na experimentação, no contemporâneo e nos que mantinham tradições. De uma forma geral isso é verdade. Mas eu, ainda um moleque, já me sinto pouco confortável com esse teatro dito "contemporâneo" já me inquieto com o excesso de proposta, com a falta de naturalidade, com um certo descaso para o público, de um novo eletismo vicioso. Queria ver um teatro mangue. Um teatro marginal. Recife, na sua posição cênica pouco profissional, é um local excelente para a reinvenção e destruição das idéias cult. Um dia ainda faço isso.

Porque é o seguinte - a partir do momento em que há o desconforto de uma classe ativa, é tempo de mudanças.

Outro ponto foi o mangá. E não venho o denfender como um fã, mas como um pensador de nossa história. Primeiro o mangá é um desenho com um público alvo diferente - adolescentes e adultos, principalmente - algo talvez novo para alguns, mas desenhos adultos são coisa bastante antiga. Por isso as histórias intrincadas e os valores diferenciados. Eles exploram o fantástico, o sexo e a violência porque são artigos de venda no mercado - se eles são culpados disso, hollywood também é. Outra - porque a estética do desenho animado seria inferior para a discussão da condição humana que qualquer outra? Existem verdadeiras obras de arte no quesito do mangá, como o Neon Gênesis Evangelion, que em 24 episódios mudou minha maneira de ver o mundo.

Além, é uma manifestação cultural antiga e importante no Japão, com a globalização e uma boa equipe de Marketing ganhou o mundo.

Outra coisa que lembrei nessa história de mangá é o cosplay, um teatro do público, baseado na imagem de todos no desenho, outra manifestação cênica que considero ainda inferior, pela falta de cuidado no trabalho dos atores, já que a estética fala mais que o conteúdo, mas importante para todo ator conhecer e analisar.

Houve mais, mas ficará para outro post.

Abraço a todos e boas apresentações hoje na aula de André.

O Capitão Tombado

Sobe o pano. Quase todos os alunos no SESC horas antes da aula ensaiando para a apresentação de André Filho, bom trabalho à todos. Já dentro da sala a primeira coisa que fizemos foi assistir a luta homérica entre Neemias, nosso ilustre professor de história de arte e o aparato tecnológico necessário para que assistíssemos ao filme "à viagem do capitão tornado", de Ettore Escola, com roteiro de Théophile Gautier e Vicenzo Cerami, rodado em 1990, todo em estúdio; inclusive dada essa limitação não existe plano aberto, é claro ao espectador, mesmo pelos padrões de 1990 que o cenário é falso e quase todas as tomadas estão recheadas de neblina para esconder o chão e fundo falsos.

Entretanto essa é minha principal ressalva do filme, pois na totalidade da sequência raras vezes me peguei reparando no ridículo da locação, na grande maioria viajei tranquilo e gostoso na história me deixando alegremente iludir pela poesia da película. As performances dos atores são muito boas, destaque para Massimo Troisi, no papel de Pulcinella, hilário; Emmanuelle Béart e Ornella Muti, nos papéis de Isabella e Serafina, respectivamente, lindíssimas.

A narrativa se passa entre a Itália e a França, em 1774, começa no meio, volta para o começo com flashbacks, retorna ao ponto em que começou no clímax e avança linearmente ao seu desfecho. Vicent Perez - O barão de Sigognac - está na carroça de uma trupe de atores à caminho de Paris mortalmente ferido e um fiscal de saúde que leva água para eles convence um deprimido Pulcinella a contar a história do Barão. Daí pulamos para um flashback ao começo da história.

O barão era um moleque falido e com piolhosaos cuidados de um servo gagá. A trupe pediu asilo em seu castelo frente à uma tempestade, entretanto só encontraram goteiras e carvão como hospitalidade. Na calada da noite o servo do barão os pediu que o levassem a Paris e inventou que se o Barão se apresentasse com uma espada ao Rei da França, ele restituiria a nobreza dos Sigognac por um dívida passada. Jean-François Perrier - O Sr. Matamorro, líder da trupe - acreditou na história e levou o barão consigo.

A partir deste ponto o diretor mostra sua genialidade em exibir a principal característica da commédia del'arte - a simbiose entre ator e personagem - ao passo que os atores da trupe receberam e trataram o barão não como si próprios, mas como as personagens que interpretam o receberiam. Assim a belíssima Serafina, que representava a cortesã, a adúltera o tentou seduzir enquanto Isabelle, que fazia a namorada, se apaixonou por ele. Pulcinella, o Arlequim assumiu para si o posto de servo do barão e ensinando-o a ser nobre.

Matamorro, o namorado, com ciúmes do novo nobre não desfalece de ciúmes, dando seu posto ao barão, que assume seu lugar como ator da trupe.

A filme tem frases memoráveis, dessas que falam à sensibilidade de qualquer ator, como "se não está louco nem miserável, ainda não é ator" ou "…Histórias de amor e aventuras… Você as terá mil vezes no palco… Mil vezes sorrirá, mil vezes vais chorar…" ou ainda "quem ama não é amado, quem é amado não ama".

É possível olhar a fome, a falta de instrução, a visão dos privilegiados sobre os atores, que os tinham como mendigos e cortesãos. E o movimento de nobres falidos e cultos sobre as trupes, o presságio da comédia renascentista francesa, que conheceria seu ápice em Molière, que manteve os tipos e a bufonaria nas histórias, mas passou a registrá-las e deixou perder nelas as máscaras que caracterizavam as personagens. Outra frase incrível do filme. Isabelle se amiga a um nobre e abandona a trupe, ao ver sua história escrita e satirizada pelo barão em uma peça pergunta "onde está nosso sofrimento?" e o barão responde com a máxima "ali, disfarçado na bufunaria. As pessoas só riem da desgraça".

Bem, foi isso. A quem interessar possa comentar para enriquecer a discussão acerca do filme.

A Viagem do Capitão Tornado

Elenco:

Vincent Perez (Baron of Sigognac)
Emmanuelle Béart (Isabella)
Massimo Troisi (Pulcinella)
Ornella Muti (Serafina)
Lauretta Masiero (Lady Leonarde)
Toni Ucci (The tyrant)
Massimo Wertmüller (Leandre)
Jean-François Perrier (Matamore)
Tosca D’Aquino (Zerbina)

Ficha Técnica:

Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 132 Minutos
Países de Origem: França / Itália
Idioma do Áudio: Italiano
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Théophile Gautier e Vincenzo Cerami